8 de jul de 2011

14 - JAMAIS TE SONHEI MAR






Jamais te sonhei mar,
imensidão, infinitude.
Mas sempre ambicionei
que em ti o meu nado
fosse poema e deslumbramento,
carícia total em gesto conhecido.
Elegância escolhida sempre.
Sempre quis que as palavras
fossem passos paralelos dando voz
a caminhos convergindo ao sublime.
Por isso nunca me seduziram os murmúrios
nem as mensagens pouco firmes das lágrimas,
em emoções que a dúvida profana.
Por isso nunca olhei menos longe
que a distância confortável da abstração,
onde se difusam as formas e os medos.
Por isso nunca disse em sussurros
o que o peito me ordenava aos gritos.
Por isso tantas vezes calei a alegria
da erva molhada das manhãs,
insisti em não entender céus luminosos
e fiz-me surdo a dobrados de sinos bucólicos,
que me remetiam a outros tempos
- onde o tempo ainda não era um luxo
e, resultando de um lento passado,

preconizava um futuro

onde tudo estava por escrever.


( Henrique Mendes )
.

Um comentário:

  1. Meu caro amigo Henrique,

    O contraste entre imensidão do mar e o gesto simples e singelo de um nado nele, conduzindo à certezas íntimas, de tudo o quanto se quis, de tudo que foi silenciado e que de repente se revela como grito da alma. Tudo, todas as palavras e imagens fizeram desse texto, confessional talvez, a mais fina poesia.

    Sempre muito prazeroso sorver da sua poesia, meu amigo poeta.
    Um abraço,
    Celêdian

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