23 de jan de 2017

140 - SEM PENSAR





Talvez hoje não seja assim tão simples, sorrir.

Ou seguir pelas ruas sem destino, descuidado.

Ou defender opiniões, pregando consciência,
não importando o lugar, ou quem está presente.

Talvez tudo esteja mudando lentamente,
e se preze menos o valor do que a ambivalência.

E menos as escolhas, e mais o fado,
e mais o presente, e muito menos o porvir...

Ou talvez já não se viva sem competir,
ganhar prémios, ser ultrapassado.

E sem desesperar de impaciência,
nem morrer silenciosamente.

Sem calar, como quem consente.

Sem votar, não tomando ciência
desse palco, em circo armado.

Sem pensar, apenas ir...





CopyrightHenriqueMendes/Novembro 2007
Foto colhida na net, sem intuitos comerciais. Desconhecido o autor.

22 de jan de 2017

139 - AGUAS DO MEU RIO







O meu rio
conta a minha história,
em frases líquidas
por águas murmuradas...
Sempre para aqui corri,
quando correr podia,
aqui disse, quando voz havia,
e fluí, quando rio eu era,
para este lugar singelo,
único e tão belo,
onde paro e me sento,
em suave espera,
escutando o lento
remanso do meu ser.

É aqui que soam
os cânticos sagrados
das raízes molhadas,
suportando secas,
e antecipando flores,
luminosidades e odores...

E aqui ecoa  também,
em rancoroso desdém,
as voz das plantas dobradas
em vénias de sobrevivência,
caçoando do vento
em suas maleitas.

Elas dizem-me dos murmúrios surdos,
que são os  protestos das pedras insatisfeitas
crescendo, em seu lento progredir
para se tornarem pedras...
Aqui eu escuto falas de vozes doces
no toque dos sinos,
tão alegres,
e rumores dos secretos destinos
das lagoas distantes,
onde subtis acasos levaram amantes
que nelas turvaram luas,
de fadas que dançaram nuas
e, virgens,
afogaram febres...

Daqui me vejo, a passar,
nessas águas sem fim
- imagens esboçadas de mim,
fluidos momentos,
dores, renascimentos,
uma história
em outras histórias,
um tempo,
em outros tempos...                                                                                                      
Daqui me vejo, nessas águas
das minhas memórias,
onde, juntos, nadam cansaços e falhas,
solidões consentidas,
e restos de outras vidas
flutuando em cada pedaço.
Dores, nas redes de finas malhas
com que pesco
e me repesco,
nas linhas com que me traço.

Em outras curvas
do meu rio,
houve dias
em que ganhei brios,
e me espalhei entre rochedos,
espumando vontades turvas,
agitando lodos e medos,
só para morrer
em escarpadas margens frias,
em gelados desencantos.

Nas águas do meu rio,

também passam os meus prantos.


copyrighthenriquemendes texto e foto

20 de jan de 2017

137 - HAVIA UM CAIS

Old Dock by JoshkTaylor

Havia um cais.
Ficava lá depois da última praia. 
Depois do último molhe de pedras amontoadas,
que amansavam às ondas o seu avanço.

E nós esperávamos, ainda longe,
que chegasse a hora certa.
Depois caminhávamos às pressas,
e ríamos quando a água vinha
e já nos chegava aos pés.
E sempre acabávamos a correr muito,
com a água cada vez mais perto,
apertando-nos contra as rochas
num contra-relógio juvenil,
insano e perigoso.

E quando o areal ia terminando,
e já não havia mais lixo
senão aquele que o mar trazia,
nem se viam outras pegadas
que não fossem as que deixávamos
-sabíamos que o momento ficava sério.

Parecia que gritavam avisos, as ondas,
e havia grasnados de protesto
nos ninhos das rochas mais altas,
das falésias cheias de sol.


Mas agora já não podíamos voltar atrás,
era o mar que nos empurrava para o cais,
de medo escondido nos olhares
e nos risos de desafio ao momento.
E não havia outros tão alegres,
nesse mundo  onde julgávamos
que Deus nos deixava ousar destinos.


Por fim chegávamos,
já com a água espumando nas coxas,
sabendo que não havia  outro caminho.
Ninguém nos seguiria, mas quem viesse
precisaria esperar que vazasse
essa maré que só agora começava a encher.

E se isso  fazia de nós prisioneiros,
voluntários e contentes,
também nos tornava donos do tempo
por todo um dia de marés.

Sim, havia um cais.
Tinha um sossego que era todo seu,
mesmo com os gritos das gaivotas
e o marulhar das águas,
o cheiro húmido do sal nas rochas
e o ruído distante da cidade que teimava
em fazer-se ouvir.

Ouviam-se nas tábuas velhas
vozes que vinham do fundo,
de ondas rolando pedras.
Mas, apaixonados,
pensávamos que eram beijos
segredos de mar e seixos,
e tudo o que rimasse
com abraços escondidos
de águas e pilares.

E havia um ranger antigo de madeira
que se espreguiçava ao sol,
sorria ao sol e, quente,
nos embalava  os sonhos lentos
de quem só pensa em céu azul,
sem nuvens e sem pressas,
e nos beijos fantásticos que só troca
quem é dono do tempo
e da vida

e pouco se importa com as marés.

