10 de set de 2018

171 - MEMORIA ANTIGA




Não estava a pensar em nada de especial, apenas deixava a mente vaguear a seu bel-prazer, sem muita apreciação do que ela fazia. Os pensamentos sucediam-se sem me despertarem grande atenção ou críticas. Modorrava.

E foi assim, inesperadamente, que me deparei com uma recordação antiga. Não a mais antiga das que tenho, mas seguramente das mais antigas.

Da minha rua de hoje,  dum prédio distante em obras,  chegavam-me pela janela os ruídos de marteladas em concreto, coisas caíndo e sendo arrastadas, motores trabalhando. Chegavam-me também os aromas do rio, tão próximo, e de vagas flores em finais de tarde na varanda de alguém.

Talvez tenha sido tudo isso que, somando-se, me transportou para o meu quarto de criança, muito menino ainda, e para um início de dia, cheio de aromas e sons.

Dessa janela de então vinham-me os ruídos muito vagos do dia que começava e os cheiros do jardim,  onde o canteiro das ervilhas-de-cheiro, misturadas com outras flores noturnas, terminava de adocicar a noite.  Também o pessegueiro se erguia alto em promessas de futuro, ostentando pequenas flores rosadas e um cheiro já presente de frutos doces e carnudos.

Um barulho irregular de pedras batendo no cimento do quintal, foi-me despertando e incomodando até me fazer abandonar o meu sono tranquilo de criança feliz e me levar a olhar lá para baixo pela janela.

Ainda fui a tempo de escutar vozes e ver mau pai junto do velho portão de ferro, onde eu cavalgava meus sonhos de faroeste com penas de galinha na cabeça e, na mão,  um pau comprido que se transformava em lança.  Ele antecipara-se a averiguar a causa dos ruídos e acabava de pôr na rua um rapazote que tinha invadido o nosso quintal. Era visível o esforço que meu fazia para se controlar e não perder a cabeça, e minha mãe procurava acalmá-lo o melhor que podia.

Percebi depois o que o que se tinha passado. O rapazote, já bem no fim da adolescência, tinha visto da rua um pequeno cágado que tínhamos no jardim, e que na maior parte da sua calma vida ficava escondido na terra, entre folhas caídas e plantas, mas que nesse dia caminhava sobre o cimento do caminho da entrada, visível e desprotegido.

Claro que algumas vezes o víamos a beber água nos pratos dos vasos, ou meio mergulhado numa poça que meu avô tinha feito exactamente para isso, afundada no chão e para onde escorriam as regas diárias do jardim. Mas na verdade quase nem nos lembrávamos dele. Era apenas uma presença tímida por ali, que vivia a sua vida conosco. Uma curiosidade que eu, menino, tinha sido ensinado a respeitar e que me divertia com seus movimentos  lentos e desajeitados.

Foi essa essa pequena criatura que atraíu  o intruso. Cheio de um ódio incompreensível para mim até hoje, saltou por cima do muro, e virou o pequeno cágado indefeso com a barriga para cima. Depois atirou-lhe pedras, uma após outra, até que o pequeno animal sangrou abundantemente, a sua couraça rachada pelas pedradas  e incapaz de protegê-lo de uma agressão assim.

Hoje entendo que quando cheguei perto, já os meus pais sabiam que ele não iria sobreviver. Mas assim mesmo, lembro-me  que tentaram salvá-lo, e que fizeram uma pequena encenação,  em meu benefício. Lembro-me vagamente de o terem pincelado com mercurocromo, enquanto ele agitava cada vez menos as patinhas. Depois o meu pai enfaixou com gaze a carapaça, tentando mantê-la junta para lhe dar uma hipótese ( mesmo que improvável ) de soldar. Mas como ajudar um cágado, um bicho tão diferente de todos os outros?

Pouco depois tinha morrido, e também em meu benefício foi feita uma pequena cerimónia de adeus em que o enterramos dentro duma caixinha de papelão. Creio que com ele ficou aquela parte ideal, encantada, da infância de cada um de nós, que desagua na realidade mais cruel, e muitas vezes incompreensível, da vida e do mundo dos outros.

Tudo foi feito com muita suavidade, e realmente meus pais conseguiram não alimentar a minha revolta e fazer com que me esquecesse do ocorrido até há pouco dias, tantas décadas depois.

