4 de mai de 2017

146 - APOÉTICAS 1





















Quem contava sobre ela era minha avó, aproveitando aquelas  noites longas de fogão de lenha e neve lá fora. E contava como se fosse uma lenda que já vinha lá dos tempos mais antigos, quando princesas e príncipes  faziam parte das histórias, e as lendas nasciam dos pequenos gestos mágicos de quem as contava.

Quando falava dela, Vó sempre dizia como ela era bela, primeiro. E só depois contava sobre como ela deslumbrava a quem a via, por causa daquele jeitinho tão seu, tão frágil, de ser especial. É que ela mostrava-se única, e sobressaía entre todas as outras .”– “E olhem que eram uma multidão que a rodeava!” apontava Vó, não querendo  que isso passasse despercebido.

Mas depois, logo acrescentava que todas eram só um pouquinho menos sublimes que ela, apesar de serem lindas… Claro que, assim, ela ia ganhando aos poucos, cada vez mais, a fama de ser maravilhosa.

E era, sim. Era única e bela, e enchia os olhares de todos com esperanças até então adormecidas. Dava mais cor ao dia de quem nela punha os olhos, e se perdia  de amores. E ninguém resistia a esse seu encanto.


E era só quando chegava a este ponto que Vó contava o resto. Parecia quase uma explicação que nascia assim, das nuances semínimas da sua voz tranquila - voz de Vó, voz de contadora de histórias.

Ela dizia que o destino tinha interferido, e eu acreditava. Devia ser verdade, posto que o destino sempre interferia nas histórias de Vó, e naquela não ia ser diferente.

Por isso, quando Vó continuava a história e contava que já era do destino daquela beldade ser assim, tão bela e tão especial, ninguém estranhava. Menos ainda estranhávamos quando ela acrescentava que, porque isso já estava no seu destino antigo, acabou acontecendo que a bela foi amada como nenhuma outra.

Claro que Vó sempre tentava encontrar algum tipo de conclusão, ou de moral, na história. Por isso comentava o excesso desse amor.
“-Era amor demais!”- dizia. “-Tudo o resto, todos os outros, ficava num segundo plano, um pouco distante e ofuscado pelo brilho desse sentimento entre a bela e o seu par!”

Vó  explicava que, à sua maneira, ele também era muito bonito.  Forte e incisivo,  e rodeava a bela de atenções, defendendo-a dos perigos circundantes. Era mais agressivo que ela, mas discreto e tenaz na sua forma de sempre estar perto.

Dizia que eram inseparáveis, duma forma tão conhecida e tão perfeita, que acabou gerando invejas e ciúmes, como é costume acontecer nas histórias dos grandes amores, quando são por demais conhecidos e perfeitos.

“-E foi por isso...- sentenciava Vó, com um dedo empinado- Foi por isso que o destino interveio. Tamanho amor não podia ficar assim, só em felicidade. É que quase sempre o amor precisa de algumas contrariedades para ser apreciado!”- insistia ela.

E foi por isso que um poderoso feiticeiro que vivia do outro lado do reino, se zangou com os dois e desistiu de tomar para si a bela. Cansado de tentar abraçá-la, mas sempre impedido pelo seu par, o feiticeiro lançou sobre os dois uma maldição terrível, que fazia com que sempre estivessem próximos pelo amor, mas que nunca chegassem realmente a estar juntos.

Quem escutava Vó, principalmente as crianças como eu era então, arregalavam muito os olhos quando ela falava assim de feiticeiros e maldições. Mas até mesmo os adultos se deixavam impressionar, e ficavam de respiração suspensa,  revoltados com tanta maldade. A tensão na velha cozinha crescia até atingir um ponto quase insuportável.

E então Vó, em voz mais doce que nunca, explicava que estava apenas contando mais uma história, e que ninguém precisava sofrer com isso.

Na primeira vez, apesar de ser muito menino ainda, lembro que alguém perguntou: “- Vózinha… Essa história é verdadeira?”. E logo ela respondeu muito lentamente:

-Claro que sim. É a história da rosa e do espinho, que não podem viver um sem o outro, mas que nunca chegam a estar juntos. - E a mão de Vó apontava para as rosas na jarra sobre a mesa da sala, acompanhada por todos os nossos olhares...


copyrightHenriqueMendes2017

2 de abr de 2017

145 - PERPETUANDO-SE



Um dia decidi levar-te, Poeta,
aos lugares onde se passaram histórias
das quais mal me  lembro.
Clareiras de luz diferente no meio do bosque,
que entretanto  se agigantou em tons de verde pardo
e tapetes espessos de caruma antiga.

