11 de jun de 2018

168 - RENASCIDO






Lancei-me em versos
como se fossem passos
rumo a algum lugar,
exigindo um caminho.

E do caminho nascido assim,
nasci caminheiro, viajante,
lançador de redes que
armadilham palavras.

E das palavras nasci outro.
Um pouco ao lado de mim e
dos meus passos redescobrindo-se,
dos meus caminhos refazendo-se e
das minhas crenças que se renovavam.

Passei a encontrar-me nas surpresas
que os passos contam,
e na busca de profundidade
das frases que me compõem.

Renasci como renascem todos os dias,
em segredos de instantes.




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2 de jun de 2018

167 - O JANTARZINHO DE ONTEM


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Ontem fiz o que raramente faço. Cedemos a um petisco que ambos gostamos e, para comê-lo, jantámos, minha mulher e eu, na praça de alimentação dum shopping aqui perto de casa.

Observei que parecia haver mais crianças que o habitual, empurradas nos seus carrinhos por suas dedicadas mamãs e papás, mas acabei conjecturando que talvez fosse apenas porque as crianças hoje são muito mais visíveis. Visíveis, sim !

Os carrinhos são prodígios tecnológicos, com pneus capazes de encarar qualquer rallye pelos matos da capital, que fazem os papás estugarem o passo - talvez na procura inconsciente de se enquadrarem no sucesso daquele look mais desportivo dos seus pimpolhos. E as roupas, tal como os acessórios, no mínimo são condizentes e lindas.

Foi neste contexto que vimos chegar no seu carrinho quase espacial uma criaturinha linda, empurrado apenas pelo papá, até encalhar na mesa a nosso lado. Rápidamente, com meia dúzia de pequenas adequações, o carrinho aumentou de altura permitindo que o garoto ficasse na posição certa para usar a mesa, apesar do cinto de segurança e demais dispositivos destinados a prevenir quedas e fugas.

Pudemos assim ficar maravilhados com as roupinhas que usava com o ar mais natural do mundo: calças jeans azuis, com um cinto a condizer, e um polo vermelho intenso igual ao meu que lhe deixava de fora os bracinhos gorduchos. Reparámos que usava nos pézinhos uns sapatitos casuais de vela, tipo dockside. Por fim, ficamos definitivamente encantados quando olhou para nós e tirou, num gesto singelo de quem está muito acostumado a fazê-lo, os óculos de sol, revelando um olhar intenso, esperto e azulíssimo. Que menino fantástico!

Daí para a frente, fomos saltando de surpresa em surpresa. Mamãe chegou com comida e rápidamente foi colocando ao alcance dele uma caixinha de cartão com batatas fritas. E outra com umas pepitas de frango frito, além de um saquinho com umas tirinhas de cereais fritos, também, e um copo de um refrigerante inespecífico, com um canudinho.

O garoto, comportadíssimo e alheio a tudo o que o rodeava, ia comendo de tudo com uma mão, enquanto mexia com a outra no telefone do papá, onde acontecia um joguinho electrónico qualquer, com uma musiquinha daquelas que só as crianças aguentam. Os pais não trocavam uma palavra entre si, dividindo os interesses entre a criaturinha e a sua própria comida.

Havia algo de vagamente insólito em tudo aquilo, que aos poucos nos ia roubando o sorriso, mas acabámos entendendo quando, mais tarde e já em casa, soubemos pela internet que era Dia da Criança.

Lembro-me que remeti um pensamento em direcção a esse menino, já tão lançado na senda dos homens normais, dando-lhe os parabéns e desejando-lhe uma vida feliz.

30 de mai de 2018

166 - NO ALTO DA MONTANHA DO ADEUS



No alto da montanha do adeus
há um grito rasgado e dolorido
feito do que não se escuta.
E um silêncio que se agiganta e
deixa por dizer o já sabido,
onde o desnecessário esmaga
os instantes do instante,
e o dilui no tempo.


Há uma espécie de noite
que invade  e amordaça
a claridade final dos destinos
que se cumpriram até ao cume.
E os cheiros?  Bem, os cheiros
evocam os caminhos percorridos
que, ali, chegaram ao fim.

No alto da montanha do adeus,
os gestos são estranhos,
um pouco reticentes  e inúteis,
como desculpas sobejamente
conhecidas.

Instala-se um silêncio
com poucos murmúrios, no vento:
-memórias que ainda tentam
uma vez mais repetir-se,
borbulhando lentamente e sem fé,
enquanto se vão fundindo
no caldeirão fuliginoso do tempo
rumo a um passado concluso.