Raramente vou à minha cidade natal, onde tudo isso aconteceu. passou. Mas a casa ainda existe, com o jardinzinho lá ao fundo do quintal, e na próxima vez que por lá passar vou lembrar-me de como foi bom ser menino ali, e recordarei o meu pequeno cágado - morto apenas por estar à vista.

Chamava-se Berloque.


17 de ago de 2018

170 - CULPEM O VENTO




Quando os ventos não sopram,
não há planícies onde searas ondulem
nem vales onde as árvores se curvem
aos assobios insistentes que as desfolham.

Não se formam redemoinhos fúteis
na poeira dos caminhos, quaisquer que sejam,
nem há folhas mortas que se escondam
pelos cantos mais esconsos dos lugares.

Não há montanhas que os impeçam
ou lhes mudem a trajectória inexistente,
e até as velas dos barcos pendem inúteis
no sem-propósito de uma ilusão.

Mas quando as searas se vergam em ondas
duma agitação elegante e sem ninguém,
em que a palha continua perdendo grão a grão
num prenúncio de  misérias e de falta de pão...

Quando o azul dos céus torna ridículas
as queixas dos olhos, em lágrimas incompreensíveis
que logo secam, mal nascidas de algo que não se vê,
e logo desconexas de um motivo aparente...

Quando assim é, que não se inventem histórias
nem aceitemos como plausíveis ao instante
as explicações  dos que disfarçam a verdade.
Não deixemos travestir aquilo que todos já sabem.

Mesmo quando o seu sopro permanece invisível,
sabemos que foi o vento. Foi o vento...

copyrightHenriqueMendes2018

14 de ago de 2018

169 - O BIG BROTHER TÁ DE OLHO EM VC


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Crónica do "big brother"

Na escola, enquanto almoçávamos, havia um sujeito que circulava por entre as mesas sempre atento ao que fazíamos e dizíamos. Não tinha nenhuma função, nenhum tipo de poder, nada. Mas sempre aparecia rondando, rondando, e ia interrompendo as conversas  e dizendo pequenas coisas como " bom dia!" ou "boa tarde",  só para garantir que estavam a vê-lo prestar atenção a tudo o que era dito.

Graças a tanta interrupção, todos começaram a calar-se quando ele se aproximava. Ou então falavam de coisas sem grande sentido, como a sopa, ou o tempo. Toda a gente se sentia desagradada por sentir-se assim observada, e logo a turminha mais irreverente lhe chamou "O Sinistro". Foi uma risota geral.

Mas a verdade é que ele teimou e, com isso, rapidamente foi promovido de "Sinistro" para "Agente Secreto", e a turminha riu mais ainda quando a alcunha se agarrou a ele como um carrapato que o acompanhava para todo o lado. Por fim, até quem não era cliente do refeitório só falava dele assim, como "Agente Secreto" que, sendo conhecido de todos, todos passaram a ignorar.

Por fim, o golpe de misericórdia veio de uma forma simples. Alguém se referiu a ele como sendo o "Fiscal da Sopa" e  o título foi tão ridículo, colou tanto nele, que o sujeito nunca mais conseguiu intimidar ninguém.

Entretanto, o que nunca ninguém comentou a respeito do Agente Secreto foi que ele era realmente Sinistro. E que o título de Fiscal da Sopa se mostrou o retrato fiel da sua inutilidade.


11 de jun de 2018

168 - RENASCIDO






Lancei-me em versos
como se fossem passos
rumo a algum lugar,
exigindo um caminho.

E do caminho nascido assim,
nasci caminheiro, viajante,
lançador de redes que
armadilham palavras.

E das palavras nasci outro.
Um pouco ao lado de mim e
dos meus passos redescobrindo-se,
dos meus caminhos refazendo-se e
das minhas crenças que se renovavam.

Passei a encontrar-me nas surpresas
que os passos contam,
e na busca de profundidade
das frases que me compõem.

Renasci como renascem todos os dias,
em segredos de instantes.




copyrightHenriqueMendes/2018

2 de jun de 2018

167 - O JANTARZINHO DE ONTEM


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Ontem fiz o que raramente faço. Cedemos a um petisco que ambos gostamos e, para comê-lo, jantámos, minha mulher e eu, na praça de alimentação dum shopping aqui perto de casa.

Observei que parecia haver mais crianças que o habitual, empurradas nos seus carrinhos por suas dedicadas mamãs e papás, mas acabei conjecturando que talvez fosse apenas porque as crianças hoje são muito mais visíveis. Visíveis, sim !

