31 de dez de 2015

118 - O ÚLTIMO TEMPO




O tempo passava num instante.

O mágico lançou para a lua uma última olhada triste,
numa despedida que era apenas um silêncio
disfarçado de suspiro.

Depois, sentindo que ainda faltava alguma coisa,
deixou àquela pedra redonda, onde estivera sentado,
um único pensamento que já era de adeus:
“ –Estou a sentir-me como tu, pedra!”

E então foi-se embora, seguindo o seu caminho.
Já nem escutou  o que dizia a voz da pedra,
baixa e acostumada a não ser ouvida:

“- Ah, coitado! Também te dói o coração?”


( ÚLTIMO PEQUENO TEXTO DE 2015 foto colhida na net, sem autoria conhecida )

23 de dez de 2015

117 - PERPETUANDO-SE



Um dia decidi levar-te, Poeta, aos lugares onde se passaram  histórias das quais  já mal me lembro. Clareiras de luz diferente no meio do bosque que, entretanto, se agigantou em tons de verde pardo e tapetes espessos de caruma  antiga.

Terias apenas de descobrir os gestos de acariciar as pedras que os Poetas acariciam, tão conformes às suas mãos tacteantes, sensoriais.

Terias apenas de enfiar-lhes os dedos por baixo do musgo, aos poucos, em carícias cada vez mais íntima, até lhes sentires nas palmas das mãos os formatos arredondados, e te maravilhares tu também com o calor suave emanando delas, em secretíssimos prazeres.

Darias voz ao mutismo das sombras das árvores, que até aí dançavam só para mim. E mais brilho às lágrimas de resina com que ocasionalmente as árvores se traíam por entre a rude casca, em emoções de árvores, dissimulando a sua humanidade.

Quis levar-te e partilhar contigo momentos especiais. Talvez exibir-me um pouco. Talvez, ufano,  quisesse que me visses terminar de crescer, e fosses testemunha de um novo caminho, iniciando-se.

Só não esperava ser incapaz de surpreender-te, novamente. De ouvir-te as mesmas palavras como látegos, sibilando até me atingirem a alma com a fremência das coisas, num paroxismo particular dos sentidos.

De permanecermos dependentes e paralelos, depois de tudo, - dentro do acordo que um dia criamos juntos, e ao qual, um outro dia, eu daria um fim. Acordo do qual hoje desisto.

Sigamos, pois. Juntos, sim!

Nas mesmas veias, na mesma verve. No mesmo eco do Tempo…


(Tempo…Tempo…Tempo…) reverberado entre palavras de rocha viva…


15 de dez de 2015

116 - PASSARINHO





Escutava-se, havia já alguns dias, um ruído anormal vindo do exaustor de ar do banheiro aqui de casa – tão mais estranho quanto ocorria precisamente nas alturas em que estava desligado.

Intrigado, ponderei que não podia ser nada de muito especial. Afinal,  o exaustor é apenas  um pequeno motor eléctrico que suga o ar do banheiro e o expele por um tubo que vai até ao telhado, onde há uma espécie de pequena chaminé.

A única coisa que conseguia imaginar, capaz de produzir um ruído como aquele, era o de uma sacola de plástico que tivesse entrado pelo tubo e tivesse ficado entalada, de alguma maneira impossível de imaginar, vibrando com o vento e fazendo aquele som adejante como asas de um passarinho.

Asas de passarinho. O pensamento surgiu como uma martelada. Não podia ser. Já se escutava há vários dias, de vez em quando. Um passarinho não dura tanto tempo, dura ? E não se escutava nenhum pio, chilreio,  nada dessas coisas que supomos que os passarinhos fazem. Mas seria ? Um passarinho ?

Corri atrás da lanterna e dumas luvas, subi com um pé num banquinho e o outro no vaso sanitário, deixando a luz do tecto desligada para não fazer funcionar o exaustor. E não escutava nem mais um ruído, nada. Claro que não podia ser um passarinho, dizia-me um canto da razão.

Mas às mãos impelia-as o coração. Minha mulher segurava a lanterna, e meio no escuro, meio na sombra das minhas mãos, lá desmontei a face do aparelho, desliguei-o da electricidade, desaparafusei-o da parede e por fim, já de luz acesa, retirei-o do seu nicho dentro da parede com todo o cuidado.

