26 de jul de 2013

73 - O VELHO DOS OLHOS DE POETA

Todos acabaram vendo aquele velho lá na praça
Sentado ao sol, comendo, num banco acomodado,
Olhando tudo com o ar meio feliz, meio sem graça
De quem repousa e, aos poucos,  vai ficando  saciado.

Tinha aquele olhar brilhante e meigo, de Poeta,
E quem o olhasse assim, na praça, bem ao meio,
Não saberia  dizer se ele viera naquela bicicleta
Encostada ali de frente,  na beirada  do passeio.

E quem soubesse não poderia dizer, afiançando,
Como fora que ali chegara o velho dos olhos de poeta,
Se chegara apenas empurrando-a  e caminhando,
Ou se nela viera sentado, pedalando na velha bicicleta.

E foi assim que começou a lenda dele, foi nesse dia.
De repente chegava,  e não tinha hora para chegar,
E isso também era uma coisa que nunca ninguém  via:
O momento exacto daquele velho forte se aproximar.

Ele gostava de sol, mas dava no mesmo quando chovia.
Escondia-se um pouco no coreto, até a chuva passar
Mas logo regressava ao banco, onde toda a gente o via,
Ali no meio da praça, apenas, e andava longe o seu olhar …

E todos os dias chegava,  e aquele banco era já pertença sua…
Vinha de onde, o Poeta ? - como lhe chamavam agora-
Para onde ia, quando se ia o sol e, à tarde, sucedia a lua ?
E regressava de onde quando ao dia precedia a aurora?

As crianças gostavam dele, e das histórias que contava.
As senhoras,  dos seus cumprimentos de cavalheiro.
Os homens da ameaça que por certo não representava
E da esquadra de polícia podiam vê-lo o dia inteiro.

Mas era bom, o velhote, e  gentil com toda a gente.
As senhoras davam-lhe roupa e comida, que agradecia
Sorrindo, com um ar tão feliz, e tão sinceramente,
Que ninguém levava a mal quando ele também as dividia.

Porque as suas mãos que recebiam,  também davam
E na meiguice dos  seus olhos de Poeta, meio vagos,
Havia um carinho grande por aqueles que precisavam.
Nos olhos trazia carinho, mas na alma trazia cuidados.

E nunca aconteceu faltar-lhe  nada do que ele queria
Nem ele faltou com carinho aqueles a quem acarinhava
Nem precisou  deixar de dividir nada com quem dividia
Ou tampouco  de abandonar o banco onde se sentava…

As pessoas habituaram-se com ele, e assim  foi acontecendo,
Que elas mesmo foram  repartindo o pouco que lhe davam,
E quando o velho se apercebeu  que assim estava sendo
Olhou em volta e sorriu feliz vendo como todos  partilhavam.

Então um dia, mesmo não tendo hora, chegou tarde o Poeta.
E as pessoas nem notaram , e ninguém realmente  reparou
Naquele velho forte, caminhando ao lado da velha bicicleta,
Que veio vindo até ao meio da praça, e ao lancil a encostou.

E no dia seguinte, quando  amanheceu  sozinha a bicicleta
La no meio da praça, em frente aquele  banco de jardim
Onde tantas vezes se sentara o velho de olhos de poeta
Perguntavam-se:  “Que Poeta era esse, que se foi assim ?”

Sem saberem bem o que fazer com a velha bicicleta
Deixaram-na ali mesmo,  e dali ela nunca foi roubada.
E muitos sentiram a ajuda do velho de olhos de Poeta
Enquanto pedalavam, fossem adultos ou criançada…

Jan/2013

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