1 de jan. de 2017

135 - COMECEMOS DEVAGAR



Comecemos devagar.
Afinal, temos pela frente todo o tempo que houver.
Por isso que haja prazer nas nossas lentidões
-e um saborear do tempo em langores de infinito.
Que a chuva  seja mais que a bênção da água:
-uma nota perfeita, soando no telhado
que  nos abriga onde estivermos.

E que entendamos a paz das coisas,
num abrir de espírito a tudo o que nos cerca,
enquanto sentimos as plantas dançarem em verde
as alegrias da fertilidade profunda que lhes chega.

Ouçamos a risada livre dos córregos  felizes
a caminho de algum destino remoto,
tão fundamental que dele dependem rios e mares,
e mais tarde nuvens,  que choverão instantes.

Comecemos devagar,
como se fossemos escrever nelas tudo o que importa
sem  medo de que algum vento chegue
e lentamente espalhe por outro horizonte qualquer
o que para nós era tão precioso como pó de estrelas.

E que encontremos na luz coada do fim dos dias
o espaço sagrado que reservamos ao fundamental,
algo tão único, tão pessoal, e tão exclusivo
que nos rodeia como uma oração,
- um muro que deixa do lado de fora
do que escolhemos para nós
o oportunismo de alguns e tudo o que nos faz mal.

Comecemos devagar.
Aprendamos com o tempo.
Afinal, temos todo o que ainda houver!
E nele nos gastaremos, nas pequenas batalhas
cujos resultados vão escrevendo no mundo
aquela que é realmente a nossa história
- de que alguns falam como se fosse destino,
ou nela não houvesse anseios e suor.

Comecemos devagar…

(FOTO DE AUTORIA DESCONHECIDA.copyrightHenriqueMendes/2017)


25 de dez. de 2016

134 - SONETO DO VENTO (25.12.2016)




Se houver na vastidão desse horizonte sem abrigo
outros  caminhos  por onde  soem os meus passos
talvez não seja só a vida, que me leva  nos braços,
e me descubra também cumprindo um fado antigo.

Algo assim como se fosse um destino, só mais forte.
Voz  troante  de dentro, impossível de desobedecer,
indo além da razão, da ponderação, e até do querer
- sortilégio profundo forçando-me  a um outro norte.

E erra quem me escutar algum lamento ou queixa.
Não temo  ser um dos tantos que também  que sou,
nem fujo do destino que me leve para onde eu vou.

E se houver no vento alguma voz, ou alguma deixa,
que importa como se desenrola a peça, ou se acaba?
Se é destino, ou se é fado - ou mesmo se não é nada…


copyrightHenriqueMendes 2017

12 de out. de 2016

133 - DEVE HAVER UM NOME




Deve haver um nome para isso,
ou mesmo um sentido  mais profundo.

Talvez seja apenas o de uma vibração
que ocorre de todas as vezes que a sentimos,
como um fenómeno mais concreto e físico,
ou pode ser algo que  valha apenas pelo que vale,
e não seja mais que um espaço único, nosso,
entre as coisas obrigatórias espalhadas
pelo horizonte da nossa manhã.

Talvez seja um interstício óbvio entre todas as coisas.
Um reservado discreto, por trás de uma ténue cortina de tempo,
absolutamente privado e completamente ao nosso dispor,
escondido dos relógios e  das lógicas dos detalhes conversados,
das minúcias dos acordos e das convenções, e que está logo ali.

Ali, onde sempre espraiamos os olhos, sem pensar,
seja nos rostos dos outros ou naquela paisagem que já nem vemos. 
Ali, onde cada cor grita mais cores, todos os dias, sempre.

Deve haver um nome para isso, essa permanência de atenção,
essa disponibilidade para um foco de espírito
com que nos assinamos lendo o mundo em todos os momentos,
interpretando, e que nos faz presentes sendo parte, estando.

Deve haver um nome para isso, mesmo que na paisagem conhecida
as palavras não soem,  nem o vento lhes transporte jamais o som,
ou as nuvens lhes tracem jamais os risos brancos no azul imenso.

Deve haver, e difícil não será sabê-lo.

Difícil será admitir que existe.


( Poema e foto de Henrique Mendes )


18 de set. de 2016

132 - MEDO DO TEMPO






Por algum tempo tive medo do tempo.

Olhava tudo com aqueles olhos cansados que só tem
quem acha que sabe muito de si e das coisas.
Deambulei  de acordo com a vontade dos momentos.