Lá dentro era escuro, tubo de plástico preto, não conseguia ver bem e tive de usar a lanterna outra vez,  mas sim…Um pouco mais à frente estava um passarinho. Virava as costas para mim, e olhava para cima, para o túnel por onde chegara até ali, e por onde agora não conseguia voltar pois não tinha espaço para bater as asas.

Enrolei um pano na mão, que consegui a custo enfiar no buraco até apanhar o pequeno passarinho e trazê-lo para fora. Era um pardal comum, quentinho na minha mão, a quem tentei dar água molhando o dedo e encostando-o ao seu bico. Ganhei umas bicadas inofensivas mas cheias de combatividade. Forte, o seu coraçãozinho batia a mil por hora.

Decidi levá-lo até à janela do prédio e deixá-lo voar. Voou rápido e sem hesitações, apesar do cativeiro de vários dias, sem alimento nem água. O seu voo foi singelo e eficiente, desapareceu quase de imediato.  Mas recordo dele os olhinhos muito escuros e brilhantes e, acima de tudo, o som das asinhas batendo, quando saiu da minha mão. Era o mesmo som que eu escutava dentro da parede.

A alegria de vê-lo bem e voando, livre, foi avassaladora.

Depois o momento passou, Regressaram todas as coisas que tinham ficado em suspenso daquela hipótese de ser um passarinho, e que de repente tinham ficado priorizadas de uma outra forma. A internet disse-me mais tarde que se tratava de um pardal fêmea, e que viviam cerca de 15 anos, o que é muito mais do que eu poderia imaginar. Tal como jamais iria imaginar este presente de Natal, que a vida me deu, disfarçado de ser útil a um passarinho.



Feliz Natal, passarinho. Obrigado por teres vindo.


115 - NATAL DE POETAS



Não sei quantos somos hoje.
Nem me importa se mais, ou se menos.
Sei que nos cuidados infinitesimais
de cada linha escrita que encontro,
há gente como eu, que descubro aos poucos.
Há as magias e os convívios maiores que o tempo,
e as trocas fantásticas  semeadas nas tempestades
das ideias e dos ideais.
Há as doçuras compartilhadas,  das emoções em afagos, reverberando,
e gritos de solidão, despertando  ecos  em espaços cheios
e rumorejantes de não sabemos bem do quê.

Não sei quantos somos hoje.
Nem me importa se mais, ou se menos.
Importa-me que possamos ter voz, e ser esperança.
E que possamos cantar Natais cheios de beleza,
com risos em corais, e brilhos incendiados nos olhos
das crianças que soubermos ser  outra vez.
E sorrisos,  também, daquelas que ajudarmos a ser
nesse mundo onde as crianças vão tendo tudo,
e todos os meios, e todas as coisas,
menos a oportunidade de serem crianças.

Não sei quantos somos hoje.
Nem me importa se somos mais, ou se menos.
Mas, não sendo muito, somos Poetas.
E disso dependem sonhos e risos, fantasias e amores ,
decantados destinos e exacerbadas  dores
ideias com brilhos  de pó de fada, ecos de outros destinos,
sonhos de um mundo melhor, sabores de aventura,
montanhas escarpadas de sorrisos e palavras, carinhos, 
e os fascínios de todas as cores.

Não sei quantos somos hoje.
Nem me importa se somos  mais, ou se menos.
Mas a todos esses Poetas  de destino assumido
que continuam trabalhando,
eu desejo um  muito


Feliz Natal


21 de out de 2015

114 - INVENTOU-SE O POETA






Um dia alguém inventou por bem,
na comodidade tranquila de quem sonha
desejos sem risco, coisa para os outros,
que alguém mais fosse , dissesse algo
ou fizesse extraordinário feito,
que tivesse  os  contornos  grandiosos
e a aparência do inevitável.
E então, o nascer dos dias
passou a chamar-se amanhecer,
(se não foi ao contrário),
conforme desse jeito dizer,
ficasse mais bonito mostrar
ou de acordo com o sentir.

As folhas verdes das florestas
soaram chuva com as  gotas  grossas
repicando em branco, e
ficaram mais verdes, evidentemente.
E  nos prados daí em diante,
as flores  exalaram  em elegâncias,
não perfumes, mas  luxuriantes
gritos de cor dando trabalho aos artistas.

