29 de jul de 2017

149 - INDIFERENTE



Talvez um dia
eu me ausente de mim
e deixe que se apague
essa chama que hoje
me corre nas veias
como força vital.

Continuarei sendo eu,
apenas mais distraído
enquanto passo
rumo a algum mistério
do momento que for.

Talvez achem por bem
reservar-me o carinho
devido aos desconhecidos,
que percorrem o mundo
em passos só seus.

Se assim for, espero 
partilhem meu mantra
tendo na voz o encantamento
das subidas que antecipam
os mirantes.

Se não acharem,
peço para mim aquela indulgência
grata aos que não querem incomodar,
e que me deixem seguir tranquilo
com o vento do instante.

E se não acharem nada,
não será grave.
Talvez nunca me tenham visto.
Ou talvez não estivessem presentes
para me verem, quando passei.


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23 de jul de 2017

148 - NO ALTO DA MONTANHA DO ADEUS




No alto da montanha do adeus
há um grito rasgado e dolorido
feito do que não se escuta.
E um silêncio que se agiganta e
deixa por dizer o já sabido,
onde o desnecessário esmaga
os instantes do instante,
e o dilui no tempo.
Há uma espécie de noite
que invade  e amordaça
a claridade final dos destinos
que se cumpriram até ao cume.
E os cheiros?  Bem, os cheiros
evocam os caminhos percorridos
que, ali, chegaram ao fim.


No alto da montanha do adeus,
os gestos são estranhos,
um pouco reticentes  e inúteis,
como desculpas sobejamente
conhecidas.


Instala-se um silêncio
com poucos murmúrios, no vento:
-memórias que ainda tentam
uma vez mais repetir-se,
borbulhando lentamente e sem fé,
enquanto se vão fundindo
no caldeirão fuliginoso do tempo
rumo a um passado concluso.


No alto da montanha do adeus
fica o pico ermo e agreste,
inacessível,
onde cabe apenas um só.                                                


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20 de jul de 2017

147 - TODOS OS AMIGOS









Todos os amigos que não tive
me deixaram no peito, em aberto,
um buraco largo e sombrio,
profano e sem remédio.


Mas todos os que tive foram bons
e procurei dar-lhes o carinho certo
para trazê-los até hoje,
numa valsa que o tempo dançou.


Também foram excelentes
os que imaginei ter, e me levaram
a ser melhor buscando os caminhos
da reciprocidade fértil
-mesmo que desiludida.


E a todos os outros, que o não foram,
devo-lhes o tempo poupado
em reticências.


Que o tempo nos traga
mais a todos,
neste dia e sempre.