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1 de jan. de 2018

158 - NOVO FIM






Quando o tempo se encolhe,
perde importância o que pouco importa.
Chegam respostas a perguntas esquecidas,
bordejando caminhos sem rumo claro, 
como flores preciosas e acidentais
que definham por falta de atenção
depois de gritarem cores.

Rasgam-se cartas não escritas.
Guarda-se o papel que ninguém usou
e o envelope que permanece vazio, 
onde não se colaram selos nem sonhos, 
nem se escreveram destinos.
Arrumam-se cansaços antigos,
feitos de esperas e vigílias, espessos de
militâncias por valores e crenças maiores.
Levantam-se tapetes tranquilos
em busca de lixos escondidos 
com aparências de normalidade.
Varre-se, prescinde-se, arruma-se,
esvazia-se, define-se um outro esquema
para o porvernir já menos distante.
Abre-se mão de medos, resistências,
lamentos, quezílias as mais diversas
-tudo em nome da leveza para a viagem 
que começa já no próximo instante.
Percebem-se sombras fugazes,
mas quase sempre são esperanças
que nascem furtivas.
Faz-se um espaço vazio depois do ajuste,
como um berço onde embalar medos.
Mas é onde semeamos vontades 
e desfraldamos velas, querentes de vento,
que nos levem pelo mar desconhecido
das travessias necessárias.
O novo ano começa fremente,
e há galopes na manada das horas
disparadas em todas as direções,
já perseguindo metas esquivas.
E por cima de tudo há uma campânula
de silêncio adivinhado onde, aos poucos,
hesitantemente, nos vamos reconhecendo 
nos  pequenos nadas  que somos,
coisas tão nossas e inconfundíveis
como gestos íntimos.
E em toda essa agitação e alegria,
há mais um ano que ainda mal nasceu
mas que já caminha para o seu fim
-como sempre acontece.


15 de nov. de 2012

57 - RECEITA PURA





Tempero a minha tinta com pigmentos certos 
em pequenas doses, de que nunca me apercebi.
E são sempre os mesmos, os frascos que deixo abertos,
nessas prateleiras onde guardo de tudo o que colhi.

Não são bem  memórias,   nem chegam a ser  recordações.
São mais  esboços,  algumas coisas apenas começadas,
às vezes  apenas  imagens,  ou apenas  vagas sensações.
Raramente convicções plenas, ou certezas já formadas.

São também fragmentos, pedaços de coisas, objetos costumeiros,
papéis onde lancei linhas como gritos de alma, interrompidos,
arquivos de pensamentos que  se inexplicaram, perdidos,
num mar de acasos  displicentes,  travestidos de ordeiros.

A um pouco de tudo isso, misturo a vontade e a sede do momento.
faço a tinta com que me pinto,  na tela do que vou podendo ser,
em traços fortes de emoção e uma ou outra lágrima de prazer,
até que de mim reste algo mais concreto do que apenas o sentimento.

É dessa forma, vendo  paredes cobertas de tantos pedaços de mim,
que recolhi   em tantos rumos inesperados  por onde me espraiei,
vendo  as marcas do uso dizerem-me quais foram os que mais usei,
que entendo melhor  como, afinal,  sou,  e como me tornei  assim.

E se, nesse processo de tornar-me em mim e  dar-me forma,
me dei a tanto, e em tanta coisa leio o formato da minha mão,
que privilégio conhecer-me assim por dentro, saber-me  razão,
e escolhas além dos acasos, e improvisos além da norma...

Depois encaro os dias, senão refeito, pelo menos renovado.
E se não encontro motivos para orgulho, nessas cores que exibo,
por certo também nelas não encontro razões para o ver ferido
e o meu caminho estende-se em passos de caminho caminhado....

E quando ocasionalmente me esqueço do básico que aprendi,
e dou por mim assim cabisbaixo, e vejo  o triste que eu estou,
olho os meus frascos abertos, pago o preço de ser quem  sou,
e repinto-me com as cores que, aos poucos, para mim escolhi.



Julho 2010 / rev 2012

( imagem do google )

5 de nov. de 2012

55 - COR DESTINO






Talvez haja palavras mais além das palavras mais simples.
Que me expliquem mais em azul, quando quiser  dizer  “céu”,
ou que  façam mais verde a erva  nos campos
por onde galopa, disparado, esse cavalo que monto
rumo ao mais lento de todos  os destinos.