O mundo mudou
depois que alguém sonhou
para os outros  um mundo
com contornos grandiosos
e detalhes magníficos
vicejando nos lugares comuns.

Para uns, inventou-se o destino.
Para outros, inventou-se o Poeta.



(foto HMendes  / pelo Dia do Poeta  20.10.2015 )

11 de out de 2015

113 - SOCORRO






Não houve nenhum assobio baixinho,
como o vento faz nas frinchas das janelas.
Nem hastes de plantas,  inclinando-se em aviso,
postes oscilando luzes inúteis em vielas mais escuras ,
ou papéis voando misturados 
num caos de páginas não numeradas.

Foi apenas uma espécie de saudade

do espaço emocional mais curto,
menos estendido no tempo,
menos sujeito a efeitos de trama.

Saudade da coisinha que fica pronta,

em meia dúzia de linhas cujas emoções
crescem além das nossas que lhes deram vida.

Foi a sensação de falta desse olhar

tão benévolo, mesmo sendo crítico,
ou acre, não sendo doce,
e sempre doce, sendo de amor,
que se lança sobre o mundo
como uma escuridão de outras coisas,
e que nos isola, como se uma capa fosse,
do instante mais premente,
do projecto mais regrado e longo,
da prosa com um objectivo mais distante.

Já não me lembrava da solidão das folhas

amontoando-se para um livro.
Pude esquecer, sem senti-la, a fome
onde  nascem os poemas  de socorro...

Até hoje !

5 de set de 2015

112 - MONTANHA




Talvez não inventemos a montanha antes.
Ou talvez ela não exista.

Talvez nem haja,
entre o cume e a nossa vontade,
um caminho maior que os primeiros passos,
de entre tantos ascendendo sempre.

E todos eles sob o encantamento
desse ritmo atávico da estrada longa,
inescapável, e a perseguição errática
das folhas perdidas  pelos outonos
que nos acompanham.
( Ou, quem sabe, dos dois, movendo-se
lânguidos,  numa orgia lenta
de divindades estranhas.)

Ou então não passam de restos, apenas,
poeiras e folhas, ou memórias e momentos,
brisas e coisas assim mais simples
e sem graça mais profunda,
como frutos de acasos
e porque sim’s.

E do caminho nascido dos passos andando,
do cume ermo e estreito,
agora sem subida e sem momento,
nem paisagem que não seja de descida,
talvez não precisemos  mais
do que o mero tempo
para um gesto vago, de adeus.

Mesmo que não tenha importância
para que lado o aceno acontece, ou a quê,  
ou a quem, ou qual a história perdida,
tão frágil e única, que fica por contar.
Ou que outra, subindo a montanha,
tecemos em fios de ouro e fiapos de sonhos
maiores que as nuvens amarelas
dos desertos sem pegadas nem limites…


13 de ago de 2015

111 - CONTOS DE OUTUBRO





Do outro lado do vidro,  o cinzento dos dias
e aquela fumaça lenta das castanhas assadas, misturados,
perduravam  entre os prédios adormecidos às centenas,
como se fossem um todo. Parecia mais, até,
um liquido transparente fumado
que alguém houvesse derramado no mundo,
e parecia haver um perigo real em abrir a janela,
deixar  entrar tudo isso, e ficar afogado em algo
que seria o contrário de imensidão…

Por isso enfrentávamos a vida de mãos dadas,
com  essas interrogações nos olhos vagos de Poetas
-olhos que um dia exibimos  em plena ingenuidade,
enquanto deambulávamos pelo mundo intrépidos,
como quem tem sede  de ser sempre mais horizonte,
em  promessas de eternidade com detalhamentos
feitos de dedos entrelaçados nas fibras das almas.

Corríamos depois  das  aulas
até ao barracão de madeira, antigo,
onde desmontávamos o tempo amando-nos em pé, e
olhando o mundo pela janela das traseiras, lá de cima,
num arrepio de espaços.
De braços abertos ao abismo frágil do vidro, desafiantes,
amávamo-nos lentamente sorrindo das teias de aranha
que se nos emaranhavam nos cabelos, e no medo.
E ríamos de nós,  e dos que não olhavam para o alto nunca.

