12 de mai. de 2026

202 - O MEU POEMA

 







Este é o meu poema.

Encontrei-o num virar de esquina, 

num repente de um momento qualquer, 

inesperado.


A mim, o poema encontrou-me desprevenido, 

de guardas baixas, atravessando 

um instante vago e sem expectativas,

caminhando naquela tarde de tantos outros

para chegar a já nem sei onde.


E todo aquele espaço 

que havia na praça mortiça

à frente dos meus passos, 

pendurou-se nos meus olhos,

ganhou outra cor e todo um brilho feito

de significados que até aí permaneciam ocultos,

e o poema dominou-me com a mão firme

com que se domam sonhos fortes.


Cantou a minha força,

enalteceu desenganos,

apurou o que sobrou de mim.

E foi pouco, sendo muito.

E valeu a pena



19 de mar. de 2026

201 - SOBRE A CAMA

 


Abri alguma porta, na memória antiga,

para um quarto escuro, remoto, perdido,

do qual tudo o que sobrou foi essa imagem

de intimidade duradoura.

Da penumbra até à luz, vinha o braço.

Sobre a roupa desarrumada,

por um momento mínimo eternizando-se,

a mão oferecia a palma à luz coada e brilhava

num grito mudo de pele quente,

um arrepio forte de ventre ao rubro.

Tudo o mais se esvaía em sombras

diante do espasmo impossível desses dedos,

abertos e curvados como garras,

que lhe acrescentavam relevos à palma.

Em linhas fundas,

onde misteriosos destinos tinham gravado

incontornáveis exigências de intensos amores,

havia-se inscrito aos poucos

a história dum percurso que terminava ali,

naquele momento esculpido em luz,

onde, mais alto que qualquer voz,

o silêncio envolvendo os gestos

falava do indizível em segredo,

e de doçura nos leves cuidados

com que um lenço garrido

emprestava cores de outras paragens

a uma lâmpada fria e indiferente...