30 de jan. de 2017
24 de jan. de 2017
141 - VÉU NEGRO

Num intante se espalha uma
bruma, um véu
feito
de preconceito e coisas já esperadas,
insidioso
e que não nos vê apenas como réu
mas
como culpado em causas já julgadas...
Presume
motivações, interesses específicos,
condena
e pune com cruéis vergastadas,
pessoas,
ideias, coisas apenas afloradas,
amores
simples, amanheceres magníficos...
E
divide o mundo em dois, racha-o ao meio.
De
um lado as coisas más, do outro as boas.
Ignora
as paixões, exclui a alma das pessoas,
E
esquece todo o resto que fica de permeio.
Logo
surgem aqueles que pretendem dominar,
e
aparecem os que só querem ser dominados,
e
é com essas tenazes que se vêem agarrados
os
de passos singelos, que tentavam caminhar...
Parece
que o mundo não é tão simples, mas é.
Morrem
aqueles que alguém despreza e mata.
Não
se pode negar um nó que ninguém desata:
-não
há guerra que seja santa, ou feita pela fé.
Que
fé é essa ? Em que deus desamado ?
Que
fé ?
copyrightHenriqueMendes ( texto )
foto colhida na net
foto colhida na net
23 de jan. de 2017
140 - SEM PENSAR
Talvez
hoje não seja assim tão simples, sorrir.
Ou
seguir pelas ruas sem destino, descuidado.
Ou
defender opiniões, pregando consciência,
não
importando o lugar, ou quem está presente.
Talvez
tudo esteja mudando lentamente,
e
se preze menos o valor do que a ambivalencia.
E
menos as escolhas, e mais o fado,
e
mais o presente, e muito menos o porvir...
Ou
talvez já não se viva sem competir,
ganhar
prémios, ser ultrapassado.
E
sem desesperar de impaciência,
nem
morrer silenciosamente.
Sem
calar, como quem consente.
Sem
votar, não tomando ciência
desse
palco, em circo armado.
Sem
pensar, apenas ir...
CopyrightHenriqueMendes/Novembro
2007
Foto com autorização do acordionista no castelo de Budapeste. Desconheço o seu nome.
Foto com autorização do acordionista no castelo de Budapeste. Desconheço o seu nome.
22 de jan. de 2017
139 - AGUAS DO MEU RIO
O
meu rio
conta
a minha história,
em
frases líquidas
por
águas murmuradas...
Sempre
para aqui corri,
quando
correr podia,
aqui
disse, quando voz havia,
e
fluí, quando rio eu era,
para
este lugar singelo,
único
e tão belo,
onde
paro e me sento,
em
suave espera,
escutando
o lento
remanso
do meu ser.
É
aqui que soam
os
cânticos sagrados
das
raízes molhadas,
suportando
secas
e
antecipando flores,
luminosidades
e odores...
E
aqui ecoa também,
em
rancoroso desdém,
as
voz das plantas dobradas
em
vénias de sobrevivência,
caçoando
do vento
em
suas maleitas.
Elas
dizem-me dos murmúrios surdos,
que
são os protestos das pedras insatisfeitas
crescendo,
no seu lento progredir
para
se tornarem pedras...
Aqui
eu escuto falas de vozes doces
no
toque dos sinos,
tão
alegres,
e
rumores dos secretos destinos
das
lagoas distantes,
onde
subtis acasos levaram amantes
que
nelas turvaram luas,
de
fadas que dançaram nuas
e,
virgens,
afogaram
febres...
Daqui
me vejo, a passar,
nessas
águas sem fim
-
imagens esboçadas de mim,
fluidos
momentos,
dores,
renascimentos,
uma
história
em
outras histórias,
um
tempo,
em
outros tempos...
Daqui
me vejo, nessas águas
das
minhas memórias,
onde,
juntos, nadam cansaços e falhas,
solidões
consentidas,
e
restos de outras vidas
flutuando
em cada pedaço.
Dores,
nas redes de finas malhas
com
que pesco
e
me repesco,
nas
linhas com que me traço.
Em
outras curvas
do
meu rio,
houve
dias
em
que ganhei brios,
e
me espalhei entre rochedos,
espumando
vontades turvas,
agitando
lodos e medos,
só
para morrer
em
escarpadas margens frias,
em
gelados desencantos.
Nas
águas do meu rio,
também
passam os meus prantos.
copyrighthenriquemendes texto e foto
20 de jan. de 2017
137 - HAVIA UM CAIS

