13 de nov. de 2011

28 - PROJETO CHIANTI

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Para André Bessa, o mais novo dos meus velhos amigos, que, além de outras virtudes ligadas á poesia e á música - e outras artes não menos notáveis - entende o meu entusiasmo pelo Chianti.





 
Tomaremos, proponho,  esse  chianti  por horizonte,
(pois, neste momento, o que mais me interessa
são os ensinamentos, jamais  tolices, do Bessa),
e  aprender sobre sonetos, uma espécie de ponte.

 E por essa ponte  caminharei em desconforto,
rumo à Arte Maior tida como bandeira erguida,
não usando essa liberdade, sempre tão  querida,
da palavra voando livre, expressão e porto.

 Isto pelo fascínio sempre tido com tais artes,
que não é de hoje, nem  apenas daqui,
mas de outros tempos, e de outras partes.

Por isso, mesmo parecendo antagônicas,
não são de atraso minhas posturas...
- é que ainda estou brigando com as tônicas !   rsss...



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9 de nov. de 2011

27 - TRICKY BUSINESS

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Há memórias
que não podemos procurar.

Arriscamos encontrá-las !
E ao Tempo ...


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Foto: H.Mendes/2010/Musée Rodin/Paris

25 de out. de 2011

26 - SACRÉ-COEUR

A cidade não chega nunca a ser uma surpresa.
Não chega  a renovar-se em gritos, cores, cheiros, atos.
Não...
Acaba repetindo-se  depois de um ponto,  efémero
como uma fronteira escassa.
A cidade morre num carroussel antigo, colorido,
que roda perfeitamente,  teimando  num outro tempo,
como se fosse um relógio acertado por um fuso estranho.

Depois começam as escadas de pedra
por entre verde-jardim  e  degraus subindo sempre,
a pedra impondo-se mais e mais a cada passo lento,
eternizando momentos, esculpindo o tempo.
E nas costas a cidade evanescente  tornando-se  borrão,
detalhes perdendo-se, fundindo-se  num todo
mais amorfo e sem muito sentido.
Impõe-se a pedra, degraus, patamares, pausas.
Alguém  toca harpa, deliciosamente, por moedas,
num  concerto improvisado de costas para a cidade.
Por fim,  a presença dominante da pedra é absoluta,
esmagadora até ao limite dos sentidos.
No alto da montanha a beleza sublime do templo
que os homens extraíram dela  e ornaram de riquezas.
Atrás de mim, a cidade,  já tornada paisagem apenas.
E comigo uma inquietude, um ciciar baixo de vozes
que mais  ninguém parecia ouvir.

Por fim, um movimento mais súbito da cortina de água
numa das várias fontes próximas
tornou mais veemente a  inércia dos rostos
que me fitavam, estáticos, por detrás dela,
em total mimetismo com o lugar.
Creio que alguns me olhavam surpresos por vê-los.
Outros, apenas com a indiferença da perenidade.


Outros ainda, com a sabedoria que a pedra acumula.




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27 de set. de 2011

25 - VAGO


Queria um olhar límpido e vago,
 onde não houvesse mistérios,
mas apenas  a total falta de ansiedade
duma manhã  abrindo-se a outro nascer de sol.
Queria uma erva molhada e um cheiro de sonhos 
remanescentes, em azul profundo.
Campos atávicos entre montanhas
onde  nuvens impossíveis chorassem
 aves insuportáveis, em risos de ave.
E árvores, como dedos erguidos
a um céu impossível de se apontar.

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12 de set. de 2011

24 - PONTO G



Há numa praia da minha infância,
por entre as rochas amontoadas  aos milénios,
um pequeno espaço ignoto e escondido
onde é preciso machucar os pés para se chegar.
Na baixa-mar por ali fica, vagamente exposto,
coberto pela sujeira desdenhada pelo oceano
e pelos olhares de quem atenta mais longe,
preferindo  a dificuldade dos  horizontes
à feiúra  do lixo urbano naufragado.
Na praia-mar fica submerso e muito fundo,
e o pequeno espaço muda de cor

consoante a cor da luz percorre todo o espectro,
num acordo antigo com as ondas na superfície.
E muda de forma e torna-se limpo e são
consoante o mar  flutua o lixo e o leva,
e deixa apenas  aquele  pequeno ponto
que mantenho desconhecido dos outros
encaixando nele uma pedra igual a tantas.


E ninguém sabe, no meu mergulho,
desse tempo precioso que gasto por lá.
Nem do estranho prazer ritualizado
de retirar a pedra-camuflagem e,
no mais improvável de todos os gestos,
do encostar dos meus lábios à rocha áspera
num beijo que castamente me enche a boca
da água doce e pura que ela derrama,
e da celebração de um ato de amor fantástico
entre reinos naturais diferentes,
quase  iniciático e quase perdido.


Quase...

(Sempre há um leve crepitar chiado
de areias em frição, umas com as outras,
movidas pelo balanço cósmico das ondas.
Ou então de pequenas pedras ajustando-se,
ou quiçá corais num aplauso baixinho...
-ou é apenas tempo de regressar á superfície,
antes que a falta de ar já seja tanta
que fique maior que qualquer angústia,
e já não compense mais ter medo,
e a melhor escolha se torne ficar mais um pouco,
e, depois, um pouco mais ...)

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