Noutros dias, corríamos de outra coisa qualquer,
por qualquer outra razão, e o frio apenas se aproximava,
e não era mais que uma promessa, como nós,
porque trajávamos já o futuro, e éramos felizes,
e tínhamos nos olhos o beneplácito de Deus
e aquela espécie de  pureza única das consciências 
que nunca ninguém interrogou…



E ainda era  só Outubro !


(foto colhida na net, de autoria desconhecida )

29 de jul de 2015

110 - TARDE QUENTE




Pisei naquela linha distante...
Naquele limite onde o tempo se rasga
e a vida fica algo estranha,
e todos os valores cedem um pouco,
se acomodam e ajustam
com aquele som de pano puído
que finalmente se esgaça,
abdica da complexidade objetiva da trama
e se reduz a fios soltos.

Isolados, são fios também,
mas não são mais aquela rede colorida
onde sonhei adolescências
em tantas tardes de calor inquieto.

Isolados, não me darão nunca mais
aquele balanço ocasional,
sem ritmo nem persistência,
que um calcanhar esquecido no chão
imprimia ocasionalmente.

Isolados, são apenas fios
retomando a sua identidade própria,
mas meros detalhes, apenas, duma história
que só juntos poderiam contar:
a minha história, de mim.

Isolados, são como palavras desconexas,
que não formam frases.
Que, no máximo, soam à saudade
duma rede balançando em
tarde quente...

(2009 revisado )




12 de jul de 2015

109 - TANTOS EM MIM ( cumpleaños - aniversário )






Hay días en que las palabras, por limitaciones características de su forma en cuanto comunicación, no  alcanzaron a decir todo lo que pretendemos.

Y no hay como ir más allá de ese punto donde, emocionados y frágiles ante nuestras emociones, nos quedamos aún  con el sentimiento de que es necesario decir o hacer algo más. Es eso lo que intento hacer (abajo) enseguida, con un poemita:
- Agradecer  a mi familia.  Y también a toda esa otra  tan especial, esparcida por ese mundo de Dios y hecha de amigos y amigas que me adoptaron y consienten, y que han descubierto formas de hacerme llegar sus abrazos y besos, vía Facebook  y otras vías, iluminando a mi alma y llenando de satisfacción la fecha de mi cumpleaños. ¡Gracias mil a todos!

En español:

A cada momento, un año que me tome,
levanto mis ojos,  mirando
los horizontes de las sorpresas
y no veo más que a otro más,
de esos tantos que no olvido nunca
pero que no esperaba ver así.

Son rostros de historias e instantes,
y sentimientos hincados en el tiempo,
que no se aplastaron entre sí
pero me hicieron lo que soy:
marinero  un poco rudo,
endurecido navegante de memorias,
que extraña las olas
cuando camina en la tierra firme, allá
donde los otros  sonríen.

Y Señor, como me quedo grato
por ese espejo donde
me dejas ver reflejada mi imagen,
de grandes ojos oscuros, sonriente
por ver llegar uno tras otro
todos esos  rostros-instantes
sonriendo para mí…

¡Muchas gracias a todos !

Em Português:

Há dias em que as palavras, por limitações características da sua forma enquanto formas de comunicação, não conseguem dizer  tudo o que pretendemos.

E nao há como ir mais além desse ponto onde, emocionados e frágeis  ante as nossas emoções  sentimos que ficamos ainda com o sentimento que é necessário dizer ou fazer algo mais... É isso o que tento fazer abaixo com um poeminha:


Agradecer à minha familia. E também a essa outra tão especial, espalhada por esse mundo de Deus e feita de amigos e amigas  que me adotaram  e que me toleram em minhas irreverências, e que descobriram formas de fazer-me chegar  seus abraços e beijos, via Facebook e outras vias, iluminando a minha alma e enchendo de satisfação esta data do meu aniversário. Mil obrigados a todos, ou, como se diz na minha cidade: Bem hajam !



A cada momento, mesmo que leve um ano,
ergo meus olhos, olhando
os horizontes das surpresas
e não vejo mais que a mais outro,
desses tantos que não esqueço nunca
mas que não esperava ver assim.

São rostos de histórias e instantes
E sentimentos fincados no tempo,
que não se esmagaram entre si
mas que fizeram de mim o que sou:
- marinheiro um pouco rude ,
endurecido navegante de memórias
que tem saudades das ondas
quando caminha em terra firme,
lá onde os outros sorriem.

