23 de mar de 2014

95 - AQUELES QUE EU CANTO








A todos, aqueles que nos regozijamos com o Dia da Poesia, já passado:
-Parabéns !

Que nosso canto se erga sempre, e por límpidas causas !
Criámos, ao longo do tempo, algo a que pretenciosamente chamamos civilização. Dito assim, parece até coisa fácil, e sabemos que não foi. Demorou. Teve altos e baixos e, como sempre acontece, prevaleceu a visão dos mais fortes. Não necessáriamente dos melhores, ou dos mais justos, mas a dos que triunfaram.

Por isso, aquilo que a História nos conta, é quase sempre a história dos que ganharam voz. Raramente a dos silenciados, mesmo que sobreviventes. Na cultura, não poderia ser diferente.

Nesta data,  e pela primeira vez, faço como se fosse uma licenciosidade poética associada à data, uma sentida homenagem  a todos aqueles cujo  valor inestimável se perdeu na voragem das conquistas que o ser humano, com a justificativa de re-escrever permanentemente sua própria História, tem vindo arbitráriamente a impor ao seu semelhante.

Celebro, assim, não apenas a Poesia e os Poetas mas, acima de tudo, celebro o Espírito Poético que nos iguala e irmana na busca pelo belo, dando origem a todas as artes, não importando como se manifestem ou ganhem expressão e influência na vida de todos nós.

E cabe nesta exaltação  dos valores reais, não apenas mediáticos, uma palavra de ponderação sobre o triunfo de alguns,  tornados em quase-deuses  e investidos de poder pelas massas anónimas, sensíveis desde sempre a rótulos e a historinhas de encantar: 

- A maior conquista da Humanidade,  como um todo,  não é a sua cultura, mas a capacidade de perpetuar o conhecimento adquirido, e de preservá-lo,  bem como à sua capacidade de pensar. A isso, uma vez feito, chama-se memória de um povo.

Nesta época conturbada, usando a memória e os fácilmente comprováveis recursos da História, recordemos:  Todos os grandes regimes, mesmo as ditaduras, ou principalmente elas, não nasceram de um passe de mágica, mas sim com um forte apoio popular. Nasceram de gente falando bonito, e sempre em nome de um povo que se encantou. E que, encantado, ergueu seus braços e suas vozes aos milhões, em conjunto, dando o seu aval e tornando legítimas algumas passagens da História.  E algumas dessas passagens protagonizaram  horrores que, até hoje, há quem batalhe por desmentir.  A algumas  dessas passagens da História, só lhes faltou quem protagonizasse esses horrores às claras, assumidamente.

Em nome dos valores mais diversos, como honra, dinheiro, poder, pátria, política, justiça, e até de Deus, já matámos e já morremos aos milhões. Já  condenámos outros tantos ao sofrimento torpe e indigno da fome, da sede e da ignorância. Já esgotámos  o planeta ! E sempre encontrámos nos outros as desculpas e as justificativas para tudo isso.


Eu celebro aqueles de entre esses, que foram os conquistados. Alguns que não chegaram a ser, e de quem não se fala. E, neste Dia da Poesia, pergunto-me como seriam os seus versos. Se teriam a ligeireza dos nossos, e a efemeridade do que se lê por aí…



Foto: Mural Palacio Nabucodonosor/British Museum/London 2012/ Henrique Mendes

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