2 de abr. de 2014

96 - MONÓLOGO DO CANTINHO








Eiii
Bem sei…
Mas… Vem cá…
Deixa tudo o resto pra lá…
( Escuta esse som baixinho, de horas passando!
Devia ter um violão doce, acompanhando…)
Se fosse constante, o soar, e eu Poeta a falar,
diria que era a Vida a declamar.
Ou, quem sabe,  rindo-se, na sua voz…
Como todas essas horas  que já riram de nós
e,  aos poucos, se escoaram,
e, aos poucos,  nos levaram,
( - Que rápido, não foi ?
  - Um ápice, não foi ? )
enquanto se iam, assim, fugindo,
e as seguíamos, loucos, rindo,
sem ver que nesse ir
ia muito mais que o nosso rir…
- ia aquela parte especial e única de nós,
que é capaz de, indo, nos deixar sós…


Jan/14

23 de mar. de 2014

95 - AQUELES QUE EU CANTO








A todos, aqueles que nos regozijamos com o Dia da Poesia, já passado:
-Parabéns !

Que nosso canto se erga sempre, e por límpidas causas !
Criámos, ao longo do tempo, algo a que pretenciosamente chamamos civilização. Dito assim, parece até coisa fácil, e sabemos que não foi. Demorou. Teve altos e baixos e, como sempre acontece, prevaleceu a visão dos mais fortes. Não necessáriamente dos melhores, ou dos mais justos, mas a dos que triunfaram.

Por isso, aquilo que a História nos conta, é quase sempre a história dos que ganharam voz. Raramente a dos silenciados, mesmo que sobreviventes. Na cultura, não poderia ser diferente.

Nesta data,  e pela primeira vez, faço como se fosse uma licenciosidade poética associada à data, uma sentida homenagem  a todos aqueles cujo  valor inestimável se perdeu na voragem das conquistas que o ser humano, com a justificativa de re-escrever permanentemente sua própria História, tem vindo arbitráriamente a impor ao seu semelhante.

Celebro, assim, não apenas a Poesia e os Poetas mas, acima de tudo, celebro o Espírito Poético que nos iguala e irmana na busca pelo belo, dando origem a todas as artes, não importando como se manifestem ou ganhem expressão e influência na vida de todos nós.

E cabe nesta exaltação  dos valores reais, não apenas mediáticos, uma palavra de ponderação sobre o triunfo de alguns,  tornados em quase-deuses  e investidos de poder pelas massas anónimas, sensíveis desde sempre a rótulos e a historinhas de encantar: 

- A maior conquista da Humanidade,  como um todo,  não é a sua cultura, mas a capacidade de perpetuar o conhecimento adquirido, e de preservá-lo,  bem como à sua capacidade de pensar. A isso, uma vez feito, chama-se memória de um povo.

Nesta época conturbada, usando a memória e os fácilmente comprováveis recursos da História, recordemos:  Todos os grandes regimes, mesmo as ditaduras, ou principalmente elas, não nasceram de um passe de mágica, mas sim com um forte apoio popular. Nasceram de gente falando bonito, e sempre em nome de um povo que se encantou. E que, encantado, ergueu seus braços e suas vozes aos milhões, em conjunto, dando o seu aval e tornando legítimas algumas passagens da História.  E algumas dessas passagens protagonizaram  horrores que, até hoje, há quem batalhe por desmentir.  A algumas  dessas passagens da História, só lhes faltou quem protagonizasse esses horrores às claras, assumidamente.

Em nome dos valores mais diversos, como honra, dinheiro, poder, pátria, política, justiça, e até de Deus, já matámos e já morremos aos milhões. Já  condenámos outros tantos ao sofrimento torpe e indigno da fome, da sede e da ignorância. Já esgotámos  o planeta ! E sempre encontrámos nos outros as desculpas e as justificativas para tudo isso.


