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22 de abr. de 2022

191 - A FACE DAS PALAVRAS

 





Dei às palavras face,

e logo lágrimas a sulcaram

como gotas de água escorrendo

rumo a destinos imponderáveis 

de vidraça exposta ao tempo.

 

Mas dei-lhes também o riso largo

das alegrias genuínas, em todos os detalhes

com que nasceram das minhas escolhas.

Entreguei-me a elas e dei-lhes o mundo,

dei-lhes amigos e histórias próprias,

fantasias e picos de sonhos ímpares.

 

Também juntos,

mergulhámos em abismos profanos

perdidos nos ecos de tempestades

quase insuspeitadas.

 

Caminhámos juntos por toda uma vida,

somando momentos, escrevendo momentos e

registando, como se pudéssemos guardá-lo,

o teor efémero e único dos instantes.

Mas aos poucos chegou a temida hora

de deixá-las entregues a si mesmas, para que

contem as histórias que são só minhas, não nossas.

 

E nesta despedida, nesta separação de rumos,

há já a saudade antecipada dos caminhos

que juntos fizemos. Do rio correndo,

incessante e prenhe da imensidão

onde tudo se deleitava.

 

Que agora cresçam, livres, se pudermos.

E que agora eu nasça, solto, se souber como.

 


2 de jun. de 2021

185 - ADEUS À VELHA ESTRADA




 Às vezes é preciso fugir da velha estrada,

numa ânsia de nós mesmos,

e procurar na calma fresca da tranquilidade

os frutos doces das explicações

tornadas desnecessárias.


É preciso tornar novamente possíveis

todas as palavras, sem medos ou peias, e

sem a preocupação antecipada pelo correto.


É preciso sentir que é nosso

esse caminho, a ser feito de escolhas por fazer.


É preciso fugir a esse comportamento esperado,

desejado, desejável, previsível, instalado,

que nos rotula e identifica, que

manieta entre limites e

nos impede de criar.


Às vezes é preciso ficarmos sós, sem ecos,

desfrutando do que somos já.

E talvez com isso nos percamos,

e deixemos de lado partes importantes de nós

que também nos são preciosas

e que gostaríamos de manter presentes

no nosso caminho.

Mas não, nunca chegamos a ser

o que não podemos ser verdadeiramente.


E isso, às vezes,

dói demais.



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184 - NO ÚLTIMO MOMENTO DAS ONDAS




No último momento das ondas

há uma voz baixinha,

um pouco arquejante pelos cansaços

do mar em vastidões,

que subitamente se escuta

como se se libertasse numa única palavra

lançada à praia, que se solta

e existe solta apenas até

que o leve chiado da espuma na areia

a disfarce e dissipe.


Às vezes nem se entende,

em outras não há quem a escute, mas

a palavra é “saudade”, e quando chega a ser

já sobreviveu a ondas e tempestades,

a ventos, correntes e contratempos.


Soa em momentos frágeis e únicos,

apenas uns instantes logo disfarçados de outros,

roucamente, quase um acaso feliz, e traz

um quase nada da força que as ondas têm.


Mas a vida é assim, um ir e voltar

de ondas em circunstâncias de acaso,

com as quais nem sempre é possível

marcar encontros para ouvir-lhes a voz.


Sabemos que é assim, mas também

que na praia sempre haverá alguém,

com vento nos cabelos

e olhos estreitados ao horizonte,

lendo um mar que não é seu,

e que nem seria mar se o fosse,

e que é salgado por conter lágrimas

mas que também é doce, por ser fortuito...



29 de mar. de 2021

183 - BARRO MOLE

 




 

Deixei-me encurralar nessa vontade antiga.

 

E enquanto o Tempo passava,

tão alheio a mim e a tudo,

e a vida ia esculpindo

toda uma miríade de instantes

em seus lentos vagares  

de perdulário artífice,

havia um rio novo que nascia

feito de momentos fluidos,

borbulhante e curioso,

já a lançar-se pelo mundo

num alastrar de formas e ideias,

contornando obstáculos

e abrindo nas paisagens

caminhos que nada podia suster.

 

E nesses caminhos,

mais do que nascer a minha história,

fui nascendo eu.


