12 de out de 2016

133 - DEVE HAVER UM NOME




Deve haver um nome para isso,
ou mesmo um sentido  mais profundo.

Talvez seja apenas o de uma vibração
que ocorre de todas as vezes que a sentimos,
como um fenómeno mais concreto e físico,
ou pode ser algo que  valha apenas pelo que vale,
e não seja mais que um espaço único, nosso,
entre as coisas obrigatórias espalhadas
pelo horizonte da nossa manhã.

Talvez seja um interstício óbvio entre todas as coisas.
Um reservado discreto, por trás de uma ténue cortina de tempo,
absolutamente privado e completamente ao nosso dispor,
escondido dos relógios e  das lógicas dos detalhes conversados,
das minúcias dos acordos e das convenções, e que está logo ali.

Ali, onde sempre espraiamos os olhos, sem pensar,
seja nos rostos dos outros ou naquela paisagem que já nem vemos. 
Ali, onde cada cor grita mais cores, todos os dias, sempre.

Deve haver um nome para isso, essa permanência de atenção,
essa disponibilidade para um foco de espírito
com que nos assinamos lendo o mundo em todos os momentos,
interpretando, e que nos faz presentes sendo parte, estando.

Deve haver um nome para isso, mesmo que na paisagem conhecida
as palavras não soem,  nem o vento lhes transporte jamais o som,
ou as nuvens lhes tracem jamais os risos brancos no azul imenso.

Deve haver, e difícil não será sabê-lo.

Difícil será admitir que existe.


( Poema e foto de Henrique Mendes )


18 de set de 2016

132 - MEDO DO TEMPO






Por algum tempo tive medo do tempo.

Olhava tudo com aqueles olhos cansados que só tem
quem acha que sabe muito de si e das coisas.
Deambulei  de acordo com a vontade dos momentos.

Achei que, na curva  do rio, a água cantava contra as pedras,
enquanto se perseguia a si mesma para longe de mim,
canções de despedida que eu não voltaria a escutar.

Caminhei pela cidade acariciando-lhe aqueles  recantos
que a tornavam especial aos meus passos errantes,
abrigos de vento e chuva, cantos para repousar  tranquilo.

Lembro nas costas das mãos da temperatura das pedras
E sinto ainda na boca o sabor da água correndo incessante
em antigos chafarizes de bronze.

Olhei aquela rocha lá no alto, junto ao castelo, e despedi-me
da vista que de lá se tem, de barcos cruzando rio,
 numa luz que não é tão dourada em mais lado nenhum.

Pouco a pouco fui entendendo o que procurava entender.
Voltei a encantar-me com as mesmas pequenas coisas
que o tempo não me deixará repetir.


Haverá gentes fazendo coisas, cores colorindo instantes,
barcos navegando ondas ao fim de um qualquer magnífico por do sol,
que eu não voltarei a ver simplesmente  porque não estarei lá.

Pensei sobre tudo isto, em vagares inusitados. E medos também.

Depois , a lua apanhou-me descuidado.
Usou a pulsação das  ondas,  a efervescência da areia,
e os piados secretos das aves nocturnas , e empurrou-me
sem aviso para  memórias de outras noites  ventosas
na praia brilhante, quando quis estar só.

E eu sei como é essa areia gelada. Os jeans molhados nas pernas.
O crepitar efervescente quando as ondas se recolhem.
Um silêncio rico de som, onde os outros não estão.
Eu sei como é…

Então sobreveio uma vontade feita daquilo que não sei ainda.
Feita daquilo  que não aprendi em primeira mão.
Daquilo que não fiz.
E o tempo fica menor, se pensar em quanto é isso tudo.

Retomo devagar os meus passos.
Não repiso.
Observo, guardo.
Cuido.

Estou.

27 de jul de 2016

131 - ECO NÃO DÁ, NÃO !




Meu amigo, meu irmão, olha como já se vê  que difícil que isto é.
Não dá para correr sem tocar  o chão, sem deixar as marcas do pé…
E não! O problema não  é tanto o detalhe, um retrato do momento.
O Deserto não é a História,  nem o que a vida traz  pela boca do vento.

(Né não…)

Nem nós buscamos protecção sob a asa de um coronel ou de partido,
com a gente não tem conchavo, não recebemos para elogiar bandido,
a nós não vale a pena nem tanto faz , só ri mesmo quem cai em graça,
os outros vão levando como conseguem, no sofrimento e na raça…
(Mas não é não!)

A vida já não é só opinião, coisa feita, posta no jeito pela imprensa
Não há um culpado só, o lamaçal se esparramou, O barro se adensa
É muito mais que branco ou preto, certo ou errado, bom ou ruim.
É tudo isso, e mais o que fazem na sombra enquanto dizemos que sim.

(Ou não é,  não ?)

Arrumaram desculpas, inventaram lados, raças,  times e campeões
dividiram pra reinar, e zás… dá-lhe, futebóis, carnavais, televisões,
acenaram com direitos vazios, fizeram carícias com línguas de pano
e valeu tudo. Até que o povo viu que estava devendo até ao tutano!

(Ou não foi, não ?)