E, Senhor, como Vos sou grato
por esse espelho , onde
me deixas ver reflectida a minha imagem
de grandes olhos escuros, sorridente
por ver chegar um após o outro
todos esses rostos-instantes
sorrindo para mim…

Muito obrigado a todos !



foto: Henrique Mendes
rev. lengua española: Connie Ureña Cuellar


28 de jun de 2015

108 - PENSAR O TEMPO




Olho para nossos passos, de Poetas…
Afinal,  acabou por ser diferente.
Nem a vida nos trouxe momentos tão maiores que nós,
nem nós soubemos, talvez, vivê-la de forma a merecê-los.
Mas será que provocamos novos brilhos nas estrelas,
como sussurros luminosos e  secretos,  mais vozes por entre vozes?
Será que lhes demos algo nosso, um  toque de precioso e único,
nesse afã de acariciar o outro lado da coisa simples ?
Não sei ...
Mas sei que vale a pena!

Sei que as minhas mãos acham, todos os dias,
o jeito daquelas carícias antigas, que um dia inventamos
e trouxemos  ao mundo convictos, com a alegria de quem  vê
velhos gestos florescerem em novos roçares de alma.
Sei que encontro sempre, no ar rarefeito do quotidiano,
os cheiros essenciais das descobertas surpreendentes
com que acrescentamos aos dias o nosso colorido feliz.

E nessa torre, que pelo tempo fomos construindo
em  coloridos tijolos feitos de  instantes de Poeta,
o tempo passou sem que víssemos,
e a cada dia fomos  erguendo em todos os tons
as paredes arco-íris de um novo piso 
que na véspera ainda não havia,  nem
sequer estava por inventar, ou
a sua falta por sentir,
ou ainda não estavamos tão alto
que o ar rarefeito nos deixasse tontos,
num outro prodigio de uma outra embriaguês.

Só aos poucos pensamos em escadas,
e no tamanho de todo esse edificio,
e no lado prático do que não nasceu para ser assim.
E tontos, tropeçamos em restos de palavras abandonadas
acumulando-se nas sombras como lixo de obra,
rico em coisas que não dissemos.
E, Poetas, esbarramos no medo que nos é atávico
de encontrar palavras de onde a poesia está ausente.
E isso… não !

Antes o silêncio alegre
das páginas em que nos revemos,
nos escritos dos outros.
Antes as memórias dos nossos cadernos
carregadas com tanto desse tudo quanto fomos
enquanto fomos sendo tantos
desses outros tantos 
que afinal somos,
sendo únicos e Poetas.


foto HMendes




8 de jun de 2015

107 - DESTINO







Há passos que não se dão !
Apenas aparecem dados, simplesmente,
como se, ás vezes,  a Vida fizesse por nós
aquilo que nós não temos a coragem de fazer.

Assim, seja por decisão tomada
ou por conspiração de acasos,
vemo-nos postos nos trilhos certos,
rumando áquele ponto
onde presente e futuro se intersectam
e desenham este hoje
onde nossos passos já ecoam,
embora ainda a medo,
embora ainda em esboços e hesitações,
mas convergindo já para ser
esse fim maior,
esse ponto fantástico,
esse último reduto da lógica e do controle
além do qual começa um outro, inexorável,
maior que nós,
ao qual reverenciamos, chamando-lhe
Destino !



12 de abr de 2015

106 - AS TRÊS PÉROLAS ( en português + español )




As montanhas, tão escarpadas, e os longos caminhos subindo sempre, tão cheios de perigos, faziam com que os povos daquelas aldeias na base da montanha, bem pertinho do mar, tendo sustento fácil  nas águas e na terra plana, simplesmente não subissem até lá acima.

Às vezes encontravam-se com as gentes lá do alto, quando viajavam por mar até às outras aldeias que ficavam do lado de lá da ilha e da grande montanha, para onde era fácil aos que viviam lá em cima descer quando queriam.

Mas no resto do tempo, viviam nas suas aldeias, tranquilamente. Olhando para cima, viam a grande lua no céu, magnífica, e na sua simplicidade achavam que era uma grande pérola. E erguiam para ela os seus olhos e os seus pensamentos, fascinados com tanta beleza, e fantasiavam como deveria ser maravilhoso viver num lugar tão alto, mas tão alto, que a pérola nunca se escondesse por detrás de nenhuma montanha. Esse era o sonho de todos.

