5 de out. de 2026

203 - VAMOS VER





Haverá realmente um ponto em que escolhermos o trilho certo? Aquele que, passo a passo, nos levará serpenteando por entre os instantes que, a cada momento que olhamos para trás, terão composto mais do que a nossa vida, o nosso destino ?


Haverá realmente um momento em que percebemos que não temos escolhas, verdadeiramente, e, ao não escolhermos, estamos a escolher continuar sem escolhas, ficando ao sabor do que vai vindo, e que isso, em si mesmo, é já um destino? Um que nos permite olhar para trás e dizer: não havia outro trilho, cheguei aqui porque não escolhi, nem havia escolhas, mas era preciso continuar…


12 de mai. de 2026

202 - O MEU POEMA

 







Este é o meu poema.

Encontrei-o num virar de esquina, 

num repente de um momento qualquer, 

inesperado.


A mim, o poema encontrou-me desprevenido, 

de guardas baixas, atravessando 

um instante vago e sem expectativas,

caminhando naquela tarde de tantos outros

para chegar a já nem sei onde.


E todo aquele espaço 

que havia na praça mortiça

à frente dos meus passos, 

pendurou-se nos meus olhos,

ganhou outra cor e todo um brilho feito

de significados que até aí permaneciam ocultos,

e o poema dominou-me com a mão firme

com que se domam sonhos fortes.


Cantou a minha força,

enalteceu desenganos,

apurou o que sobrou de mim.

E foi pouco, sendo muito.

E valeu a pena !



19 de mar. de 2026

201 - SOBRE A CAMA

 


Abri alguma porta, na memória antiga,

para um quarto escuro, remoto, perdido,

do qual tudo o que sobrou foi essa imagem

de intimidade duradoura.

Da penumbra até à luz, vinha o braço.

Sobre a roupa desarrumada,

por um momento mínimo eternizando-se,

a mão oferecia a palma à luz coada e brilhava

num grito mudo de pele quente,

um arrepio forte de ventre ao rubro.

Tudo o mais se esvaía em sombras

diante do espasmo impossível desses dedos,

abertos e curvados como garras,

que lhe acrescentavam relevos à palma.

Em linhas fundas,

onde misteriosos destinos tinham gravado

incontornáveis exigências de intensos amores,

havia-se inscrito aos poucos

a história dum percurso que terminava ali,

naquele momento esculpido em luz,

onde, mais alto que qualquer voz,

o silêncio envolvendo os gestos

falava do indizível em segredo,

e de doçura nos leves cuidados

com que um lenço garrido

emprestava cores de outras paragens

a uma lâmpada fria e indiferente...

25 de jul. de 2024

200 - EVANESCENTE

 







Creio que esperava

que numa dessas noites vulgares, anónimas,

impossíveis de apontar ou distinguir,

algo acontecesse que me fizesse crer

que já bastava, que agora era de vez,

que não valia a pena a teima constante

nas letras de todos os dias,

que era chegado o fim.


Mas não foi assim.

Apenas não foi, nem sequer assim.


Um dia passou, sem que o notasse, ligeiro.

Depois passaram outros, sem nenhum mal advindo.

E foi ficando claro, nessas palavras

que não me procuravam para nascer,

nessa coisa desenrolando-se

como balanço de barco em mar chão,

que navegava num rumo que, tendo origem,

era sem porto de destino.


Talvez por isso, as sombras das nuvens

se mostraram supérfluas e fugazes,

breves nos seus caminhos erráticos

ao meu redor, nunca de grande trovoada.


Tampouco as chuvas

foram mais do que água caindo, vital e

necessária para o mundo,

jamais as lágrimas tristes que um dia receei ver

molhando o que o meu olhar podia abarcar.


Não encontrei no espelho trejeitos de surpresa.

Nem de desistência, no que apenas não nasce.

Nem de impossibilidades, num futuro sempre estranho.

Nem de paz, lá onde se debatem as emoções.

Apenas a liberdade profunda, sem compromissos

nem datas, sem expectativas ou desafios,

de ir sendo ao acaso dos dias.


E assim, evanescente e cansado,

sem nenhum tipo válido de adeus,

deixo às palavras o etéreo fardo 

de me encontrarem.


Ou não...