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18 de abr. de 2020

181- O GAIVOTA



Orange Generation' | GMB AKASH



Na praceta aqui por detrás de casa, há uma loja de chinês. É uma daquelas lojas que tem de tudo um pouco, de um tamanho já razoavelmente grande, e que está aberta desde as nove da manhã até às nove da noite todos os dias do ano.
Há uns anos atrás, apareceu-nos o dono, que já conhecíamos, com o cabelo pintado de cor de laranja. Quase não fala português, mas foi capaz de entender quando a minha mulher, ainda embasbacada da surpresa, resolveu elogiar: “-Muito bonito!”. Acenou vagamente com a cabeça, mas não disse nada. Esse foi o momento de ele ficar admirado. E da minha mulher ganhar um fã.
Daí em diante, passou a cumprimentar-nos com um gritinho estridente, sempre que nos vê na rua. Parecia um grito de gaivota, e demorámos algum tempo a perceber que a gaivota era ele, com olhos muito abertos, sorriso contente e cabelo cor de laranja. Um personagem e tanto. Claro que o batizámos imediatamente, e daí em diante ficou sendo o “Gaivota Maluca”.
Mas o tempo passou, o cabelo do rapaz foi escurecendo, mantiveram-se o sorriso e a gentileza para connosco, e resolvemos aligeirar o nome para “Gaivota”. Apenas.
Da janela da cozinha, vemos uma das entradas da loja do Gaivota. E a toda a hora o Gaivota entra e sai, guiando um pequeno furgão, sempre atarefadíssimo, trabalhando, trabalhando. Num pequeno pátio ali do lado, brincam os seus filhos, que entram e saem da loja junto com os clientes que são muitos.
Na praceta, de manhã, antes da loja abrir, sempre há gente esperando. Uns dentro dos carros, outros simplesmente em pé, conversando ou não. Da loja dos Correios, depois de receberem as suas pensões, chegam muitos idosos. A loja do Gaivota, mais que um comércio é já um ponto de encontro. Uma instituição, diria eu.
Nesta hora de vírus chineses, receei que as pessoas destratassem o Gaivota, mas não parece ser o caso. Não me parece que o vejam como diferente, ou que façam qualquer associação aos vírus ou que, mesmo remotamente, o culpabilizem seja pelo que for. O tempo o dirá, mas creio que no imprevisível inconsciente coletivo, o Gaivota faz parte do nosso rebanho. Tem os nossos medos, tem filhos como nós, também paga impostos, trabalha como um condenado, e é tão vítima como todos os outros desta época de quarentenas e de limitações. Parece-me inocente quem tem uma loja cheia de mercadoria que não pode vender por ser obrigado a mantê-la fechada. Tal como o me parecem inocentes todos aqueles a quem está sendo impossível ganhar o seu pão com o seu trabalho.
E, assim parecendo, perco-me em reflexões a esse respeito. Nessa história toda, da disputa crónica pelo poderio, pelo armamento, nessa tentativa eterna, diária, de impor ideologias mais do que fracassadas, condenadas e condenáveis, não me parece que haja inimigos nos outros povos. Não me parece que haja problemas de raça, de crença, de vontades. Claramente parece haver problemas sérios, sim, mas nos governos que deixaram de nos representar, para se representarem a si mesmos. Governos que não hesitam em nos usar como massa de manobra, carne para canhão se lhes aprouver a guerra. Que se defendem a eles mesmos e que se eternizam, que nos esmagam as vontades e as esperanças, que não nos consultam mais.  Que nos enredam em leis que já deixamos de entender, para protegerem corruptos, corruptores, servos de ideais escusos e com carteiras bem recheadas.
Veremos o que os novos tempos nos trazem. Se retomaremos a normalidade, ou se vão tentar ensinar-nos a odiar o Gaivota.  Veremos se lá, noutro lado qualquer, tentarão  ensinar a odiar gente comum, como nós, seja por termos cabelo cor de laranja, por sermos de outra raça, termos outras crenças, sermos bonitos, feios, ou assim-assim...


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19 de dez. de 2019

178 - DETALHES









Aprendi nos detalhes dos amanheceres.
Procurei entender os ecos do mundo,
nas tardes dos dias, e nas noites.
Quis aprender a canção alegre
das plantas na chuva, quando as folhas
ressoavam murmúrios graves
na antecipação de mais nuvens,
e depois quando choravam de alegria,
lágrimas infinitamente puras
pingando em efémeras poças espelhadas.