No alto da montanha do adeus
fica o pico ermo e agreste,
inacessível,
onde cabe apenas um só.    
           




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17 de mai de 2018

165 - A CABEÇA E O PREGO




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É a cabeça, e não o prego,
quem mantém unidas as partes.

A ferrugem cria um espaço próprio 

na madeira que a desidratação mirrou.

É assim que o prego deixa de ser prego,

com a oxidação do tempo passante.

É assim que se desunem as peças,

nessa união tornada lassa.

E talvez o prego nem tenha culpa,

quando a cabeça lhe sobressai da tábua lisa.

Mas quando o talho surge na topada dolorosa,

num insólito de sangue pelo chão...

vem o esboçar  de uma surpresa 
que não existe realmente

... escolhe-se o silêncio, e despreza-se a culpa

sem reconhecer o parafuso que faltou.

O perdão presume-se implícito
no sofrimento subsequente.


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9 de mai de 2018

164 - SONHOS DE RIO









Às vezes sou rio, outras  sou margem.
Ora avanço fluindo constante, imparável e forte,
apreciando todos o detalhes de um mundo
que é, todo ele, o meu caminho,
ora as margens me sufocam numa implicância de detalhes,
com estreitos e fráguas, obstáculos e curvas
atrasando-me todos os  destinos.

Às vezes parece que me cospe, a montanha,
e salto no espaço destemido e inspirado,
rugindo brilhos de arco-íris encantados
e molhando de verde o mundo.
Na minha passagem movo engenhos, crio lagos,
sou alimento e caminho para os que me acompanham.

Outras vezes, afundo-me em terreno macio
e desapareço até de mim, bebido, drenado,
reduzido no meu poder.
Sugam-me a força os dias lentos, e
a secura das planícies monótonas sem outros desafios
que não sejam o da mais elementar sobrevivência.

Entre umas e outras
há um mundo que me deixa passar, quase indiferente,
sem prestar atenção a nenhum outro fado
que não seja o de ser rio, turbilhão de lodos,
solitário e único como todos os rios,
sempre alisando as margens esmagadoras,
rumo a um fim constantemente alterado.

Mas por hoje sou apenas nuvem,
e choro futuros copiosamente.




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9 de abr de 2018

163 - NEM SEMPRE ASSIM


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Nem sempre a noite me permite
o descanso singelo do corpo.
Há vezes em que a mente se agiganta
e se impõe, busca o espírito e o além,
e apequena sem dó qualquer outra coisa.
Perco o sono como quem adormece,
repentinamente, numa energia súbita
de quem quer mais que o repouso
e a ausência do momento sentido
num passo a passo doloroso,
de fascínios conhecidos, talvez viciante.
Os sons da  casa estão suspensos,
não há movimento na rua, nem ruídos,
e a solidão torna-se em algo mais,
como um tipo estranho de consciência.
Não me importo com a janela,
distante meia dúzia de passos inúteis.
Sei que as estrelas não estão lá,
que dormirão toda a noite
por detrás das núvens invisíveis
sobre os telhados das casas,
sem brilhos, escondidas da noite
e de mim.
E a lua está ausente do rio,
a água ignorada como se não fosse sua,
e a outra margem perdida no escuro
como se não soubesse a falta que me faz.
Entre mim e ela passam as águas
de um rio que assim não passa,
pois sem margens não há rio,
e se o rio não passa
eu não vou , nem passo,
nem me entrego acompanhando
o seu perpétuo adeus.
Também não passa o tempo, sem adeus,
e a quietude impõe-se, muito maior
que a soma dos silêncios e das ausências.
Por isso apenas fico. Até que o dia chegue
e me apeteça não estar,
e adormeça porque os sentidos desistem,
o mundo se dilui em nada,
e os outros deixam de fazer sentido.


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21 de mar de 2018

162 - O ADEUS À VELHA CASA

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A sensação de estranheza foi-se impondo, à medida que percorria a casa conferindo tudo. Ia já ficando claro que falávamos de coisas diferentes, no fim daquela manhã, e realmente não sei se, mesmo no fim, teremos chegado a entender-nos. Mas aqueles momentos foram especiais.