E que bela era, aquela pérola. Que enorme e que preciosa. Todos gostariam de tê-la, mas todos sabiam também como era impossível. Sabiam que lá no alto da montanha estariam mais perto, poderiam vê-la durante toda a noite, mas ainda assim não conseguiriam chegar-lhe.

Então, em algum momento que já ninguém saberia precisar, começaram a surgir uns rumores sobre a existência de uma outra grande pérola escondida na selva, numa clareira mágica onde havia um pequeno lago. E as gentes lá do alto da montanha abeiravam-se do imenso precipício para vê-la brilhar cá em baixo, por entre as árvores.
E foi assim que, aos poucos, alguns buscaram descobrir o caminho  até essa clareira na selva, onde havia um lago com uma pérola bastante menor, mas que podia ser alcançada.

Podia ver-se, nos olhos de quem adentrava o bosque assim tão profundamente, uma espécie de reverência crescente que já dizia tudo, e que ia aumentando com a compreensão de que esse lugar, onde ia chegando, era sagrado.

E  na entrada da clareira, perante aquele raio de luz crua onde oscilavam sugestões de todos os tipos, cintilando ora em brilhos de estrelas, ora em pó de fadas, olhavam para cima e viam-no rasgar a penumbra verde-folhagem  do lugar e cair precisamente sobre o pequeno lago de águas transparentes, revelando, enorme e enigmática sobre a areia alva do fundo, uma magnífica pérola em repouso.

Talvez não houvesse em nenhum outro lugar uma luz assim, que tão bem revelasse a perfeição daquela pérola singular, evidenciada de uma tal forma, com tal pureza, que tudo mais se recolhia a um segundo plano, como se servisse apenas para acolchoar, como num estojo, o lugar onde ela se exibia em seu fantástico repouso.

Era enorme e singela, e estava ali, apenas, sobre a areia muito fina e pura do fundo do pequeno lago, cujas águas frias nada jamais parecia perturbar.  Não havia vento ou folhas errantes, nem poeira buscando outros caminhos, ou sequer um pequeno animal  sedento… Nada jamais fazia estremecer a sua superfície, ou diminuir a sua transparência.

O lugar era antigo, e cheio de lendas, e poucos eram os que conseguiam alcançá-lo, mesmo os que se dispunham a caminhar longas horas pela  floresta muito densa, tentando seguir trilhas praticamente invisíveis.

Mas mesmo pelo caminho, olhando em redor, era possível ir descobrindo vestígios da presença de outros. A vegetação ganhava um tom de verde um pouco mais dourado e, discreta, escondia pequenos objectos um pouco por toda a parte.  

Aqui eram potes de barro, com tampa, muito ornamentados. Pratos com o que pareciam ser restos de oferendas. Pequenas caixas. Mais além uma pequena flauta de osso. Pequenas candeias de óleo, agora apagadas. Moedas. Algumas jóias. Algumas das coisas, nítidamente muito antigas.

Dizia-se que, mesmo nas noites mais escuras, havia na clareira aquele brilho especial, como o da pérola no lago, mas isso ninguém conhecido poderia garantir. E que esse brilho aparecia nos olhos daqueles destinados a conhecer a pérola no lago, e também nos olhos dos apaixonados quando se julgam a sós e ficam pensam na pessoa amada. Não sei.

O velho pescador de pérolas, muito pobre, ainda estava abrindo algumas ostras com a faca, agachado no fundo do seu barco encostado ao meu, no final da tarde que já corria para a noite, enquanto me contava esta história antiga.

Dizia-me que a escutara pela primeira vez do seu bisavô. E de vez em quando olhava para terra. Não para o céu, como eu esperaria, mas para um ponto no meio da mata, junto à base da montanha. Olhei também, mas não chegou a ser um brilho o que vi, e durou apenas um momento. Assim mesmo, chegou para me fazer interromper o que estava perguntando, e ele percebeu.

- Você também viu, agora mesmo, não foi ? – e riu-se desdentado, uma risadinha cúmplice e longa. – Lá do alto da montanha, olhando para baixo também se vê, às vezes, pelo meio das árvores. E é uma pérola grande, garanto. Uma vez, eu fui lá acima de propósito para ver…

Surpreendido, tudo o que consegui foi interrogá-lo.