Fiz ecos de silêncios ricos de nada,
em que sobravam vozes dissonantes,
passos invisíveis, motores ao longe,
risadas de multidões solitárias, em bares,
e pequenas histórias brevemente contadas
pelo pó dos caminhos
que brisas ligeiras pulverizavam
por sobre os momentos.

Armei-me de tudo isso caminhei,
vaguei pelas planícies longas das palavras,
inebriado pelos álcoois subtis que o espírito
derramava na minha vida e no meu fado
como bênçãos maravilhosas.
Segui olhando em redor, voluptuosamente,
feliz e firme, atento ao mundo e aos outros,
engajado, partilhando, sendo tantos.

E aos poucos descobri olhares de inquietude.
Vozes que não tinham voz, prisioneiras,
retidas ainda num outro tempo vago
de que não sabiam falar.

Aprofundei-me nos pequenos nadas
de histórias ainda por nascer,
e aos poucos foram-me chegando dores e mágoas,
tristezas de passarinhos ímpares
em prisões terríveis de gaiolas abertas,
sagas de vestidos de baile e borboletas
adejando em valsas solitárias
que ninguém entendia.

Soube de poesias ímpares
escritas por músicos que não tocavam,
num flagelo de ressentimentos e
de oportunidades perdidas.
Conheci caminhos abertos esforçadamente
que, depois, ninguém seguiu.

Dei-me a mais conversas. Ensinei caminhos
feitos de palavras que abriam caminhos
que levavam a mais palavras,
tantas vezes partilhando a magia
do que não sabia saber.

Escutei os pontos de vista vagos
da mosquinha alienígena viciada
no isolamento dos cantos das paredes,
até que ganharam corpo e foram voz
e se ergueram em pensamentos belos
sobrevoando a mediocridade de tantos.

Mostrei oportunidades e desfiz-me em sonhos
fortuitos, que não pretendia sonhar,
enquanto lentamente me esquecia de mim,
do que me era vital e compunha.

Criei dramas e personagens, amei com eles,
fiz-lhes as viagens e sofri-lhes as desilusões,
morri mil vezes, perdido nos seus enredos únicos
de filhos promissores.

Depois esgotei-me,
incapaz de manter o esforço de criação,
a duplicidade de vidas intensas,
e precisei parar.

Lentamente, retempero-me
em montanhas vagas e fontes de fantasia,
em hesitações de poeta outra vez novato
que se descobriu subitamente cansado.
Fatigado demais para usar outras
que não a sua própria voz,
ou seguir outros caminhos
que não os seus.


copyrightHenriqueMendes2020                                              

27 de out. de 2017

154 - A VARANDA DE VIDRO




Os passarinhos costumavam entrar  na varanda para comer, e apanhavam minhocas nos vasos e migalhas no chão enquanto saltitavam alegremente dum lado para o outro, felizes e contentes. 

A varanda rodeava toda a casa e, vendo como os passarinhos gostavam de brincar por ali, os donos da casa colocaram dois bebedouros para eles. Foi um sucesso, e em pouco tempo o lugar ficou famoso. Vinham passarinhos de longe, brincando uns com os outros, para comer e beber. 

Eram de todas as espécies e de todas as cores, e coloriam o mundo enquanto batiam as asinhas e tomavam uns banhos agitadíssimos que espirravam a água longe.

Mas sempre que alguém se aproximava e entrava na varanda, os passarinhos fugiam com medo, sem perceber que ninguém pretendia  fazer-lhes mal.  Tristes com isso, os donos da casa resolveram fechar  com vidro as enormes varandas, deixando lá dentro os passarinhos.

Primeiro, foi um desespero. Os passarinhos não sabiam o que fazer, e voavam contra o vidro.  Muitos batiam com força e morriam. Muitos morreram.  Depois, aos poucos, alguns se habituaram a viver naquele espaço fechado por paredes que não se viam. E os filhotes que eclodiram dos seus ovinhos, já cresceram conhecendo os limites invisíveis daquele luigar perfeito que eram as varandas. 

Havia muitas espécies de plantas, tinham água e comida, e não havia predadores. Mesmo os gatos da casa ficavam sempre do lado de fora, escondidos entre as plantas que cresciam encostadas à parede invisível.

Claro que os passarinhos de dentro olhavam com muita curiosidade os outros  que vinham pousar nos galhos dos arbustos do jardim, e acabavam chilreando uns para os outros em irmandades de passarinho. 