Os homens da empresa de mudanças iam silenciosamente levando as caixas, já fechadas de véspera, e a casa ia ficando vazia. Passavam a escutar-se pequenos ruídos, que  começavam a ganhar novos significados. Ecos nasciam, agora, onde não os havia dantes. As chaves tilintavam sonoramente, um pouco tristes talvez, e sentia que a minha voz tinha um timbre algo diferente, um pouco teatral. Havia nela uma mistura de adeus e de satisfação que vinha de dentro do mais profundo de mim, e que soava dentro da minha cabeça tão claramente como se eu estivesse falando alto com alguém. Por sua vez, a casa respondia-me na sua própria voz, muito serena, tão conhecida, mas que eu nunca tinha escutado com tanta facilidade.

Na cozinha, a minha voz elogiou as bancadas feitas com um granito que eu gostava. E realçou os armários fartos e tão fáceis de usar. Depois lembrou-me de tantos e tantos cafés da manhã felizes, naquele cantinho reservado para a mesa e as cadeiras de todos os dias. Os petiscos da família, os amigos que preferiam ir para lá, em vez da sala.

Fui percebendo que, sempre que a minha voz interior se calava, a voz da casa me respondia lentamente, moderando meu prazer. Talvez as bancadas estivessem um pouco altas demais... -disse ela. E talvez os armários pudessem ser de outro formato qualquer, mais comum. E o cantinho com aquela mesa e cadeiras tinha ficado tão acolhedor, fazia tanto com que apetecesse ficar ali mais um pouco, que às vezes tornava até difícil  sair para ir trabalhar e começar o dia...

A isto a minha voz interior argumentou dizendo que não, e que tinha que ser assim mesmo. “-Nunca saberemos!” respondeu a voz da casa. Percebi que fugia de um acordo que também não aconteceu em nenhum dos outros pontos da casa.

No quarto de hóspedes, a minha voz falou dos amigos, do gosto que tinham em ficar, das comodidades que tinham sido pensadas para eles. E do imenso carinho posto em todos os detalhes. A voz da casa não me contrariou, permanecendo silente.

Finalmente, do grande quarto, saíram as últimas caixas que os homens carregaram no camião, e partiram levando tudo. Com isso, todo o espaço se afundou num silêncio tão sólido e pesado como concreto. Olhei em redor e percorri com os olhos o tanto que ficava, numa promessa de utilidade futura.

A minha voz interior continuava a elogiar detalhes, a recordar momentos ali vividos, as memórias querendo eternizar-se. E novamente a voz da casa me moderava, lembrando incrementos que tinham tido de nascer aos poucos, para melhorar alguma coisa ou  apenas para explorar melhor o potencial de cada detalhe. Novamente não chegámos a um acordo.

Assim sendo, rematei com um argumento que pretendia ser imbatível: “-Esta é a minha história! Dos meus feitos, dos meus amores, e das minhas paixões. Não queiras diminuir a importância disso!”


Houve um momentinho em que o silêncio ficou ainda mais denso. Depois, a voz da casa fez-se ouvir de novo:”-Não estou a diminuir a importância de nada. Mas essa é a minha história, a que tu levas contigo. Eu é que sou a tua história, a que deixas de ti”.



Fiquei sem saber o que dizer, durante algum tempo. Talvez fosse assim.

“-Então achas que, juntas, as nossas histórias são assim uma espécie de romance que houve entre a vontade e o possível ?”-perguntei.
“-Sim, creio que sim! Mas quem sabe destas coisas é a saudade…”

Não soube o que mais dizer. Era a minha hora de saír. Nem me atrevi a ir à capelinha que eu mesmo construíra nas traseiras, e onde havia escrito o meu pedido de sempre: "-Permite, Senhor, que te oremos trabalhando." Já tinha estado lá no dia anterior.

Fui olhando em redor à medida que caminhava para a porta, descendo as escadas interiores. O corrimão de madeira nobre disse-me um adeus especial, que guardo até hoje, fazendo-me uma carícia secreta na palma da mão.

Saí, fechei finalmente a porta e depois consegui não olhar para trás. Poucas vezes na minha vida senti com tanta intensidade que outro futuro estava começando ali.

Tentei filosofar comigo mesmo, enquanto entrava no carro. Avancei para a estrada dizendo a mim próprio que a vida é feita destas coisas, de momentos assim, raros e sem muitas explicações.  E que não era estranho ter havido este diálogo com a casa.
Afinal, eu tinha estado a despedir-me dela. E via agora que ela também estava a despedir-se de mim.





COPYRIGHTHENRIQUEMENDES/2018 foto colhida na net, sem autoria conhecida