Havia
um cais.
Ficava
lá depois da última praia.
Depois
do último molhe de pedras amontoadas,
que
amansavam às ondas o seu avanço.
E
nós esperávamos, ainda longe,
que
chegasse a hora certa.
Depois
caminhávamos às pressas,
e
ríamos quando a água vinha
e
já nos chegava aos pés.
E
sempre acabávamos a correr muito,
com
a água cada vez mais perto,
apertando-nos
contra as rochas
num
contra-relógio juvenil,
insano
e perigoso.
E
quando o areal ia terminando,
e
já não havia mais lixo
senão
aquele que o mar trazia,
nem
se viam outras pegadas
que
não fossem as que deixávamos
-sabíamos
que o momento ficava sério.
Parecia
que gritavam avisos, as ondas,
e
havia grasnados de protesto
nos
ninhos das rochas mais altas,
das
falésias cheias de sol.
Mas
agora já não podíamos voltar atrás,
era
o mar que nos empurrava para o cais,
de
medo escondido nos olhares
e
nos risos de desafio ao momento.
E
não havia outros tão alegres,
nesse
mundo onde julgávamos
que
Deus nos deixava ousar destinos.
Por
fim chegávamos,
já
com a água espumando nas coxas,
sabendo
que não havia outro caminho.
Ninguém
nos seguiria, mas quem viesse
precisaria
esperar que vazasse
essa
maré que só agora começava a encher.
E
se isso fazia de nós prisioneiros,
voluntários
e contentes,
também
nos tornava donos do tempo
por
todo um dia de marés.
Sim,
havia um cais.
Tinha
um sossego que era todo seu,
mesmo
com os gritos das gaivotas
e
o marulhar das águas,
o
cheiro húmido do sal nas rochas
e
o ruído distante da cidade que teimava
em
fazer-se ouvir.
Ouviam-se
nas tábuas velhas
vozes
que vinham do fundo,
de
ondas rolando pedras.
Mas,
apaixonados,
pensávamos
que eram beijos
segredos
de mar e seixos,
e
tudo o que rimasse
com
abraços escondidos
de
águas e pilares.
E havia
um ranger antigo de madeira
que
se espreguiçava ao sol,
sorria
ao sol e, quente,
nos
embalava os sonhos lentos
de
quem só pensa em céu azul,
sem
nuvens e sem pressas,
e nos
beijos fantásticos que só troca
quem
é dono do tempo
e
da vida
e
pouco se importa com as marés.
COPYRIGHTHENRIQUEMENDES TEXTO
FOTO JOSHK TAYLOR ( SEM UTILIZAÇÃO COMERCIAL )
9 de jan. de 2017
136 - SEMPRE HÁ UM MOMENTO
Sempre há um momento
-madrugada que seja, ou não, que
importa?-
em que começa todo
esse pulsar de coisa nova,
tudo isso que sabíamos que ia
acontecer…
E do lado de lá do rio que então
nasce,
-de lágrimas que seja, ou talvez
de risos,
ou apenas céu disfarçado de rio, (
que importa?),
tão largo, tão fundo, tão cedo ou
tarde já… -
vemos os nossos céus nos reflexos mais diversos
dessa imensa água única que vai indo, indo,
e que aos poucos se agiganta e se
afasta,
ainda tão próxima ao gesto, ainda
tão nossa,
e, apesar disso, já tão vasta…
que um futuro recém deixado de o ser
desaba finalmente, decididamente,
já com ares de agora -ou de há pouco , que
seja.
Talvez de ontem. Será que
importa?-
Cabe num instante do rio, a
mudança das nuvens
que levam escondidos na água os
mistérios
desses céus tão maiores que nós.
Cabem os destinos das chuvas e
das colheitas,
e os olhos cintilantes das noites
traindo
os sonhos distantes que as estrelas
têm
quando nos contemplam lá de cima,
abstractamente…
- e, além de tudo isto, ou de algo que assim seja,
o que haja, se o houver, será que
importa ?
foto e poema: copyrightHMendes/2017
1 de jan. de 2017
135 - COMECEMOS DEVAGAR

Comecemos devagar.
Afinal, temos pela frente todo o tempo que houver.
Por isso que haja prazer nas nossas lentidões
-e um saborear do tempo em langores de infinito.
Que a chuva seja mais
que a bênção da água:
-uma nota perfeita, soando no telhado
que nos abriga onde
estivermos.
E que entendamos a paz das coisas,
num abrir de espírito a tudo o que nos cerca,
enquanto sentimos as
plantas dançarem em verde
as alegrias da fertilidade profunda que lhes chega.
Ouçamos a risada livre dos córregos felizes
a caminho de algum destino remoto,
tão fundamental que
dele dependem rios e mares,
e mais tarde nuvens, que choverão instantes.
Comecemos devagar,
como se fossemos escrever nelas tudo o que importa
sem medo de que algum
vento chegue
e lentamente espalhe por outro horizonte qualquer
o que para nós era tão precioso como pó de estrelas.
E que encontremos na luz coada do fim dos dias
o espaço sagrado que reservamos ao fundamental,
algo tão único, tão pessoal, e tão exclusivo
que nos rodeia como uma oração,
- um muro que deixa do lado de fora
do que escolhemos para nós
o oportunismo de alguns e tudo o que nos faz mal.
Comecemos devagar.
Aprendamos com o tempo.
Afinal, temos todo o que ainda houver!
E nele nos gastaremos, nas pequenas batalhas
cujos resultados vão escrevendo no mundo
aquela que é realmente a nossa história
- de que alguns falam como se fosse destino,
ou nela não houvesse anseios e suor.
Comecemos devagar…
(FOTO DE AUTORIA DESCONHECIDA.copyrightHenriqueMendes/2017)
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