Eu celebro aqueles de entre esses, que foram os conquistados. Alguns que não chegaram a ser, e de quem não se fala. E, neste Dia da Poesia, pergunto-me como seriam os seus versos. Se teriam a ligeireza dos nossos, e a efemeridade do que se lê por aí…



Foto: Mural Palacio Nabucodonosor/British Museum/London 2012/ Henrique Mendes

3 de fev. de 2014

94 - FINAL DE VERANO ( en español )



Hay un final de verano, en las olas de mi mar.
Un calor que es mío y diferente.
Que he extraído y sintetizado, como si savia fuera,
de los abismos  formidables de los momentos.
De las andanzas por lugares solo míos
que recorrí de manos dadas con un fado
mucho más grande que mi destino.
De andanzas que ahora son ya caminos.
Hay, sí, un final de verano, en las olas de mi mar.
Pero ya soy Otoño.
Caliente, todavía, y cargado
con todos colores de Verano.
Sin hojas sueltas corriendo por el suelo, marchitas,
arrastrándose sobre las piedras lisas
con el sonido grave del  fuego crepitando en las hogueras.
Porque mis hojas, son sueños que el viento lleva y,
a cada una, mi pasión desmesurada:
- mi grito de amor que nada, nunca, igualará.
Por eso, mis hojas irán teniendo de mí más que yo mismo.
Me llevarán en todos los poemas que yo alcanzar a ser,
y tal vez por mí enciendan estrellas, raras,
sembradas únicas como diamantes,
que darán voces a madrugadas y silencios.
Encenderán lunas y sombras cómplices.
Eternizarán brillos de vela, en lindos ojos,
y serán como raíces de memorias en flor
flanqueando veredas de tiempo.
Arenas calientes en  ensenadas de plata incontrastada.
Bosques de gestos frondosos, rigiendo un enorme concierto
de miles de ternuras sutiles, sincronizadas
por las partituras volátiles de los momentos…
Tal vez  por eso,  aquel tronco desnudo allá adelante,
como un maestro, pararrayos de la extrañeza,
yergua sus brazos, rigiendo bajo la luna  plateada
el coro siempre algo profano
de las descubiertas ya hechas.

(imperceptibles  en la noche del desierto, propagándose,
dunas y velos  diáfanos, toques de sedas y terciopelos,
respiraciones pesadas, narinas de camellos
caminando silenciosamente… )

Y por eso,
quien sabe se solamente por eso,
jamás  seré  Invierno…



2 de fev. de 2014

93 - DEGRAUS NAS MANHÃS




Eu encontro-te nos degraus das manhãs.
Escalo-te  pelos relevos mínimos  que descubro diariamente,
meio adivinhados, meio tateados  em caricias leves…
-Ensaios. Pontas de dedos, sondando etéreamente.

Sei-te nas coisas em que nunca te saberás, pequenas, ínfimas,
e  que um dia não lembrarei  mais,
de tão perdido de mim nesse olhar com que me olhas,
 e onde um dia navegarei  oceanos de coisas
que também não precisarão serem ditas.

Eu murmuro-te  no vento,  e  persigo-te  nas estrelas
do que poderiam ser madrugadas,
se  em dias alvorecessem.
Mas também te  escolho  noite…
E não te encontro mais,
apenas porque já te sou,  como ainda te és.
Não teu, mas tú.  E sendo-te , sou.

Sou, de ti, a parte mais inalienável, refeita,
e também a mais prescindível.
Aquela que podes sempre  adormecer  e  recalcar,
remeter ao eco das memórias por viver,
e ser como fomos sempre:  Nossos. Nossos!
Percorrendo os  degraus das manhãs…
Dias, mundos, e promessas de madrugada…

Portanto,
caminharemos indivisos na obscuridade
na risada cúmplice do descomprometimento das causas.
Não sabemos mais,  nenhum de nós, 
rabiscar na névoa dos dias
uma assinatura que nos seja plausível sem sofrimento.
Misturemos letras, assinemos juntos.
Sejamos um, ao menos, por excepção do outro.
Um, Poeta, esperando a vez de ser gente.
Ou o outro, que lá vai sendo gente,
mas que nem sempre dá conta de ser Poeta…



1 de fev. de 2014

93 - FIM DE VERÃO





Há um fim de verão, nas ondas do meu mar...

Um calor que é meu, e diferente.
Que extraí  e sintetizei, como seiva fosse,
das profundezas formidáveis dos momentos.
E das andanças por lugares só meus,
que percorri de mãos dadas com um fado
muito maior que o meu destino.

De andanças  que agora são já caminhos.

Há , sim, um fim de Verão, nas ondas do meu mar.
Mas sou já Outono.
Quente, ainda, e carregado
com todas as cores do Verão.
Sem folhas  soltas correndo pelo chão, fenecidas,
arrastando-se sobre as pedras lisas
com o som grave do fogo crepitando nas fogueiras.
Porque minhas folhas , são sonhos que o vento leva e,
e em cada uma delas, a minha paixão desmesurada:
- meu grito de amor que nada, nunca, igualará.

