20 de jan de 2017

137 - HAVIA UM CAIS

Old Dock by JoshkTaylor

Havia um cais.
Ficava lá depois da última praia. 
Depois do último molhe de pedras amontoadas,
que amansavam às ondas o seu avanço.

E nós esperávamos, ainda longe,
que chegasse a hora certa.
Depois caminhávamos às pressas,
e ríamos quando a água vinha
e já nos chegava aos pés.
E sempre acabávamos a correr muito,
com a água cada vez mais perto,
apertando-nos contra as rochas
num contra-relógio juvenil,
insano e perigoso.

E quando o areal ia terminando,
e já não havia mais lixo
senão aquele que o mar trazia,
nem se viam outras pegadas
que não fossem as que deixávamos
-sabíamos que o momento ficava sério.

Parecia que gritavam avisos, as ondas,
e havia grasnados de protesto
nos ninhos das rochas mais altas,
das falésias cheias de sol.


Mas agora já não podíamos voltar atrás,
era o mar que nos empurrava para o cais,
de medo escondido nos olhares
e nos risos de desafio ao momento.
E não havia outros tão alegres,
nesse mundo  onde julgávamos
que Deus nos deixava ousar destinos.


Por fim chegávamos,
já com a água espumando nas coxas,
sabendo que não havia  outro caminho.
Ninguém nos seguiria, mas quem viesse
precisaria esperar que vazasse
essa maré que só agora começava a encher.

E se isso  fazia de nós prisioneiros,
voluntários e contentes,
também nos tornava donos do tempo
por todo um dia de marés.

Sim, havia um cais.
Tinha um sossego que era todo seu,
mesmo com os gritos das gaivotas
e o marulhar das águas,
o cheiro húmido do sal nas rochas
e o ruído distante da cidade que teimava
em fazer-se ouvir.

Ouviam-se nas tábuas velhas
vozes que vinham do fundo,
de ondas rolando pedras.
Mas, apaixonados,
pensávamos que eram beijos
segredos de mar e seixos,
e tudo o que rimasse
com abraços escondidos
de águas e pilares.

E havia um ranger antigo de madeira
que se espreguiçava ao sol,
sorria ao sol e, quente,
nos embalava  os sonhos lentos
de quem só pensa em céu azul,
sem nuvens e sem pressas,
e nos beijos fantásticos que só troca
quem é dono do tempo
e da vida

e pouco se importa com as marés.

COPYRIGHTHENRIQUEMENDES  TEXTO
FOTO JOSHK TAYLOR ( SEM UTILIZAÇÃO COMERCIAL )

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