Terias apenas de descobrir os gestos
de acariciar as pedras que os Poetas acariciam,
tão comuns às suas mãos tacteantes, sensoriais.
Terias apenas de enfiar-lhes os dedos por debaixo do musgo,
aos poucos, em carícias cada vez mais íntimas ,
até lhes sentires nas palmas das mãos os formatos arredondados ,
e te maravilhares tu também com o calor suave emanando delas,
em secretíssimos prazeres.

Darias voz ao mutismo das sombras das árvores,
que até aí dançavam só para mim.
E mais brilho às lágrimas de resina
com que ocasionalmente as árvores se traíam
por entre a rude casca, em emoções de árvores
dissimulando a sua humanidade.

Quis levar-te e partilhar contigo momentos especiais…
Talvez exibir-me um pouco. Talvez, ufano, quisesse
que me visses terminar de crescer, e fosses  testemunha
de um novo caminho iniciando-se.

Só não esperava ser capaz de surpreender-te novamente.

De ouvir-te as mesmas palavras como látegos,
sibilando até me atingirem a alma
com a fremencia das coisas
num paroxismo particular dos sentidos.

De permanecermos dependentes e paralelos,
depois de tudo,
dentro do acordo que criámos juntos,
ao qual um outro dia daria um fim
do qual hoje desisto.

Sigamos pois juntos, sim! Nas mesmas veias, na mesma verve,
no mesmo eco do Tempo ( Tempo… Tempo… Tempo… )
reverberado entre palavras de rocha viva.


copyrightHenriqueMendes/2017

19 de mar de 2017

144 - TALVEZ POR UM MOMENTO


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Talvez por um momento
eu possa apontar no teu destino
a breve nota de um instante.
Quem sabe ? Nem acho que seja fazer muito…

Seria apenas uma breve nota,
como um chilreio de passarinho
desses mais normais, duma manhã qualquer,
dando vida a alguma dessas clareiras mágicas
que um raio de luz desenhou
num quase-silêncio feito de paz.

Talvez possa dizer-te que hoje
é o mais importante dos teus dias,
se me escutares…
Se o ruído de tudo o que não és,
e o grito renascido do que já esqueceste
não se  impuserem ao teu momento.
E a ti, hoje e agora…

Sim, hoje é o mais importante dos teus dias,
porque nessa corrida para o espelho
que agora fazes, em ânsia de alguma coisa,
não conta o que tenhas já feito, mas sim…
que hoje é véspera de amanhã.

E amanhã é quando o futuro começa,
e por isso ainda podes escolher
quais o momentos e quais os cantos, 
de quais passarinhos,
pretendes ouvir naquelas clareiras encantadas,
desenhadas por raios de luz dourada
em alguma manhã qualquer, quando a paz
te for uma preciosidade, e o teu espírito
estiver sedento do quase-silêncio.

Por isso, acho que nem aspiro a muito!
Apenas a recordar-te que as manhãs são tuas.
E que os chilreios nunca chegam sozinhos,
mas  sempre que  escolhemos não censurar o Tempo,
- e não nos censurarmos -
até finalmente esquecermos
de tudo o  que já não somos,
e nos abrirmos ao instante.

Os outros, olha…
São só os outros,
de outros momentos.

Até amanhã.
Que chegues bem !



2 de mar de 2017

143 - SE FOSSES INSTANTE



Se fosses instante,
só contarias de mim  a história
que o teu manto mínimo cobrisse.

E talvez morresses cedo,
como uma palavra que só começa
e logo se afoga em emoção.

E talvez depois fosses lágrima,
não importando que olhos
te reconhecessem a impermanência.

Ou talvez um pequeno degrau
já bem alto, nessa escadaria imensa
onde equacionamos a eternidade.

Mas se fosses instante,
só contarias de mim uma história
que tivesse o teu tamanho.

Já eu, conto em palavras permanentes
lágrimas e histórias  de eternidades,
em emoções de qualquer dimensão...



copyrighthenriquemendes/2017


6 de fev de 2017

142 - CHÃO E CAMINHO





Às vezes, o tempo
é só essa amplidão deslumbrante.
Uma espécie de silêncio vago
com que nos embotamos,
enquanto desfocamos os sentidos
de quase tudo o que nos rodeia.

Restante, fica uma essência.
Uma partícula de nós que segue,
que vai indo sempre,  sempre, 
e que muda, que sobrevive e se adapta
no improviso mal compreendido
a que a vida nos obriga.

Como cumprir destinos ?
Acaso o chão divide com os passos
o peso de ser caminho?