Por isso, minhas folhas irão tendo de mim mais do que eu.
Levar-me-ão em todos os poemas que eu for sendo,
e talvez por mim acendam estrelas, raras,
semeadas únicas como diamantes,
dando vozes a silêncios e madrugadas.
Acenderão luas e sombras cúmplices.
Eternizarão brilhos de vela em olhos lindos,
raízes de memórias em flor ladeando trilhas de tempo.
Areias quentes  em  enseadas de prata incontrastada.
Bosques de gestos frondosos, regendo um enorme concerto
de milhares de ternuras subtis,  sincronizadas
nas  partituras voláteis dos momentos …

Talvez por isso, aquele tronco desnudo lá na frente,
qual maestro pára-raios da estranheza,
ergue os braços regendo, sob um luar de prata,
o coro sempre algo profano das descobertas.

( Imperceptíveis  na noite do deserto, alastrando-se,
dunas e véus diáfanos, toques de veludo,
respirações pesadas, narinas de camelos… )


E por isso, só por isso,  jamais serei  Inverno.



92 - ACUARELA ( versão em espanhol de aguarela, nº 79 deste blog )




Si tuviera que pintar en colores
esta vida de la que no hablamos nunca,
escogería un tono muy oscuro
para las peleas y frustraciones.

Y habría tal vez otro,
cargado de esperanza, necesitado,
un verde bosque, abriéndose
a flores de otros colores.
Y los amarillos y naranjas del sol,
espaciados en acasos,
con azules  puros como el cielo
entre nubes intermitentes
y caprichosas.

Y un blanco
espino como el alma,
donde el destino escribiese
por la mano de alguien,
un desparramo de cariño
y palabras únicas
- Por toda la eternidad

de los momentos...



30 de dez. de 2013

91-esp- CUENTO NAVIDEÑO - MUÑECO DE LATA



CUENTO DE NAVIDAD 2013

Yo vi cuando, antes de salir, él se quedó mirando aquella reproducción de una vieja foto en que yo, cliente usual, no había prestado nunca atención. Era una ampliación enorme, que fuera transformada en el logotipo de la casa. Y él era un hombre negro muy bien vestido, pero con simplicidad.

Ya lo había visto a la entrada, cuando fuera directamente para el mostrador  y se quedara platicando simpáticamente con el empleado del pequeño bar donde estaba yo. Poco después se había puesto un delantal muy blanco y empezó a lavar unas copas mientras apuntaba para el comedor haciendo gestos al empleado para que recogiese toda la vajilla que estaba en las mesas y ya no era necesaria.

Acabé pidiendo más café cuando él se acercó a mí, preguntando si podía tomar la copa vacía. Me di cuenta de que él estaba un poco nervioso.

- ¿Es el patrón? – pregunté
- Sí, señor – y regresó al mostrador, atareado.
Un poquito después de haber salido el patrón, se aproximó sonriente, y lo sentí preparado para hablar un poquito más.
- ¿Y él queda así, lavando vajillas? - me sorprendí
- ¡Sí, le gusta! – me contestó desconcertado. – Siempre hace eso cuando viene aquí. Mira las cuentas, mira si alguna cosa es necesaria, y pasado un poquito se va. Pero siempre atiende a algún cliente, o lava él mismo alguna vajilla, o algo así. Y mire que no es por necesidad. Hoy, él y su hermana son dueños de una red enorme de pequeños comedores como este, siempre muy próximos a terminales de autobuses o estaciones de trenes.
-Ah sí? – añadí, sólo más para dar más seguimiento a la conversación
-Sí, señor. Nada muy lujoso, como puede usted ver. Apenas pequeños lugares agradables donde se puede descansar un poco, o marcar un encuentro con alguien , o simplemente comer una comida sencilla y barata  pero muy limpia!
- Parecen gente muy buena, ¿verdad?
- Sí señor, muy buena. Algunos dicen que han pasado por dificultades cuando eran niños.  Que trabajaron mucho para conseguir tener alguna cosa propia. Son muy humanos, sí.

Entonces, otros clientes llamaron la atención del mesero, que fue a atenderlos. Mi atención recayó sobre la foto del logotipo, en la entrada. Había en ella alguna cosa vagamente familiar. Un poco más tarde, el hombre regresó  para mostrarme una foto de dimensiones normales.