Os carrinhos são prodígios tecnológicos, com pneus capazes de encarar qualquer rallye pelos matos da capital, que fazem os papás estugarem o passo - talvez na procura inconsciente de se enquadrarem no sucesso daquele look mais desportivo dos seus pimpolhos. E as roupas, tal como os acessórios, no mínimo são condizentes e lindas.

Foi neste contexto que vimos chegar no seu carrinho quase espacial uma criaturinha linda, empurrado apenas pelo papá, até encalhar na mesa a nosso lado. Rápidamente, com meia dúzia de pequenas adequações, o carrinho aumentou de altura permitindo que o garoto ficasse na posição certa para usar a mesa, apesar do cinto de segurança e demais dispositivos destinados a prevenir quedas e fugas.

Pudemos assim ficar maravilhados com as roupinhas que usava com o ar mais natural do mundo: calças jeans azuis, com um cinto a condizer, e um polo vermelho intenso igual ao meu que lhe deixava de fora os bracinhos gorduchos. Reparámos que usava nos pézinhos uns sapatitos casuais de vela, tipo dockside. Por fim, ficamos definitivamente encantados quando olhou para nós e tirou, num gesto singelo de quem está muito acostumado a fazê-lo, os óculos de sol, revelando um olhar intenso, esperto e azulíssimo. Que menino fantástico!

Daí para a frente, fomos saltando de surpresa em surpresa. Mamãe chegou com comida e rápidamente foi colocando ao alcance dele uma caixinha de cartão com batatas fritas. E outra com umas pepitas de frango frito, além de um saquinho com umas tirinhas de cereais fritos, também, e um copo de um refrigerante inespecífico, com um canudinho.

O garoto, comportadíssimo e alheio a tudo o que o rodeava, ia comendo de tudo com uma mão, enquanto mexia com a outra no telefone do papá, onde acontecia um joguinho electrónico qualquer, com uma musiquinha daquelas que só as crianças aguentam. Os pais não trocavam uma palavra entre si, dividindo os interesses entre a criaturinha e a sua própria comida.

Havia algo de vagamente insólito em tudo aquilo, que aos poucos nos ia roubando o sorriso, mas acabámos entendendo quando, mais tarde e já em casa, soubemos pela internet que era Dia da Criança.

Lembro-me que remeti um pensamento em direcção a esse menino, já tão lançado na senda dos homens normais, dando-lhe os parabéns e desejando-lhe uma vida feliz.

30 de mai de 2018

166 - NO ALTO DA MONTANHA DO ADEUS



No alto da montanha do adeus
há um grito rasgado e dolorido
feito do que não se escuta.
E um silêncio que se agiganta e
deixa por dizer o já sabido,
onde o desnecessário esmaga
os instantes do instante,
e o dilui no tempo.


Há uma espécie de noite
que invade  e amordaça
a claridade final dos destinos
que se cumpriram até ao cume.
E os cheiros?  Bem, os cheiros
evocam os caminhos percorridos
que, ali, chegaram ao fim.

No alto da montanha do adeus,
os gestos são estranhos,
um pouco reticentes  e inúteis,
como desculpas sobejamente
conhecidas.

Instala-se um silêncio
com poucos murmúrios, no vento:
-memórias que ainda tentam
uma vez mais repetir-se,
borbulhando lentamente e sem fé,
enquanto se vão fundindo
no caldeirão fuliginoso do tempo
rumo a um passado concluso.

No alto da montanha do adeus
fica o pico ermo e agreste,
inacessível,
onde cabe apenas um só.    
           




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17 de mai de 2018

165 - A CABEÇA E O PREGO




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É a cabeça, e não o prego,
quem mantém unidas as partes.

A ferrugem cria um espaço próprio 

na madeira que a desidratação mirrou.

É assim que o prego deixa de ser prego,

com a oxidação do tempo passante.

É assim que se desunem as peças,

nessa união tornada lassa.

E talvez o prego nem tenha culpa,

quando a cabeça lhe sobressai da tábua lisa.

Mas quando o talho surge na topada dolorosa,

num insólito de sangue pelo chão...

vem o esboçar  de uma surpresa 
que não existe realmente

... escolhe-se o silêncio, e despreza-se a culpa

sem reconhecer o parafuso que faltou.

O perdão presume-se implícito
no sofrimento subsequente.


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