Há-as  mais claras, mais veementes e mais belas.

Mas eu  sou caminheiro antigo,
e busco-as  nas curvas  feitas pelos  caminhos,
nos segredos da poeira  mil vezes levantada,
que mil vezes assentou lentamente sobre o mundo,
-e mil vezes revelou detalhes preciosos
de histórias que ninguém contou.

Venho  dum tempo
em que as palavras eram fáceis e iguais,
preciosas, fáceis de usar.

Soavam, diziam.
e não contavam histórias.

Hoje conto, de todas as vezes,
cuidadosamente,
o preço que pago para que as contem.

E digam exactamente
que cores quero no meu céu,
e como pinto o meu destino.

14 de set. de 2012

53 - FALAR SILÊNCIOS






Houve um dia, já não sei quando,
em que a Rua passou a ser caminho, apenas,
e as vitrinas  não tiveram mais o apelo colorido
dos detalhes efervescendo  a imaginação.
Emoldurando portinholas de mistério,
portões verdes deixaram de fervilhar
os segredos das árvores douradas
pelos fins de tarde, nas entradas das casas.
E as ramagens  não viram mais reflectidas,
em brilhantes espelhagens de  indiferença,
nos olhares frios das vidraças sobranceiras,
as suas formas ondulantes de vibrar com a vida.
E na pedra branca dos muros alvos, brilhantes,
forrados de ainda mais pedra branca,
revistas coloridas deixaram súbitamente
de mostrar um outro mundo e outras gentes,
disposta em arames, exposta em arames,  quais
enormes sorrisos estáticos, arqueados entre pregos,
prometendo  paraísos ao vento,  intermitentes,
seguras com molas de roupa,
- a preços de moedas na calçada…
E todos que passavam tinham nome, e chamavam-se,
e sabiam-se,  e os seus medos eram simples:
temiam não haver mais quem quisesse flores,  
ou  uma revistinha de bordados em ponto cruz, 
ou fruta em saquinhos, cristalizada.

E houve um dia,  já não sei quando,
que passei correndo, cheio de pressa, 
e não vi mais a minha sombra de menino
a alongar-se pelos detalhes dos cantos.
E nem me saudou o reflexo costumeiro
nas vidraças das janelas,  agora fugidio - outro.
E quando me chamaram, não respondi …
mal tive tempo de olhar em volta.
Na pressa foi outra voz, também minha,
que disse olá – também nem sei a quem !
E corri tanto, tantas vezes fui e voltei
sem descanso,  tantas sem rumo crível,
que um dia apenas escutei silêncio na rua,
e vi que já era só um caminho –  e não mais.
E nos olhos com que me olhei,
como se a Rua eu fosse,
e me visse assim, ali,
também não me reconheci no que via.                                                   
E nos olhos com que então olhei a Rua,
toda a eloquência  do cansaço já adivinhado
me disse que não era a minha.
Nem meu, aquele caminho.
Nem eu, quem a estava olhando.

Então construí meu barco, esculpi mil remos,
velejei, remei meio mundo furando ondas,
lancei âncora, nadei, e vim…
Cheguei já caminhando,  e exaurido
pelo no medo de não chegar.
Cheguei oco, estranho, alienígena.
Os outros soando ao longe, como
alguém que não fala os meus silêncios.
Os outros, que não sabem onde fica
aquela  minha rua,
onde tenho absolutamente que passar,
para que deixe de ser apenas caminho.
E para que retome a vida,
e me traga à vida.
E me puxe de volta, me refaça e reconstrua,
e rompa com unhas que o tempo 
transformou em garras,
esse  adiamento que me impus.
E aqueles que me esperam travestido de poema,
ou de mim, ou de mim, ou de tantos que eu sou,
-dos tantos que todos somos-                                                                 
saibam que não estou pronto!

Falta-me ainda encontrar aquele menino
que percorria aquela rua, maravilhado,
sem imaginar que ela fosse um caminho.

Falta-me fazer com que Rua e caminho
se completem com aquilo que agora sou.
E fazer com que ambos me contem
as histórias de mim
que eu não sabia que eram história...


(imagem: creio que City Fog Night de Charles Campbell, colhida na net )