-Esta es la misma foto sin ser ampliada! – dijo – Los dueños insisten en que la exhibamos a todas las personas que se muestren interesadas en la foto del logotipo. Ellos dicen que un día alguien va a ver esa foto y se acordará de ellos .

Tomé la foto de sus manos y la observé con cuidado. Eran dos niños negros, muy sonrientes, uno a cada lado de un muñeco hecho con una lata de combustible muy oxidada. Sonreí yo también de sus expresiones de intensa felicidad.

El gorro del muñeco había sido hecho con un saco de cemento, el papel sucio con barro rojo, y no fue sencillo mantenerlo derecho para sacar la foto.

Los ojos habían sido improvisados con dos páginas de agenda recortadas en círculo, y dos  tapas negras de cajitas de película fotográfica. Su boca fue dibujada con carbón, abierta, en una inmensa risotada.

Después de haber hecho  agujeros con un clavo y colocado muchos pequeños pedacitos de cuerda deshilachada, con nudos en las puntas por dentro, para que se no saliera, y quedara una barba bastante razonable, un poco más cerrada de un lado que del otro, pero seguía siendo una barba…

Y con todo eso, o a pesar de todo, se convirtió en un muñeco que los niños habían adorado, a pesar de aquel aire de polvo sucio, del viento constante de la planicie y del hambre tan presente en aquel pueblito remoto de África, cerca de una estación de trenes incongruente, donde nadie llegaba o partía, y donde una mata rala crecía en el medio de los carriles…

“-¿Quién es ese ?” – habían preguntado los niños
“-¡Ese es Santa Claus!”- dijo Ramón, un amigo de lengua española
“-En mi tierra se llama Papá Noel…”, dijo mi colega brasileño
“-¡Bueno, para mí es Pai Natal!”, contesté, riéndome con ellos
“-Tiene tres nombres…”
“-Ih…tiene muchos, pero siempre es el mismo! Y siempre viene en este día a traer regalos para los niños.”

Los niños se quedaron desorientados. No sabían qué eran regalos…
“-¡Comida!” – expliqué prosaicamente. Y entonces ellos rieron mucho…

Fue así que dos amigos y yo acabamos dividiendo alguna comida con esos dos niños que insistían en ayudarnos, y terminamos haciendo una especie de cena con ellos. Era 24 de Diciembre, y la noche ayudaba a no ver, y a olvidar toda aquella miseria en el pueblo más allá del círculo de luz de la hoguera. La broma había surgido de Papá Noel, y se ganó después, para nosotros, el simbolismo de una cena.

 Uno de mis colegas, al saber que no tenían padres, les ofertó algún dinero. Les dije que era el suficiente para tomar el tren y ir a una ciudad grande, lejos de allí. Pero ellos reían tanto del muñeco barbudo, estaban tan felices  conversando en su idioma nativo que nos quedamos con la duda de que hubieran entendido.

Sacamos unas fotos, que más tarde hicimos llegar al jefe de la estación, para que las remitiera.

Ahora, allí en el bar, después de tantos años, el mesero contaba la historia de aquel patrón insólito, yo miraba la lluvia  en la calle, pensaba en aquellos niños de una víspera de Navidad tan lejos de mi vida de hoy, y me reconducía hacia recuerdos de una cena improvisada hecha cerca de una estación polvorienta y de un pueblo sin futuro.

El mesero seguía hablando, y yo quedé sabiendo cómo todos los años, en la víspera de Navidad, ellos abrían las puertas a todos los que querían comer. Y yo recordaba al hombre negro que había visto entrar y salir, que era el dueño de toda una red de pequeños comedores que ya existían en varios países, siempre cerca de las estaciones.

Identificaba en él a aquel niño de la foto, al lado de aquel muñeco de lata con barba de cuerda, riendo mucho con su hermana en un lugar polvoriento de África, casi sin esperanza,  en un día en que alguien les había dado razones para reír.

Miré una vez más el logotipo, pero con otros ojos. Decía:- Santa Claus - Café.

Estaba seguro que, en otros países donde existían los pequeños comedores, no serían en nada distintos de aquel. Apenas el nombre cambiaría un poco. De todas las formas también quedaría escrito cerca de la misma foto ampliada que ahora yo ya reconocía- de un muñeco de lata, con barba de cuerda, y unos ojitos negros, redonditos.