12 de ago de 2017

151 - PAGAR O PREÇO






Todos pagamos o preço de ser quem somos. Saibamos disso ou não!

Eu pago o preço de ser quem sou. Tento viver de acordo com minhas escolhas. E tento que estas sejam escolhas informadas, colhendo visões de vários angulos até, finalmente, compôr a minha  e formar uma opinião sobre um determinado assunto. E escolher depois os caminhos que se adequam melhor ao que penso e à opinião que formei.


Fujo da visão de clube, de time. Fujo de ir com a manada, com o bando,  como fujo do prato feito. Prefiro deter-me nos ingredientes, escolher os sabores e os tempos oportunos ao "cozinhado". Em resumo, prefiro pensar e escolher por mim mesmo. Tento não adotar ideias prontas sem me deter sobre elas.



Não fazer isto, para mim, é passar a mão na cabeça à sorte, e entregar-me a ela sem tentar sequer curvá-la a alguma escolha possível. E sempre há uma escolha, evidentemente. Pode é não resultar como queremos, ou a nossa escolha ser errada, mas escolher sempre podemos.



Podemos falar de muitas coisas como o livre arbítrio, que mais não é do que o reconhecimento disto que defendo. Podemos falar de arrogância, mas jamais aceitarei que seja arrogante quem não se presta a seguir o grupo e prefira pensar sozinho. Abomino a "galera" pelo convite à impunidade e à irresponsabilidade. A galera não tem corpo, não se pode responsabilizar, não é ninguém. Dali pode saír tudo e qualquer coisa. 



Admito que possam até, eventualmente, saír dela coisas boas. Há acidentes felizes, excepções que justificam a regra. E a regra, para mim, é que a galera é acéfala, não tem cabeça visível e age no impulso do momento. Mas a galera é comandável, e quem souber comandá-la tem em mãos uma capacidade destrutiva gigantesca. 



Por isso são temíveis as "torcidas organizadas". Por isso existem, para serem temíveis.  Por isso se contratam a peso de ouro os marketeiros políticos, que trabalham para quem pagar mais. E que são temíveis. E que temos de temer, pois são usados para criarem em nós a vontade de seguir com a galera, atrás de um determinado lider que talvez nem escolhessemos se não fosse a influência deles, marqueteiros. Os condutores da galera.



A galera é a turba, a multidão sem rosto. Aquilo que os sábios romanos mais temiam, por lhe conhecerem a violencia e a veia truculenta e incontrolável. 



Mas a galera também é carne para canhão. E devemos pensar nisso tendo em mente que, ao pertencer à galera, podemos estar a ser usados para ir para a primeira linha da batalha. Ser carne para o canhão do inimigo, seja ele qual for. E estar entre os primeiros a tombar.  



Ou então ser da galera pode significar estar entre aqueles que pisoteiam os da linha da frente oposta à nossa, que podem ser nossos amigos e parentes, irmãos, vizinhos. Apenas porque não fazem parte da nossa galera e sim de outra que se pensa diferente e se opõe à nossa.



Recuso a galera. Prefiro pensar sózinho. Escolher com a maior humildade. Mas sem dúvida: sem aceitar que isso seja arrogância ou elitismo. Não é mais do que necessidade. O mundo é feito de galeras com interesses muitas vezes opostos. E deveríamos juntá-las para que se conciliassem, não para que brigassem cada uma por sua vitória.  Todos os governos deveriam conter elementos de todas elas, governando na proporção dos seus votos. 



Onde estiver errado, onde isso possa lesar os outros, é algo que tenho de aceitar como fazendo parte do preço a pagar por ser quem sou e por acreditar nas escolhas pessoais. Informadas!  Não apenas aquelas tomadas depois de se ler apenas os argumentos da galera a que se pertence. É nisto que creio. Assim, simplesmente.

copyrightHenriqueMendes/2017





5 de ago de 2017

150 - O PERDÃO DOS OUTROS


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Fala-se tanto em perdão! Em como é preciso perdoar para ser perdoado. Em como é preciso perdoar para ficar em paz. Em como é preciso perdoar para se libertar de rancores e angústias que nos afligem. Leio, entendo e concordo. Mas preocupo-me.