18 de mai. de 2023

199 - HAVIA UM CAIS





Havia um cais.

Ficava lá depois da última praia.  

Depois do último molhe de pedras amontoadas,

que amansavam às ondas o seu avanço.


E nós esperávamos, ainda longe,

que chegasse a hora certa.

Depois caminhávamos às pressas,

e ríamos quando a espuma que vinha 

já nos chegava aos pés.

E sempre acabávamos a correr muito,

com a água cada vez mais perto, 

apertando-nos contra as rochas

num contra-relógio juvenil,

insano e perigoso.


E quando o areal ia terminando,

e já não havia mais lixo

senão aquele que o mar trazia,

nem se viam outras pegadas 

que não fossem as que deixávamos

-sabíamos que o momento ficava sério.


Parecia que gritavam avisos, as ondas,

e havia grasnados de protesto

nos ninhos das rochas mais altas, 

das falésias cheias de sol.



Mas então já não podíamos voltar atrás,

era o mar que nos empurrava para o cais, 

de medo escondido nos olhares

e nos risos nervosos com que desafiávamos

o momento, apesar de não haver outros

tão alegres nesse mundo em que julgávamos 

que Deus nos deixava ousar destinos.


Por fim chegávamos, 

já com a água espumando nas coxas,

sabendo que não havia  outro caminho.

Ninguém nos seguiria, mas quem viesse

precisaria esperar que vazasse 

essa maré que só agora começava a encher.


E se isso  fazia de nós prisioneiros,

voluntários e contentes,

também nos tornava donos do tempo 

por todo um dia de marés.


Sim, havia um cais.

Tinha um sossego que era todo seu,

mesmo com os gritos das gaivotas

e o marulhar das águas,

o cheiro húmido do sal nas rochas

e o ruído distante da cidade que teimava

em fazer-se ouvir.


Ouviam-se nas tábuas velhas 

vozes que vinham do fundo,

onde ondas rolavam pedras.

Mas nós, apaixonados, 

pensávamos que eram beijos,

segredos entre mar e seixos,

e tudo o que rimasse

com os abraços escondidos 

das águas com os pilares.


E havia também um ranger antigo 

de madeira que se espreguiçava ao sol,

sorria ao sol e, estalando de quente, 

nos embalava  os sonhos lentos 

de quem só pensa em céu azul,

sem nuvens e sem pressas,

e naqueles beijos fantásticos 

que só troca quem é dono do tempo,

e maior do que a vida

- e pouco se importa com as marés…


CopyrightHenriqueMendes/2017

20 de jul. de 2022

198 - ASSIM É

 




Para

que encontres o teu poema

basta uma noite amena

e que estejas  no jardim


que teus olhos vejam beleza

onde sintas a firmeza

de caminhar até ao fim


e se ainda não estiveres seguro

derruba a casa mas deixa o muro

que ninguém sabe bem sua raíz


sem percorrer em seus passos

trabalhos, amigos e abraços

e os campos santos do seu país


-nota que eu tampouco sei

se um dia conseguirei

chegar a  mostrar-te de mim


esse pouco que também tenho

feito longe, lá de onde venho,

um destino que se escreve assim


em letras onde pinto como em telas

gritos mudos, mas  abertas janelas

a mundos tão perto, tão longe de mim



(POEMA ESCRITO ORIGINALMENTE EM ESPANHOL, RETROVERTIDO AO PORTUGUES )

COPYRIGHTHENRIQUEMENDES2015

15 de jul. de 2022

197 - CANTO CHÃO

 



 

 

Meu canto é chão, profundo.


Pesadas  são as cores das minhas paisagens,

em  acasos de pincel e tinta.


Errantes são meus trilhos, em pegadas incertas

pelas poeiras dos caminhos ermos,

que  ninguém mais percorre.


Mágicas, as vozes que falam por mim,

em longas frases, roucas e singelas.


Forte, é essa vontade que me consome

e gera  linhas cheias de palavras, como bálsamos.

Imensa, a extensão do meu querer, repetindo-se

em plágios de mim mesmo.


Velhas, essas ruas calçadas de negro,

nas noites claras de tantas cidades iguais,

onde  tantas vezes me procurei nos outros,

sempre tão esquecido de mim...

 

 

 

CopyrightHenriqueMendesJan/2008