19 de mai de 2016

128 - POR AÍ







Andava um pouco por todo o lado, sem se preocupar em ter um rumo.

Lançava os olhos sobre as coisas, numa espécie de exercício de desatenção, mas eles não se tardavam nelas. Era antes como se os deixasse seguir uma borboleta nas lógicas desconhecidas dos  seus  voos  periclitantes.

Num momento adejavam em fascínios por uma  flor, para logo depois permanecerem encantados com a solidez duma qualquer pedra triste, dum canto sem encanto. Ou então elevavam-se no ar, como num invisível turbilhão de vento e esbaforidas asas, e perdiam-se nos jogos de sombras e nos matizados quentes dos pores de sol.

Às vezes sentava-se num canto qualquer de nenhum lugar em especial, quando o cansaço ou a fome pesavam nos seus gestos. E às perguntas que lhe faziam respondia sendo quem era, dependendo do que estava sendo, ou do que a pergunta perguntava.

-Não vou mais longe, porque me falta a coragem para o regresso!- respondeu um dia à estrada. – Pela estrada vai-se tão longe!
Uma agitação indefinida fez com que olhasse em redor e sorrisse para o sorriso que os caminhos ostentavam, orgulhosos e contentes.

-São tão mais doces, os caminhos mais lentos! – continuou. – Mesmo que já seja noite, no regresso. Caminha-se bem, de noite…
E quando falava assim, a noite aproximava-se depressa, e surgia um escurecer que já era uma promessa de carícias.

-E a lua chega bem para ver tudo, e não tropeçar. É tão bonita, a lua!
E quando assim dizia, a lua brilhava mais, redonda e forte. E era como prata derramada na areia branca do chão, arrancando sombras mágicas às folhinhas de erva e às pedrinhas roladas, sempre prontas a entoarem baixinho o coro dos muitos passos.

Ao regresso respondeu já lá na fonte, dizendo que não voltava nunca por fome ou sede, mas porque sabia quem era, ao partir. E temia não saber se ia encontrar-se, ao chegar.

Então a água da fonte filosofou, e disse-lhe que a vida talvez fosse a própria sede, e que talvez fosse preciso beber sempre, sempre. Logo a fonte murmurejou uma nota mais alta de anuência e, logo depois, no pequeno lago, um sapo mergulhou com estardalhaço, concordando também.

Aproveitador como sempre, de imediato o medo se agigantou e tomou formas, e triste se foi quando ouviu que não era temido. E a água precisou entender como era saboreada em todos os infinitos instantes em que dava vida, e derramou lágrimas que não eram de tristeza mas de entendimento.

E terá sido das suas lágrimas que um nevoeiro sublime se ergueu, e aos poucos, contente,  subiu até sumir no ar. E foi quando a chuva desceu, e as plantas riam das gotas e cantavam uma canção com notas graves, de terra molhada e pedras verdes de musgo.

Nesse ínterim, o momento chegou, correndo e feliz. Falou de poesia e perguntou dos poetas, dos versos, de todas essas vozes que se ouviam ali, e que diziam e cantavam.

Alguém lhe perguntou sobre versos de amor, mas a resposta veio do muro, que estava segurando o vento e permitia tudo o mais.

Num murmúrio de pedras acumuladas, e um sorriso que o tempo derrubara mais ou menos a meio, pareceu dizer que todos os versos são de amor, mesmo em prosa.


Depois, no silêncio que ficou, uma voz fininha disse que versos somos todos nós. E pode ter sido a noite, ou talvez a saudade, que chegou entretanto, ou alguém que ninguém viu.


copyright henriquemendes ( foto e texto )


13 de mai de 2016

127 - RUA DA ALEGRIA






Eu lá ia apenas andando,
a cabeça longe, pensando,
enquanto descia
a Rua da Alegria.
Quando olhava as janelas
adivinhava por trás delas
olhares sorridentes
e sorrisos contentes.
E era da boa, a comida,
e quentinha a dormida
e tudo era perfeito,
assim daquele jeito.
E eu jamais pensaria
que era na rua da Alegria
que morava um amigo
que, ao conversar comigo
e ouvir-me elogiar a sua,
me falou da minha rua.
Ele sabia que nas janelas
havia olhos por trás delas,
que o viam passando
e ficavam imaginando
o desconforto que seria
viver na Rua da Alegria.
Eu disse que não era assim,
e ele não acreditou em mim.
E a razão por que o fazia,
nenhum de nós a sabia.
Mas já um ditado antigo,
que sempre trago comigo,
dizia que a galinha da vizinha
é sempre melhor que a minha…


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7 de mai de 2016

126 - QUANDO CHEGARES





Quando chegares para almoçar
irei abrir-te a porta, e saudar-te-ei
como se fosse normal ter-te aqui,
para que não te sintas uma visita.

Apenas me importa que sejas, amigo ou amiga,
parte de um preciosíssimo instante .
E único,  como sempre o devem ser 
os amigos e as amigas e, com eles,
os preciosos instantes.

Iremos comer naquela varanda olhando o rio
e ficaremos santamente bêbados e alegres,
abençoados pela tarde que passa, terna,
prolixa  em cores tintas de vinho e sol
reflectidas nessas águas que se vão indo…
Indo! Afastando pedaços de espelhos e de céu,
e de núvens que, passado um pouco, já não estão…

( tal como tú não estarás, dentro em pouco,
e continuarás não estando
até que te sintas  convidado  e voltes a este instante
em que beber vinho na varanda, vendo as águas indo-se,
te torna bendito pelos deuses antigos
que ainda vivem nos finais de tarde,
de algumas tardes assim...
De alguns dias,
nos dias de alguns Poetas… )



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