- Então é verdade, tudo o que dizem ?- perguntei, olhando para ele.

Ele encarou-me sempre sorrindo, enquanto respondia. Entretanto ficara quase noite, e o seu sorriso era mais largo. Nos seus olhos, duas pérolas agora brilhavam olhando para mim.


- Meu filho, eu sou só um velho ignorante que apanha pérolas. Escolhi não viver lá em cima, porque não aguentava estar tão perto e não alcançar a maior de todas elas. E depois, não quis ficar numa dessas aldeias na base da montanha, e viver correndo atrás dum brilho na selva, onde os caminhos mudam constantemente de lugar,  e onde  alguns  homens se perdem para sempre. 

Fez uma pequena pausa, algo emocionado.Depois continuou:

-Por isso vivo na praia, e neste  barquinho. E tenho todas as três pérolas ao mesmo tempo: - Tenho aquela gigante, lá em cima, que a montanha esconde depois de um tempo. Tenho a outra, que a selva  abriga no lago, e que às vezes brilha para mim um sorriso rápido por entre a escuridão da mata, como você viu também, há pouquinho. E tenho estas pequenitas – mostrou uma, erguendo a mão - que as ostras me vão oferecendo, uma de cada vez, e que para mim não valem quase nada…

12.04.2015


                                                   En español: Las Tres Perlas


Las montañas, muy escarpadas y los largos caminos subiendo siempre, tan llenos de peligros,  hacían que las gentes de aquellos pueblos al pie de la montaña, tan cerca al mar, teniendo sustento fácil en las aguas y en la tierra plana, simplemente no subiesen hasta arriba.
A veces  se encontraban con las otras gentes que vivían en lo alto, cuando viajaban  por mar hasta los otros pueblos que quedaban del otro lado de la isla y de la gran montaña, para donde era sencillo a los que vivian arriba descender cuando querían.
Pero todo el tiempo restante, vivían en sus pueblitos, tranquilamente. Mirando arriba, veían la gran luna en el cielo, magnífica, y en su sencillez creían que era una gran perla. Y levantaban hacia ella sus ojos y sus pensamientos y sueños, fascinados con tanta belleza, y tejían fantasías  sobre cómo debería ser maravilloso vivir en un lugar así tan alto, pero tan alto, que la perla jamás se escondiese por detrás de ninguna montaña. Ese era el sueño de todos.
Y que bella era, aquella perla. Qué enorme y qué preciosa. A todos les gustaría tenerla, pero todos sabían que eso era imposible. Sabían que en la cima de la montaña  estarían más cerca, que podrían verla la noche entera, pero aún así  no alcanzarían a tocarla.
Fue entonces, en algún momento que nadie sabría  precisar, que empezaron a nacer rumores sobre la existencia de otra  gran perla escondida  en la selva, en un claro  mágico donde había un pequeño lago. Y la gente de lo alto de la montaña se acercaba al precipicio para verla brillar en la selva, mucho más abajo.
Fue así que a los poquitos algunos buscaron descubrir el camino hasta ese claro en la selva, donde había una pequeña laguna con una perla bastante menor, pero que podía ser alcanzada.
Podía verse en los ojos de quien se adentraba al bosque así tan profundamente, una especie de reverencia creciente que ya decía todo, y que iba aumentando  con la comprensión de que ese lugar, donde se acercaban, era sagrado.
Y en la entrada de ese claro, ante aquel rayo de luz cruda donde oscilaban sugestiones de todos tipos, cintilando ora en brillos de estrellas, ora en polvo de hadas, miraban arriba y lo veían rasgar la penumbra verde-hoja del lugar y caer precisamente sobre la pequeña laguna de aguas transparentes, revelándose, enorme y  enigmática sobre la arena alba del fondo, una magnífica perla en reposo.
Tal vez no hubiese en ningún otro lugar una luz así, que tan bien revelase  la perfección de aquella perla singular, evidenciada de una forma tal, y con tal pureza que todo lo demás pasaba a un segundo plano, como si fuera apenas para acolchonar como en un estuche, el lugar donde ella se exhibía en su fantástico reposo.