Dei três exemplos, nas linhas anteriores, apenas três, e estou certo que são representativos do que é habitual ler-se hoje, um pouco por toda a parte. E nos três há uma espécie de negociação feita de perdoar para obter algo em troca: - Perdoar para obter perdão. Perdoar para atingir a paz. Perdoar para se libertar das angústias... Como se estivessemos usando uma má interpretação da lei do retorno, e buscando de antemão o retorno que pretendemos.

Em nenhum lado vejo defender que se deve perdoar por ser a coisa correta a fazer. A vida, o mundo, os outros,  inevitavelmente nos agridem em um ou otro momento menos feliz. E o perdão é a única coisa que faz sentido e nos permite seguir adiante.

Perdoar, esquecer e recomeçar é a coisa correcta a fazer, simplesmente. E faz parte, ou deveria fazer, dos valores que a educação verdadeira, não o ensino escolar, transmite ou deveria transmitir até que, aprendido o conceito, passe a ser uma escolha interiorizada e se perdoe porque sim. Sem mais motivos.

Perdoar é, sim, um valor civilizacional, um acto educável e educado. E ser-se educado é bom, não careta - como alguns querem que acreditemos, para nos nivelar a todos por baixo. 

Ser-se educado, e nesse contexto perdoar, é o que nos distingue!

Então, que se fale de perdão sim! E não apenas na ótica do que nos traz de lucro, mas também porque sim, porque é o que consideramos certo e educado fazer.

Depois disso, poderemos olhar melhor para um outro aspecto do perdão, de que também pouco se fala: o perdão que devemos a nós mesmos, e que é fundamental. Do tanto que precisamos perdoar-nos por tanto mal que nos fazemos - e aos outros.

29 de jul de 2017

149 - INDIFERENTE



Talvez um dia
eu me ausente de mim
e deixe que se apague
essa chama que hoje
me corre nas veias
como força vital.

Continuarei sendo eu,
apenas mais distraído
enquanto passo
rumo a algum mistério
do momento que for.

Talvez achem por bem
reservar-me o carinho
devido aos desconhecidos,
que percorrem o mundo
em passos só seus.

Se assim for, espero 
partilhem meu mantra
tendo na voz o encantamento
das subidas que antecipam
os mirantes.

Se não acharem,
peço para mim aquela indulgência
grata aos que não querem incomodar,
e que me deixem seguir tranquilo
com o vento do instante.

E se não acharem nada,
não será grave.
Talvez nunca me tenham visto.
Ou talvez não estivessem presentes
para me verem, quando passei.


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23 de jul de 2017

148 - NO ALTO DA MONTANHA DO ADEUS




No alto da montanha do adeus
há um grito rasgado e dolorido
feito do que não se escuta.
E um silêncio que se agiganta e
deixa por dizer o já sabido,
onde o desnecessário esmaga
os instantes do instante,
e o dilui no tempo.
Há uma espécie de noite
que invade  e amordaça
a claridade final dos destinos
que se cumpriram até ao cume.
E os cheiros?  Bem, os cheiros
evocam os caminhos percorridos
que, ali, chegaram ao fim.


No alto da montanha do adeus,
os gestos são estranhos,
um pouco reticentes  e inúteis,
como desculpas sobejamente
conhecidas.


Instala-se um silêncio
com poucos murmúrios, no vento:
-memórias que ainda tentam
uma vez mais repetir-se,
borbulhando lentamente e sem fé,
enquanto se vão fundindo
no caldeirão fuliginoso do tempo
rumo a um passado concluso.


No alto da montanha do adeus
fica o pico ermo e agreste,
inacessível,
onde cabe apenas um só.                                                


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20 de jul de 2017

147 - TODOS OS AMIGOS









Todos os amigos que não tive
me deixaram no peito, em aberto,
um buraco largo e sombrio,
profano e sem remédio.


Mas todos os que tive foram bons
e procurei dar-lhes o carinho certo
para trazê-los até hoje,
numa valsa que o tempo dançou.


Também foram excelentes
os que imaginei ter, e me levaram
a ser melhor buscando os caminhos
da reciprocidade fértil
-mesmo que desiludida.


E a todos os outros, que o não foram,
devo-lhes o tempo poupado
em reticências.


Que o tempo nos traga
mais a todos,
neste dia e sempre.