Achei que, na curva  do rio, a água cantava contra as pedras,
enquanto se perseguia a si mesma para longe de mim,
canções de despedida que eu não voltaria a escutar.

Caminhei pela cidade acariciando-lhe aqueles  recantos
que a tornavam especial aos meus passos errantes,
abrigos de vento e chuva, cantos para repousar  tranquilo.

Lembro nas costas das mãos da temperatura das pedras
E sinto ainda na boca o sabor da água correndo incessante
em antigos chafarizes de bronze.

Olhei aquela rocha lá no alto, junto ao castelo, e despedi-me
da vista que de lá se tem, de barcos cruzando rio,
 numa luz que não é tão dourada em mais lado nenhum.

Pouco a pouco fui entendendo o que procurava entender.
Voltei a encantar-me com as mesmas pequenas coisas
que o tempo não me deixará repetir.


Haverá gentes fazendo coisas, cores colorindo instantes,
barcos navegando ondas ao fim de um qualquer magnífico por do sol,
que eu não voltarei a ver simplesmente  porque não estarei lá.

Pensei sobre tudo isto, em vagares inusitados. E medos também.

Depois , a lua apanhou-me descuidado.
Usou a pulsação das  ondas,  a efervescência da areia,
e os piados secretos das aves nocturnas , e empurrou-me
sem aviso para  memórias de outras noites  ventosas
na praia brilhante, quando quis estar só.

E eu sei como é essa areia gelada. Os jeans molhados nas pernas.
O crepitar efervescente quando as ondas se recolhem.
Um silêncio rico de som, onde os outros não estão.
Eu sei como é…

Então sobreveio uma vontade feita daquilo que não sei ainda.
Feita daquilo  que não aprendi em primeira mão.
Daquilo que não fiz.
E o tempo fica menor, se pensar em quanto é isso tudo.

Retomo devagar os meus passos.
Não repiso.
Observo, guardo.
Cuido.

Estou.

27 de jul. de 2016

131 - ECO NÃO DÁ, NÃO !




Meu amigo, meu irmão, olha como já se vê  que difícil que isto é.
Não dá para correr sem tocar  o chão, sem deixar as marcas do pé…
E não! O problema não  é tanto o detalhe, um retrato do momento.
O Deserto não é a História,  nem o que a vida traz  pela boca do vento.

(Né não…)

Nem nós buscamos protecção sob a asa de um coronel ou de partido,
com a gente não tem conchavo, não recebemos para elogiar bandido,
a nós não vale a pena nem tanto faz , só ri mesmo quem cai em graça,
os outros vão levando como conseguem, no sofrimento e na raça…
(Mas não é não!)

A vida já não é só opinião, coisa feita, posta no jeito pela imprensa
Não há um culpado só, o lamaçal se esparramou, O barro se adensa
É muito mais que branco ou preto, certo ou errado, bom ou ruim.
É tudo isso, e mais o que fazem na sombra enquanto dizemos que sim.

(Ou não é,  não ?)

Arrumaram desculpas, inventaram lados, raças,  times e campeões
dividiram pra reinar, e zás… dá-lhe, futebóis, carnavais, televisões,
acenaram com direitos vazios, fizeram carícias com línguas de pano
e valeu tudo. Até que o povo viu que estava devendo até ao tutano!

(Ou não foi, não ?)

E quando começou a acordar e se acendeu aquela luzinha de perigo
Logo  vieram mais jogos, heróis, e briguem bróderes! Meu amigo…
Caras lá de fora botaram às pressas dinheiro nos carnavais. Alegria!
Bundas rebolando, com o dinheiro que lhes roubaram no dia a dia…

(É a cuíca, meu irmão! Cuí pum pum, cuí pum pum … Né não ?)

Distraír, passar a mão na cabeça, botar discurso, tratar de ficar rico.
Um dia a casa vai caír, e a gente casca mas é  fora, aqui eu não fico.
Atrás ficam os que acreditaram. Sempre usados, sem casa, sem pão.
Massa de manobra, barracas de lona, exército sem futuro nem chão.

(Não está sendo, não ?)

Mas eu me perco, irmão. Lembro dos malditos que botaram pra fora,
num triunfo de heróis aflitos. Povo com caras pintadas, a quem agora
enfiaram pela goela abaixo, já redimido, quem estava excomungado.
E toma aí frevos e carnavais, trevos sem sinais... Eta povo animado!

(Não é, não ?)