Era enorme y única, y allí estaba, apenas, sobre la arena muy fina y pura del fondo del pequeño lago, cuyas aguas frías nada jamás parecía perturbar. No había viento u hojas errantes, o polvo buscando otros caminos, o siquiera un pequeño animal sediento… Nada jamás hacía estremecer  su superficie, o disminuir a su transparencia.
El lugar era antiguo y lleno de leyendas, y pocos eran los que podían alcanzarlo, mismo entre aquellos que se disponían a caminar  largas horas por la floresta muy densa, intentando seguir sendas prácticamente invisibles.
Pero igual en el camino, mirando alrededor, era posible ir descubriendo vestigios de la presencia de otros. La vegetación ganaba una tonalidad de verde un poco más dorado y discreta, escondía  pequeños objetos  un poco por todas partes.
Ahí estaban potes de barro con tapa, muy ornamentados. Platos con lo que parecían ser restos de ofrendas, pequeñas cajas y más allá, una pequeña flauta de hueso. Pequeños candiles de aceite, ahora apagados. Unas pocas moneditas por todos lados, y varias joyas sencillas, algunas de ellas claramente muy antiguas.
Contaban que, en las noches más oscuras, no cambiava aquel mismo brillo especial, y que todo el claro seguia iluminado por la gran perla que reposaba en el pequeño lago, pero eso nadie podía  garantizarlo. También se decía que ese brillo aparecía en los ojos de aquellos destinados a conocer la perla, en el lago, y que era el mismo  que se puede ver en los ojos de los enamorados, cuando se creen solos y se quedan absortos, pensando en la persona amada. No sé.
Sé que mientras platicábamos, el viejo pescador de perlas, muy pobre, aún estaba abriendo  algunas ostras con su cuchillo de hoja corta, de cuclillas en su barquito junto al mío, en ese final de tarde que ya corría hacia la noche, mientras me contaba estas viejas historias.
Me decía que las había escuchado por primera vez del padre de su abuelito. Hablaba  despacito y sus ojos frecuentemente miraban la tierra. No al cielo, como esperaba yo, sino hacia un punto en medio de la selva junto a la base de la montaña.  Por intuición, miré también y alcancé a ver algo que no llegó a ser exactamente un brillo, y que duró apenas un momentito. Asimismo, fue suficiente para detenerme en lo que le preguntaba, y él lo sintió.
-También lo viste, ahora mismo, ¿verdad?- y su risa desdentada era cómplice y no permitía negativas. -  Cuando se mira  de lo alto de la montaña para abajo, también se puede ver a veces, por en medio de los árboles.  Y es una perla grande, te lo puedo decir sin dudas… Una vez  subí arriba  para nunca más tener dudas… Sí… es grande !!!
Sorprendido, todo que alcancé a hacer fue interrogarlo más.
-Entonces, ¿es verdad todo lo que dicen? pregunté mirándolo a la cara. El viejo,  mirándome también, sonreía siempre mientras me contestaba. Mientras hablábamos el día ya se fuera y se instalaba la  noche. Su sonrisa era ahora más ancha, y en sus ojos, dos brillos como perlas de luz me miraban intensamente.
-Hijo, yo no soy más que un viejo ignorante que pesca perlas… Escogí no vivir arriba en la montaña porque no soportaba  ver la más grande de todas las perlas tan cerca de mí y, aún así, no poder alcanzarla. Y tampoco escogí vivir en uno de esos pueblitos al pie de la montaña. No…No quise vivir caminando por la selva, corriendo en busca de un brillo por caminos que  la propia naturaleza va cambiando de lugar, y donde muchos hombres ya se perdieron para siempre. No…
El viejo hizo una pequeña pausa sin hablar nada. Después, emocionado, retomó lo que decía:
- Por eso vivo allá, en mi cabañita en la playa, y aquí en este barquito sobre la mar. Y así tengo las tres perlas al mismo tiempo:  Tengo aquella gigante, arriba, que la montaña esconde pasado un tiempo, cuando la miras mucho. Tengo aquella otra, que la selva abriga dentro de aquel lago, y que a veces brilla como una sonrisa en medio de lo oscuro de la selva – como lo viste también, hace poquito, no ??? Y tengo estas pequeñitas  así – mostró una acercando la mano – que las ostras me van regalando una a la vez, y que, para mí, no valen casi nada…


Revisado por Connie Ureña C.