9 de set de 2011

22 - PARECE QUE FOI ONTEM



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Parece que foi ontem,
mas foi há muito tempo.
Uma manhã apanhou-me desprevenido
e lançou-me a sombra grata de uma árvore gigante
sobre umas folhas em branco, à minha frente,
à mesa de um café.
Depois disso, escrevi-me em manhãs,
todas quantas pude.
Escrevi-me em passos hesitantes
pelas alvuras exigentes dos papéis,
que sempre me iam encontrando como sou:
- de olhos quase vagos e quase atentos,
sentindo em redor, como se olhasse.
( Um adulador de detalhes, na opinião de alguém. )
Escrevi-me dispersamente,
espalhando-me pelas histórias
que tantas outras mesas  me contaram,
se sem saber que procurava repetir
a força avassaladora daquela primeira vez,
quando assim me vi, face á sede inesgotável
do papel em branco.
Escrevi-me em instantâneos dos outros, que fiz meus.
Foram segredinhos, surpresas e rompantes,
talvez partículas de passados
a que dei formatos e sons,
presença numa qualquer história
- que existiria mesmo sem mim.
Escrevi-me em rituais estereotipados, sofridos,
escolhas necessárias, tudo em nome de  algo
que um dos meus  futuros possíveis
pudesse eventualmente exigir um dia, quem sabe...
Mas o futuro tardava a chegar,
e era incerto que o identificasse
como sendo o meu...
Então,  parece que foi ontem, 
mas já foi há muito tempo
que me escrevi em passos lentos
pelas muralhas da cidade,
e em todas as fachadas brancas
das casinhas sorrindo para o sol;
E em cada rua calçada de pedras antigas
ecoando vozes de crianças;
E em todos os cais, 
e no ruído quente de todos os bares,
e caminhando nas noites
que os outros evitaram receosos.
Em todas me escrevi, com um olhar de adeus
onde havia uma lágrima
que humedeceu outras terras,
muito além do solo onde cravei os pés.
Escrevi-me em cânticos inúteis de louvor
a valores desnecessários,
e em registos de memórias merecendo serem vagas.
Escrevi-me em buscas que jamais terminarei,
e em sonhos que jamais  saberei parar de sonhar.

Parece que foi ontem,
e nem tem sido há tanto tempo...
Escrevi-me um pouco por toda a parte.
Encontrei-me um pouco por todo o lado.
Li-me entre pilares de pedra antiga,
erguendo-se de águas infinitas até ao horizonte,
que marulharam  versos meus
repletos de sal e de destino.
E de lugares por saber...


Out/2011


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2 comentários:

  1. Meu caro Henrique,

    parabéns por este seu belo texto. Confessional, por vezes hermético, porque pleno de simbolismos e de metalinguagens, porém, muito expressivo na prosa poética que ele contém.

    Nele vejo construções muito originais ("escrevi-me em buscas que jamais terminarei... li-me entre pilares de pedra antiga...) e de um lirismo quase objetivo, se ouso assim definir.

    Escrever-se em manhãs, em tardes... oh, quanto isso me é por demais evocativo! Um belo texto poético, meu amigo, que demonstra bem o seu inegável talento com as letras, e o poder que tem de amealhar reminiscências e enfeixá-las da forma mais literária possível. Agradou-me sobremaneira.

    Meus aplausos, e um forte abraço.

    André

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  2. Andam por aí pedaços de nós em papel; andam por aí pedaços de papel connosco ao sabor do vento, jamais do esquecimento.

    Abraço
    João

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