12 de out. de 2016

133 - DEVE HAVER UM NOME




Deve haver um nome para isso,
ou mesmo um sentido  mais profundo.

Talvez seja apenas o de uma vibração
que ocorre de todas as vezes que a sentimos,
como um fenómeno mais concreto e físico,
ou pode ser algo que  valha apenas pelo que vale,
e não seja mais que um espaço único, nosso,
entre as coisas obrigatórias espalhadas
pelo horizonte da nossa manhã.

Talvez seja um interstício óbvio entre todas as coisas.
Um reservado discreto, por trás de uma ténue cortina de tempo,
absolutamente privado e completamente ao nosso dispor,
escondido dos relógios e  das lógicas dos detalhes conversados,
das minúcias dos acordos e das convenções, e que está logo ali.

Ali, onde sempre espraiamos os olhos, sem pensar,
seja nos rostos dos outros ou naquela paisagem que já nem vemos. 
Ali, onde cada cor grita mais cores, todos os dias, sempre.

Deve haver um nome para isso, essa permanência de atenção,
essa disponibilidade para um foco de espírito
com que nos assinamos lendo o mundo em todos os momentos,
interpretando, e que nos faz presentes sendo parte, estando.

Deve haver um nome para isso, mesmo que na paisagem conhecida
as palavras não soem,  nem o vento lhes transporte jamais o som,
ou as nuvens lhes tracem jamais os risos brancos no azul imenso.

Deve haver, e difícil não será sabê-lo.

Difícil será admitir que existe.


( Poema e foto de Henrique Mendes )


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