E agora que você já julga que eu estou falando dos males do seu país,
Chora meu irmão, que a coisa vem de mais longe. Já é um mal de raíz.
E se acha que a questão é política e que afinal estou falando é dela
se desengana outra vez… Não! Eu falo de vergonha. Olha a Venezuela.

(Ou isso não pode, não?)

Acha que eu condeno regime, discuto processo, apoio alguma eleição ?
Eu falo de gente, não de time. E de trabalho, não de emprego e pistolão.
Eu falo do inegável, da vida ruim, das imagens da miséria que virou…
E tudo em nome de quê? De qual liberdade? O que foi que melhorou ?

(O bolso do chefão?)

O que eu vou vendo é esse policiamento disfarçado, e essa mentirada.
Essa divisão infeliz entre o mundo sobrante, e a esquerda autonomeada.
A verdade distorcida até ao esquecimento, e a versão que se ajeitou.
A comparação que já não nem se faz, a atenção que campanha desviou ?
(
Pão e circo, meu irmão! Cuíca aí…Cuí pum pum…Cuí cuí cuí…)

Mas nos olhos escuros  dos meninos, em favelas com o mesmo cheiro,
nas mesmas barrigas grandes, nas bolas feitas de trapo do mundo inteiro,
eu não vejo mais os restos do colono antigo, do trabalho escravo  e suor
eu vejo é o olhar vazio das vitimas de quem veio depois e ainda fez pior.

(Ou não teve tempo, não ?)

Não escuto canções de menestréis apoiando os discursos dos palanques,
Deixo os números falarem sozinhos, penso quantos índios havia dantes…
Agora que acabaram com eles, ferraram os coitados sem dó nem cerimônia
vão dizer o quê? Que foi o colonizador? E que tá comendo a Amazônia ?

(Mas não é não…)

Dantes havia bandido e mocinho, o xerife era do bem e a História era a das gentes,
Hoje fede,  irmão… vivemos num cercadinho cheio com as verdades convenientes
E quem devia denunciar o esquema, isso, trazer a lume, chamar de todos a atenção
Já ta queimado e sem crédito! E ou vendeu a alma, ou lhe arruinaram a reputação…

É por isso, meu irnão,
que eu não quero não.

Pra mim chega. Ganharam. Levem a taça, soltem foguetes. Falem de revolução.
Pra mim parece eco, se  repetindo. Vejo é a miséria se instalando.  Não dá, não…





15 de jun. de 2016

130 - ADEUS KATHLEEN LESSA




Os Poetas não cantam o que são. Nem são o que cantam. Por isso não partem nem ficam, apenas estão.

Rodeiam-nos por toda a parte. Estão em alguns tipos de sorriso efémero. No amanhecer de alguns dias, ou nas gotas de água sobre alguma pétala duma hipotética flor. Ou talvez na emoção que se ocultava nas neblinas de um momento vago. Eles são qualquer uma dessas coisas, ou outra, em todos os matizes que a vida tem.

Num repente se incendeiam e brilham intensamente, revelando-se, e levando longe a  beleza mágica do seu canto, como uma luz dourada que vai aos poucos  inundando os recantos ermos do que era apenas monotonia e silêncio. E depois remetem-se outra vez à paz da sua quietude.

Então a escuridão parece agigantar-se sobre todas as coisas. E o mundo retoma, devagarinho, a História que se vai escrevendo entre Poetas.



CopyrightHenriqueMendes


13 de jun. de 2016

129 - VERSOS À NOITE, SEM MEDO




Se às vezes disse à noite que chegava o dia
foi sem tristeza nem medo, nem nada assim.
Era apenas outro momento chegando ao fim,
um instante nascendo d'outro que se cumpria.

E se aos segredos das noites contei segredos,
meus, coisas que iam sobrando dos meus dias,
algumas escritas soltas, prosas várias, poesias,
eram prazeres em que divagava, não medos…

Já para os dias ficava trazendo, em sentido inverso
memórias das vielas e fados, da lua e das estrelas,
outros instantes. Memórias subtis que, para tê-las,
tornei  mais errante o passo e mais solto o verso.

Então, fui  somando tudo isso que agora sou.
Tudo o que me foi dando  essa forma de olhar,
que é de Poeta, às vezes, ou apenas um captar
de fadigas, uma passagem para onde não estou.

E quando um dia vier uma outra noite, escura,
donde não colha memórias, nas ruas da cidade,
tentarei  iluminá-la com estas histórias da idade,
até enchê-la de instantes, para ver quanto dura…


CopyrightHenriqueMendes