Também aos poucos se habituaram a conviver assim divididos, sem que nenhuns deles entendesse muito bem o que era aquela enorme vidraça que era algo assim como uma parede que não se via, e que os separava quando tentavam estar juntos. Apenas isso. 

Assim mesmo, todas as manhãs, naquela hora em que os passarinhos decidem que o dia deve começar,  havia dois que sempre se buscavam e ficavam, um de cada lado no seu galho, piando, amigos de longa data.

Um deles era gordinho, com penas luzidias e lustrosas. Vivia dentro de uma casinha que alguém tinha escavado num pedaço de tronco de uma árvore velha, e que agora ficava num dos cantos da varanda. 

O outro, do lado de fora, era mais magro mas muito mais forte, mais agitado, nervoso, sempre com as penas mais rebeldes eriçadas pelo vento. Vivia de olho nos insectos que passavam ao seu alcance, preocupado com comida, e aproveitava as gotas que pingavam da torneira do jardim para poder beber, disputando o lugar com os outros passarinhos ao redor da poça que se formava no chão. E claro que não entendia as queixas do seu amigo que vivia dentro da varanda.

-Tu tens tudo! - dizia-lhe - Não entendo o teu piar triste. Nunca precisas dormir na chuva, nem ficar preocupado com os gatos que nos querem comer. Não sabes o que é passar fome nem sede, e tens um ninho bem protegido. Queixas-te de quê, afinal ?

-Ah! - suspirava o passarinho de dentro - Eu queria poder voar mais longe, para onde eu quisesse. Brincar no meio das flores e apanhar insectos saborosos. Aqui, não posso. Conheço poucos cantos...

-Mas eu já te vi cantar, quando estás alegre! - argumentou o passarinho de fora.

-Sim! E também sei um canto  para quando estou triste. E outro para quando tenho medo do gato que fica só me rondando, tentando entrar.

-E só sabes esses ? Não sabes o canto de andar perdido ? Nem o canto de chamar os amigos, quando se encontra comida ? Nem o canto para acasalar ?

-Esse de acasalar, eu conheço. Conheço mais ou menos. Somos poucos, não é ? Então as femeas daqui atendem ao meu chamado mesmo que eu cante muito mal. Precisam de mim, e acabam por conformar-se...

-Hummm... Acho que entendo!- piou o passarinho do lado de fora- Mas tens tantas coisas boas, que eu queria ter... 

-Mas a minha vida é desinteressante. Ninguém me dá valor, basta estar aqui. Não vivo melhor se caçar insectos. Nem de um belo canto nupcial eu preciso, já viste ? Basta comer os grãos que nos dão e estar aqui, enfeitando o mundo à força...

-É por isso que te calas, quando os teus donos se aproximam? 

-Claro ! É a minha vingança de passarinho! Apenas me dão o necessário para eu estar aqui. Não me deixam ser livre, nem fazer tudo o que eu poderia fazer. Obrigam-me a ser menos do que eu sou, mas ninguém consegue obrigar-me a colaborar, e é por isso que a vida aqui é tão triste. Quando eles chegam perto, todos nós, passarinhos, nos calamos em protesto!

-Mas olha que a vida aqui fora é terrível. Perigosa e muito injusta. Os mais fortes é que se safam. Os mais fortes comem os mais fracos.Pensa nos gaviões! Quantos de nós já eles mataram com aquelas garras poderosas ? Nunca nos matam a todos para que nos possamos reproduzir, e eles sempre tenham quem caçar e quem comer...

-E achas que aqui dentro é melhor? A nós roubaram-nos tudo. Agora já somos apenas o que sobrou de nós.  Dantes, alegravamos o mundo, agora enfeitamos o espaço de alguém. 

-Isso é verdade! - concedeu o que estava no exterior.

-Já nem seríamos capazes de viver aí fora, junto com vocês, nem fugir dos gaviões ou esconder nossos ovos das cobras que atacam os ninhos. Esquecemos os nossos cantos... E não temos fôlego para voar longas distâncias, nem para brincar no meio das flores do campo nas manhãs de primavera. Até na morte somos diferentes...

-Na morte ? Não entendo. Morte é morte...

-Sim, mas vocês morrem sendo comida para alguém. Nós morremos e somos deitados no lixo, não servimos para nada. Somos um colorido que desapareceu da varanda, não mais.