4 de mai de 2017

146 - APOÉTICAS 1





















Quem contava sobre ela era minha avó, aproveitando aquelas  noites longas de fogão de lenha e neve lá fora. E contava como se fosse uma lenda que já vinha lá dos tempos mais antigos, quando princesas e príncipes  faziam parte das histórias, e as lendas nasciam dos pequenos gestos mágicos de quem as contava.

Quando falava dela, Vó sempre dizia como ela era bela, primeiro. E só depois contava sobre como ela deslumbrava a quem a via, por causa daquele jeitinho tão seu, tão frágil, de ser especial. É que ela mostrava-se única, e sobressaía entre todas as outras .”– “E olhem que eram uma multidão que a rodeava!” apontava Vó, não querendo  que isso passasse despercebido.

Mas depois, logo acrescentava que todas eram só um pouquinho menos sublimes que ela, apesar de serem lindas… Claro que, assim, ela ia ganhando aos poucos, cada vez mais, a fama de ser maravilhosa.

E era, sim. Era única e bela, e enchia os olhares de todos com esperanças até então adormecidas. Dava mais cor ao dia de quem nela punha os olhos, e se perdia  de amores. E ninguém resistia a esse seu encanto.


E era só quando chegava a este ponto que Vó contava o resto. Parecia quase uma explicação que nascia assim, das nuances semínimas da sua voz tranquila - voz de Vó, voz de contadora de histórias.

Ela dizia que o destino tinha interferido, e eu acreditava. Devia ser verdade, posto que o destino sempre interferia nas histórias de Vó, e naquela não ia ser diferente.

Por isso, quando Vó continuava a história e contava que já era do destino daquela beldade ser assim, tão bela e tão especial, ninguém estranhava. Menos ainda estranhávamos quando ela acrescentava que, porque isso já estava no seu destino antigo, acabou acontecendo que a bela foi amada como nenhuma outra.

Claro que Vó sempre tentava encontrar algum tipo de conclusão, ou de moral, na história. Por isso comentava o excesso desse amor.
“-Era amor demais!”- dizia. “-Tudo o resto, todos os outros, ficava num segundo plano, um pouco distante e ofuscado pelo brilho desse sentimento entre a bela e o seu par!”

Vó  explicava que, à sua maneira, ele também era muito bonito.  Forte e incisivo,  e rodeava a bela de atenções, defendendo-a dos perigos circundantes. Era mais agressivo que ela, mas discreto e tenaz na sua forma de sempre estar perto.

Dizia que eram inseparáveis, duma forma tão conhecida e tão perfeita, que acabou gerando invejas e ciúmes, como é costume acontecer nas histórias dos grandes amores, quando são por demais conhecidos e perfeitos.

“-E foi por isso...- sentenciava Vó, com um dedo empinado- Foi por isso que o destino interveio. Tamanho amor não podia ficar assim, só em felicidade. É que quase sempre o amor precisa de algumas contrariedades para ser apreciado!”- insistia ela.

E foi por isso que um poderoso feiticeiro que vivia do outro lado do reino, se zangou com os dois e desistiu de tomar para si a bela. Cansado de tentar abraçá-la, mas sempre impedido pelo seu par, o feiticeiro lançou sobre os dois uma maldição terrível, que fazia com que sempre estivessem próximos pelo amor, mas que nunca chegassem realmente a estar juntos.

Quem escutava Vó, principalmente as crianças como eu era então, arregalavam muito os olhos quando ela falava assim de feiticeiros e maldições. Mas até mesmo os adultos se deixavam impressionar, e ficavam de respiração suspensa,  revoltados com tanta maldade. A tensão na velha cozinha crescia até atingir um ponto quase insuportável.

E então Vó, em voz mais doce que nunca, explicava que estava apenas contando mais uma história, e que ninguém precisava sofrer com isso.

Na primeira vez, apesar de ser muito menino ainda, lembro que alguém perguntou: “- Vózinha… Essa história é verdadeira?”. E logo ela respondeu muito lentamente:

-Claro que sim. É a história da rosa e do espinho, que não podem viver um sem o outro, mas que nunca chegam a estar juntos. - E a mão de Vó apontava para as rosas na jarra sobre a mesa da sala, acompanhada por todos os nossos olhares...


copyrightHenriqueMendes2017