E quando começou a acordar e se acendeu aquela luzinha de perigo
Logo  vieram mais jogos, heróis, e briguem bróderes! Meu amigo…
Caras lá de fora botaram às pressas dinheiro nos carnavais. Alegria!
Bundas rebolando, com o dinheiro que lhes roubaram no dia a dia…

(É a cuíca, meu irmão! Cuí pum pum, cuí pum pum … Né não ?)

Distraír, passar a mão na cabeça, botar discurso, tratar de ficar rico.
Um dia a casa vai caír, e a gente casca mas é  fora, aqui eu não fico.
Atrás ficam os que acreditaram. Sempre usados, sem casa, sem pão.
Massa de manobra, barracas de lona, exército sem futuro nem chão.

(Não está sendo, não ?)

Mas eu me perco, irmão. Lembro dos malditos que botaram pra fora,
num triunfo de heróis aflitos. Povo com caras pintadas, a quem agora
enfiaram pela goela abaixo, já redimido, quem estava excomungado.
E toma aí frevos e carnavais, trevos sem sinais... Eta povo animado!

(Não é, não ?)

E agora que você já julga que eu estou falando dos males do seu país,
Chora meu irmão, que a coisa vem de mais longe. Já é um mal de raíz.
E se acha que a questão é política e que afinal estou falando é dela
se desengana outra vez… Não! Eu falo de vergonha. Olha a Venezuela.

(Ou isso não pode, não?)

Acha que eu condeno regime, discuto processo, apoio alguma eleição ?
Eu falo de gente, não de time. E de trabalho, não de emprego e pistolão.
Eu falo do inegável, da vida ruim, das imagens da miséria que virou…
E tudo em nome de quê? De qual liberdade? O que foi que melhorou ?

(O bolso do chefão?)

O que eu vou vendo é esse policiamento disfarçado, e essa mentirada.
Essa divisão infeliz entre o mundo sobrante, e a esquerda autonomeada.
A verdade distorcida até ao esquecimento, e a versão que se ajeitou.
A comparação que já não nem se faz, a atenção que campanha desviou ?
(
Pão e circo, meu irmão! Cuíca aí…Cuí pum pum…Cuí cuí cuí…)

Mas nos olhos escuros  dos meninos, em favelas com o mesmo cheiro,
nas mesmas barrigas grandes, nas bolas feitas de trapo do mundo inteiro,
eu não vejo mais os restos do colono antigo, do trabalho escravo  e suor
eu vejo é o olhar vazio das vitimas de quem veio depois e ainda fez pior.

(Ou não teve tempo, não ?)

Não escuto canções de menestréis apoiando os discursos dos palanques,
Deixo os números falarem sozinhos, penso quantos índios havia dantes…
Agora que acabaram com eles, ferraram os coitados sem dó nem cerimônia
vão dizer o quê? Que foi o colonizador? E que tá comendo a Amazônia ?

(Mas não é não…)

Dantes havia bandido e mocinho, o xerife era do bem e a História era a das gentes,
Hoje fede,  irmão… vivemos num cercadinho cheio com as verdades convenientes
E quem devia denunciar o esquema, isso, trazer a lume, chamar de todos a atenção
Já ta queimado e sem crédito! E ou vendeu a alma, ou lhe arruinaram a reputação…

É por isso, meu irnão,
que eu não quero não.

Pra mim chega. Ganharam. Levem a taça, soltem foguetes. Falem de revolução.
Pra mim parece eco, se  repetindo. Vejo é a miséria se instalando.  Não dá, não…





15 de jun de 2016

130 - ADEUS KATHLEEN LESSA




Os Poetas não cantam o que são. Nem são o que cantam. Por isso não partem nem ficam, apenas estão.

Rodeiam-nos por toda a parte. Estão em alguns tipos de sorriso efémero. No amanhecer de alguns dias, ou nas gotas de água sobre alguma pétala duma hipotética flor. Ou talvez na emoção que se ocultava nas neblinas de um momento vago. Eles são qualquer uma dessas coisas, ou outra, em todos os matizes que a vida tem.

Num repente se incendeiam e brilham intensamente, revelando-se, e levando longe a  beleza mágica do seu canto, como uma luz dourada que vai aos poucos  inundando os recantos ermos do que era apenas monotonia e silêncio. E depois remetem-se outra vez à paz da sua quietude.

Então a escuridão parece agigantar-se sobre todas as coisas. E o mundo retoma, devagarinho, a História que se vai escrevendo entre Poetas.



CopyrightHenriqueMendes


13 de jun de 2016

129 - VERSOS À NOITE, SEM MEDO




Se às vezes disse à noite que chegava o dia
foi sem tristeza nem medo, nem nada assim.
Era apenas outro momento chegando ao fim,
um instante nascendo e outro que se cumpria.

E se aos segredos das noites contei segredos,
meus, coisas que iam sobrando dos meus dias,
algumas escritas soltas, prosas várias, poesias,
eram prazeres em que divagava, não medos…

Já para os dias ficava trazendo, em sentido inverso
memórias das vielas e fados, da lua e das estrelas,
outros instantes. Memórias subtis que, para tê-las,
tornei  mais errante o passo e mais solto o verso.