COPYRIGHTHENRIQUEMENDES  TEXTO
FOTO JOSHK TAYLOR ( SEM UTILIZAÇÃO COMERCIAL )

9 de jan de 2017

136 - SEMPRE HÁ UM MOMENTO


Sempre há um momento
-madrugada que seja, ou não, que importa?-
em que  começa todo  esse pulsar de coisa nova,
tudo isso que sabíamos que ia acontecer…

E do lado de lá do rio que então nasce,
-de lágrimas que seja, ou talvez de risos,  
ou apenas céu disfarçado de rio, ( que importa?),
tão largo, tão fundo, tão cedo ou tarde já… -
vemos os nossos céus nos reflexos  mais diversos
dessa imensa  água única que vai indo, indo,
e que aos poucos se agiganta e se afasta,
ainda tão próxima ao gesto, ainda tão nossa,
e,  apesar disso, já tão vasta…
que um futuro  recém deixado de o ser
desaba finalmente, decididamente,
já com ares de agora -ou de há pouco , que seja.
Talvez de ontem. Será que importa?-

Cabe num instante do rio, a mudança das nuvens 
que levam escondidos na água os mistérios
desses céus  tão maiores que nós.

Cabem os destinos das chuvas e das colheitas,
e os olhos cintilantes das noites traindo
os sonhos distantes que as estrelas têm
quando nos contemplam lá de cima,
abstractamente…

- e, além de tudo isto, ou  de algo que assim seja,  
o que haja, se o houver, será que importa ?

foto:HMendes



1 de jan de 2017

135 - COMECEMOS DEVAGAR



Comecemos devagar.
Afinal, temos pela frente todo o tempo que houver.
Por isso que haja prazer nas nossas lentidões,
e um saborear do tempo em langores de infinito.
Que a chuva  seja mais que a bênção da água:
-uma nota perfeita, soando no telhado
que  nos abriga onde estivermos.

E que entendamos a paz das coisas,
num abrir de espírito a tudo o que nos cerca,
enquanto sentimos as plantas dançarem em verde
as alegrias da fertilidade profunda que lhes chega.

Ouçamos a risada livre dos córregos  felizes
a caminho de algum destino remoto,
tão fundamental que dele dependem rios e mares,
e mais tarde nuvens,  que choverão instantes.

Comecemos devagar,
como se fossemos escrever nelas tudo o que importa
sem  medo de que algum vento chegue
e lentamente espalhe por outro horizonte qualquer
o que para nós era tão precioso como pó de estrelas.

E que encontremos na luz coada do fim dos dias
o espaço sagrado que reservamos ao fundamental,
algo tão único, tão pessoal, e tão exclusivo
que nos rodeia como uma oração,
- um muro que deixa do lado de fora
do que escolhemos para nós
o oportunismo de alguns e tudo o que nos faz mal.

Comecemos devagar.
Aprendamos com o tempo.
Afinal, temos todo o que ainda houver!
E nele nos gastaremos, nas pequenas batalhas
cujos resultados vão escrevendo no mundo
aquela que é realmente a nossa história
- de que alguns falam como se fosse destino,
como se nela não houvesse anseios e suor.

Comecemos devagar…

(FOTO DE AUTORIA DESCONHECIDA)


25 de dez de 2016

134 - SONETO DO VENTO (25.12.2016)




Se houver na vastidão desse horizonte sem abrigo
outros  caminhos  por onde  soem os meus passos
talvez não seja só a vida, que me leva  nos braços,
e me descubra também cumprindo um fado antigo.

Algo assim como se fosse um destino, só mais forte.
Voz  troante  de dentro, impossível de desobedecer,
indo além da razão, da ponderação, e até do querer
- sortilégio profundo forçando-me  a um outro norte.

E erra quem me escutar algum lamento ou queixa.
Não temo  ser um dos tantos que também  que sou,
nem fujo do destino que me leve para onde eu vou.

E se houver no vento alguma voz, ou alguma deixa,
que importa como se desenrola a peça, ou se acaba?
Se é destino, ou se é fado - ou mesmo se não é nada…



12 de out de 2016

133 - DEVE HAVER UM NOME




Deve haver um nome para isso,
ou mesmo um sentido  mais profundo.

Talvez seja apenas o de uma vibração
que ocorre de todas as vezes que a sentimos,
como um fenómeno mais concreto e físico,
ou pode ser algo que  valha apenas pelo que vale,
e não seja mais que um espaço único, nosso,
entre as coisas obrigatórias espalhadas
pelo horizonte da nossa manhã.

Talvez seja um interstício óbvio entre todas as coisas.
Um reservado discreto, por trás de uma ténue cortina de tempo,
absolutamente privado e completamente ao nosso dispor,
escondido dos relógios e  das lógicas dos detalhes conversados,
das minúcias dos acordos e das convenções, e que está logo ali.

Ali, onde sempre espraiamos os olhos, sem pensar,
seja nos rostos dos outros ou naquela paisagem que já nem vemos. 
Ali, onde cada cor grita mais cores, todos os dias, sempre.

Deve haver um nome para isso, essa permanência de atenção,
essa disponibilidade para um foco de espírito
com que nos assinamos lendo o mundo em todos os momentos,
interpretando, e que nos faz presentes sendo parte, estando.

Deve haver um nome para isso, mesmo que na paisagem conhecida
as palavras não soem,  nem o vento lhes transporte jamais o som,
ou as nuvens lhes tracem jamais os risos brancos no azul imenso.

Deve haver, e difícil não será sabê-lo.

Difícil será admitir que existe.


( Poema e foto de Henrique Mendes )