Sempre era esta a conversa dos dois amigos. E assim foi naquele dia, até que as núvens se juntaram prometendo uma tempestade muito forte, e o passarinho de fora teve de voar procurando abrigo. Depois veio a noite, e o vento do temporal, e um galho foi lançado pela  ventania quebrando os grandes vidros da varanda em mil pedacinhos.

No dia seguinte, o passarinho de fora aproximou-se novamente. Vinha com medo de não encontrar mais o seu amigo. Com toda a certeza ele teria aproveitado e fugido, mesmo sabendo que ia ter de voltar ou morrer.

Mas não. Lá no fundo, dentro da varanda, os seus amigos continuavam pousados nos pequenos poleiros de sempre. Mas estavam de costas viradas para a rua, e desse dia em diante, nunca mais cantaram.

Quem me contou esta história, acrescentou um pouco mais. Disse-me que assim são também os homens.  Alguns, vivem num mundo tão controlado pelos governos, quem já nem entendem mais o mundo, nem seriam capazes de viver noutros lugares. Acabam perdendo a vontade de serem o melhor que poderiam ser - o melhor de si mesmos.  

Apenas não cantam, nos desfiles e paradas organizadas para mostrar que existem, felizes e gordinhos.


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30 de set. de 2017

153 - REGRESSANDO SEMPRE







Às vezes perco-me de mim 
e espalho-me por aí, nos acasos 
de uma deriva sem rotas. 
Aporto onde a mente me leva,
numa embriaguês de instantes,
apenas durante o tempo que ela precisa 
para perder-se de si
e derivar também, como eu,
como se nos fundíssemos
e diluíssemos numa vaga maré
de algum oceano desconhecido, 
banhando outras costas,
muito além do previsível e do necessário 
- lá, onde não chegam as grandes questões
sem a menor importância.
Perambulamos nesse nada, difusos,
até que algo nos chame de volta
e nos traga até à consciência,
unos de novo.
Depois perdemo-nos como um só
nos detalhes do que a vida traz, 
e súbitamente encontro-me comigo
num momento especial
nascido duma cronologia de instantes
mínimos que se somaram até
se concretizarem no meu espanto.

E tudo isso forma uma história,
uma narrativa independente 
daquilo que o destino, afinal, é:
-o eterno espanto 
de um  regresso a nós.

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29 de jul. de 2017

149 - INDIFERENTE



Talvez um dia
eu me ausente de mim
e deixe que se apague
essa chama que hoje
me corre nas veias
como força vital.

Continuarei sendo eu,
apenas mais distraído
enquanto passo
rumo a algum mistério
do momento que for.

Talvez achem por bem
reservar-me o carinho
devido aos desconhecidos,
que percorrem o mundo
em passos só seus.

Se assim for, espero 
que partilhem meu mantra
tendo na voz o encantamento
das subidas que antecipam
os mirantes.

Se não acharem,
peço para mim aquela indulgência
grata aos que não querem incomodar,
e que me deixem seguir tranquilo
com o vento do instante.

E se não acharem nada,
não será grave.
Talvez nunca me tenham visto.
Ou talvez não estivessem presentes
para me verem, quando passei.


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23 de jul. de 2017

148 - NO ALTO DA MONTANHA DO ADEUS




No alto da montanha do adeus
há um grito rasgado e dolorido
feito do que não se escuta.
E um silêncio que se agiganta e
deixa por dizer o já sabido,
onde o desnecessário esmaga
os instantes do instante,
e o dilui no tempo.

Há uma espécie de noite
que invade  e amordaça
a claridade final dos destinos
que se cumpriram até ao cume.
E os cheiros?  Bem, os cheiros
evocam os caminhos percorridos
que, ali, chegaram ao fim.


No alto da montanha do adeus,
os gestos são estranhos,
um pouco reticentes  e inúteis,
como desculpas sobejamente
conhecidas.


Instala-se um silêncio
com poucos murmúrios, no vento:
-memórias que ainda tentam
uma vez mais repetir-se,
borbulhando lentamente e sem fé,
enquanto se vão fundindo
no caldeirão fuliginoso do tempo
rumo a um passado concluso.


No alto da montanha do adeus
fica o pico ermo e agreste,
inacessível,
onde cabe apenas um só.                                                


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