23 de dez de 2013

91 - BONECO DE LATA - Natal 2013


Eu vi quando, antes de sair, ele ficou olhando aquela reprodução duma velha foto em que eu, cliente habitual, nunca prestara atenção. Era uma ampliação enorme, que fora transformada na logomarca da casa. E ele era um homem negro, bem vestido, mas com simplicidade.

Já o tinha notado quando ele entrara e fora directamente para trás do balcão e ficara conversando simpaticamente com o empregado do pequeno bar em que eu me encontrava. Pouco depois colocara um avental e começara a lavar uns copos enquanto, com um gesto discreto, apontara na direcção da sala e fizera com que  o empregado recolhesse toda a louça que havia nas mesas, e que já era desnecessária.

Acabei  pedindo mais  um café quando este me abordou, perguntando se podia levar a chávena vazia. Notei que estava um pouco nervoso.
-É o patrão ? –perguntei
-É sim, senhor ! – e voltou para o balcão, atarefado.
Pouco depois, de o patrão ter saído, aproximou-se sorrindo, para continuar o assunto.

-E ele fica lavando louça, assim ? – admirei-me
-Ele gosta ! – respondeu desconcertado. - Sempre faz isso, quando aqui vem. Confere as contas, vê se está tudo bem, se é preciso alguma coisa, e depois vai-se embora. Mas sempre atende algum cliente, ou lava louça, ou faz algo assim. Ele e a irmã hoje são donos de uma rede enorme de pequenos bares como este, junto a estações, ou a rodoviárias, cá e noutros países.

-Ah é ? -  perguntei só para dar seguimento à conversa…
-Sim, senhor! Nada de muito luxuoso, como vê. Apenas  pequenos lugares agradáveis onde se pode descansar um pouco, ou marcar um encontro com alguém, ou comer uma pequena refeição simples e baratinha.

-Parecem gente boa!
-São sim, senhor. Diz-se que passaram dificuldades, quando eram crianças. E que trabalharam muito para conseguirem ter alguma coisa. São muito humanos.

Outros clientes chamaram a atenção do empregado, que foi  atendê-los. A minha recaiu sobre a foto da logomarca, na entrada. Havia nela alguma coisa vagamente familiar. Passado um pouco, o empregado regressou com uma foto de tamanho normal, que me mostrou.

- Esta é a mesma foto, sem ser ampliada ! – disse – Os donos fazem questão que a mostremos a toda a gente que se mostre interessada na foto do logotipo. Dizem que um dia  alguém verá essa foto e se lembrará deles.

Olhei a foto. Eram dois meninos negros rindo, um de cada lado de um boneco  feito com um pequeno  tambor de lata, ferrugento. Sorri das suas expressões de felicidade intensa.

O gorro do boneco era feito com um saco de cimento sujo com barro vermelho, que custara a ficar em pé para a fotografia.

Os olhos, tinham sido improvisados com duas páginas de agenda, recortadas em redondo, e duas tampinhas pretas de rolo de fotografias.
A boca tinha sido desenhada a carvão, aberta, rindo muito.

Depois tínhamos feito furos com um prego e colocado pequenos pedaços de corda desfiada, com um nó na ponta, de dentro para fora, e ficara uma barba razoável, mais cerrada de um lado do que do outro, mas ainda assim uma barba…

E, ainda assim, ficara  um boneco que os garotos tinham adorado apesar daquele ar de poeira suja, do vento e da fome que havia naquela aldeia remota, lá em Africa, perto duma estação  ferroviária incongruente, onde ninguém se apeava, nem ninguém subia, e onde um mato ralo crescia no meio dos trilhos…

“-Quem é esse?” - tinham perguntado
“-Esse é o Pai Natal!”- respondi, rindo junto com eles
“-Na minha terra chamam-lhe Papai Noel…”- dissera o meu colega brasileiro
“-E na minha, chamamos-lhe Santa Claus! “ – acrescentara Ramón, que falava espanhol.
 “-Tem três nomes…”
“-Ih…tem muitos nomes…mas é sempre o mesmo! Aparece sempre neste dia, para trazer presentes para as crianças.”
Os garotos pareceram confusos. Não sabiam o que eram presentes…
“Comida! “ – expliquei  prosaicamente. E então eles riram muito…

E foi assim que eu e mais dois colegas acabamos dividindo alguns mantimentos com esses dois garotos, que teimavam em nos ajudar, e feito uma espécie de jantar com eles. Era 24 de Dezembro, e a noite ajudava a não ver e a esquecer toda aquela miséria na aldeia, além do circulo de luz da fogueira. Tinha surgido a brincadeira do Pai Natal, e na sequência dela o jantar ganhara, para nós,  o simbolismo de uma ceia.
Um dos meus colegas, ao saber que não tinham pais, deu-lhes algum dinheiro. Disse-lhes que era suficiente para apanharem o próximo trem que passasse e irem para uma cidade grande, longe dali. 

Eles riam tanto do boneco barbudo, estavam tão felizes tagarelando na sua língua nativa um com o outro, que duvidámos que tivessem entendido. Tiramos umas fotos, que mais tarde fizemos chegar ao chefe da estação, para que lhas encaminhasse.

Agora, ali no bar, tantos anos depois, o empregado contava-me a história daquele patrão insólito, eu olhava a chuva lá fora, pensava naqueles meninos de uma véspera de Natal tão distante da minha vida de hoje, e recordava-me de uma consoada improvisada feita junto de uma estação poeirenta.

O empregado ia falando, e eu fui sabendo como todos os anos, na véspera de Natal, eles abriam as portas e serviam um jantar muito simples, gratuito, a quem quisesse comer. E recordava o homem negro que vira entrar e sair, que afinal era o dono de uma rede de pequenos bares que existia em vários países, junto às estações.

Identificava nele aquele menino da foto, ao lado daquele boneco de lata com barba de corda, rindo muito com a irmã num lugar poeirento de África, quase sem esperança, num dia em que alguém lhes dera  razões para rir.

Olhei novamente a logomarca, com outros olhos. Dizia:  Pai Natal – Café.

Fiquei com a certeza que, nos outros países onde existiam, os pequenos bares não seriam nada diferentes daquele. Apenas o nome mudaria um pouco. Mas estaria também escrito junto da mesma foto ampliada que agora eu já reconhecia, de um boneco de lata com barba de corda, e uns olhinhos pretos, redondinhos…. 



2 comentários:

  1. Que maravilha de conto,como sempre tua sensibilidade e talento a nos fazer emocionar e viajar entre tuas astutas letras.

    O Poeta do Deserto

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  2. Gosto muito deste seu conto.
    Os detalhes são fantásticos.
    Parabéns!

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