Então, fui  somando tudo isso que agora sou.
Tudo o que me foi dando  essa forma de olhar,
que é de Poeta, às vezes, ou apenas um captar
de fadigas, um passagem para onde não estou.

E quando um dia vier uma outra noite, escura,
donde não colha memórias, nas ruas da cidade,
tentarei  iluminá-la com estas histórias da idade,
até enchê-la de instantes, para ver quanto dura…


CopyrightHenriqueMendes


19 de mai de 2016

128 - POR AÍ







Andava um pouco por todo o lado, sem se preocupar em ter um rumo.

Lançava os olhos sobre as coisas, numa espécie de exercício de desatenção, mas eles não se tardavam nelas. Era antes como se os deixasse seguir uma borboleta nas lógicas desconhecidas dos  seus  voos  periclitantes.

Num momento adejavam em fascínios por uma  flor, para logo depois permanecerem encantados com a solidez duma qualquer pedra triste, dum canto sem encanto. Ou então elevavam-se no ar, como num invisível turbilhão de vento e esbaforidas asas, e perdiam-se nos jogos de sombras e nos matizados quentes dos pores de sol.

Às vezes sentava-se num canto qualquer de nenhum lugar em especial, quando o cansaço ou a fome pesavam nos seus gestos. E às perguntas que lhe faziam respondia sendo quem era, dependendo do que estava sendo, ou do que a pergunta perguntava.

-Não vou mais longe, porque me falta a coragem para o regresso!- respondeu um dia à estrada. – Pela estrada vai-se tão longe!
Uma agitação indefinida fez com que olhasse em redor e sorrisse para o sorriso que os caminhos ostentavam, orgulhosos e contentes.

-São tão mais doces, os caminhos mais lentos! – continuou. – Mesmo que já seja noite, no regresso. Caminha-se bem, de noite…
E quando falava assim, a noite aproximava-se depressa, e surgia um escurecer que já era uma promessa de carícias.

-E a lua chega bem para ver tudo, e não tropeçar. É tão bonita, a lua!
E quando assim dizia, a lua brilhava mais, redonda e forte. E era como prata derramada na areia branca do chão, arrancando sombras mágicas às folhinhas de erva e às pedrinhas roladas, sempre prontas a entoarem baixinho o coro dos muitos passos.

Ao regresso respondeu já lá na fonte, dizendo que não voltava nunca por fome ou sede, mas porque sabia quem era, ao partir. E temia não saber se ia encontrar-se, ao chegar.

Então a água da fonte filosofou, e disse-lhe que a vida talvez fosse a própria sede, e que talvez fosse preciso beber sempre, sempre. Logo a fonte murmurejou uma nota mais alta de anuência e, logo depois, no pequeno lago, um sapo mergulhou com estardalhaço, concordando também.

Aproveitador como sempre, de imediato o medo se agigantou e tomou formas, e triste se foi quando ouviu que não era temido. E a água precisou entender como era saboreada em todos os infinitos instantes em que dava vida, e derramou lágrimas que não eram de tristeza mas de entendimento.

E terá sido das suas lágrimas que um nevoeiro sublime se ergueu, e aos poucos, contente,  subiu até sumir no ar. E foi quando a chuva desceu, e as plantas riam das gotas e cantavam uma canção com notas graves, de terra molhada e pedras verdes de musgo.

Nesse ínterim, o momento chegou, correndo e feliz. Falou de poesia e perguntou dos poetas, dos versos, de todas essas vozes que se ouviam ali, e que diziam e cantavam.

Alguém lhe perguntou sobre versos de amor, mas a resposta veio do muro, que estava segurando o vento e permitia tudo o mais.

Num murmúrio de pedras acumuladas, e um sorriso que o tempo derrubara mais ou menos a meio, pareceu dizer que todos os versos são de amor, mesmo em prosa.


Depois, no silêncio que ficou, uma voz fininha disse que versos somos todos nós. E pode ter sido a noite, ou talvez a saudade, que chegou entretanto, ou alguém que ninguém viu.


copyright henriquemendes ( foto e texto )


13 de mai de 2016

127 - RUA DA ALEGRIA






Eu lá ia apenas andando,
a cabeça longe, pensando,
enquanto descia
a Rua da Alegria.
Quando olhava as janelas
adivinhava por trás delas
olhares sorridentes
e sorrisos contentes.
E era da boa, a comida,
e quentinha a dormida
e tudo era perfeito,
assim daquele jeito.
E eu jamais pensaria
que era na rua da Alegria
que morava um amigo
que, ao conversar comigo
e ouvir-me elogiar a sua,
me falou da minha rua.
Ele sabia que nas janelas
havia olhos por trás delas,
que o viam passando
e ficavam imaginando
o desconforto que seria
viver na Rua da Alegria.
Eu disse que não era assim,
e ele não acreditou em mim.
E a razão por que o fazia,
nenhum de nós a sabia.
Mas já um ditado antigo,
que sempre trago comigo,
dizia que a galinha da vizinha
é sempre melhor que a minha…


COPYRIGHT HENRIQUEMENDES POESIA E FOTO