25 de dez. de 2015
23 de dez. de 2015
117 - PERPETUANDO-SE
Um
dia decidi levar-te, Poeta, aos lugares onde se passaram histórias das quais já mal me lembro. Clareiras de luz diferente
no meio do bosque que, entretanto, se agigantou em tons de verde pardo e
tapetes espessos de caruma antiga.
Terias
apenas de descobrir os gestos de acariciar as pedras que os Poetas acariciam,
tão conformes às suas mãos tacteantes, sensoriais.
Terias
apenas de enfiar-lhes os dedos por baixo do musgo, aos poucos, em carícias cada
vez mais íntima, até lhes sentires nas palmas das mãos os formatos
arredondados, e te maravilhares tu também com o calor suave emanando delas, em
secretíssimos prazeres.
Darias
voz ao mutismo das sombras das árvores, que até aí dançavam só para mim. E mais
brilho às lágrimas de resina com que ocasionalmente as árvores se traíam por
entre a rude casca, em emoções de árvores, dissimulando a sua humanidade.
Quis
levar-te e partilhar contigo momentos especiais. Talvez exibir-me um pouco.
Talvez, ufano, quisesse que me visses
terminar de crescer, e fosses testemunha de um novo caminho, iniciando-se.
Só
não esperava ser incapaz de surpreender-te, novamente. De ouvir-te as mesmas
palavras como látegos, sibilando até me atingirem a alma com a fremência das
coisas, num paroxismo particular dos sentidos.
De
permanecermos dependentes e paralelos, depois de tudo, - dentro do acordo que
um dia criamos juntos, e ao qual, um outro dia, eu daria um fim. Acordo do qual
hoje desisto.
Sigamos,
pois. Juntos, sim!
Nas
mesmas veias, na mesma verve. No mesmo eco do Tempo…
(Tempo…Tempo…Tempo…)
reverberado entre palavras de rocha viva…
15 de dez. de 2015
116 - PASSARINHO

Escutava-se, havia já alguns
dias, um ruído anormal vindo do exaustor de ar do banheiro aqui de casa – tão
mais estranho quanto ocorria precisamente nas alturas em que estava desligado.
Intrigado, ponderei que não podia
ser nada de muito especial. Afinal, o
exaustor é apenas um pequeno motor
eléctrico que suga o ar do banheiro e o expele por um tubo que vai até ao
telhado, onde há uma espécie de pequena chaminé.
A única coisa que conseguia
imaginar, capaz de produzir um ruído como aquele, era o de uma sacola de
plástico que tivesse entrado pelo tubo e tivesse ficado entalada, de alguma
maneira impossível de imaginar, vibrando com o vento e fazendo aquele som
adejante como asas de um passarinho.
Asas de passarinho. O pensamento
surgiu como uma martelada. Não podia ser. Já se escutava há vários dias, de vez
em quando. Um passarinho não dura tanto tempo, dura ? E não se escutava nenhum
pio, chilreio, nada dessas coisas que
supomos que os passarinhos fazem. Mas seria ? Um passarinho ?
Corri atrás da lanterna e dumas
luvas, subi com um pé num banquinho e o outro no vaso sanitário, deixando a luz
do tecto desligada para não fazer funcionar o exaustor. E não escutava nem mais
um ruído, nada. Claro que não podia ser um passarinho, dizia-me um canto da
razão.
Mas às mãos impelia-as o coração.
Minha mulher segurava a lanterna, e meio no escuro, meio na sombra das minhas
mãos, lá desmontei a face do aparelho, desliguei-o da electricidade,
desaparafusei-o da parede e por fim, já de luz acesa, retirei-o do seu nicho dentro
da parede com todo o cuidado.
Lá dentro era escuro, tubo de
plástico preto, não conseguia ver bem e tive de usar a lanterna outra vez, mas sim…Um pouco mais à frente estava um
passarinho. Virava as costas para mim, e olhava para cima, para o túnel por
onde chegara até ali, e por onde agora não conseguia voltar pois não tinha
espaço para bater as asas.
Enrolei um pano na mão, que
consegui a custo enfiar no buraco até apanhar o pequeno passarinho e trazê-lo
para fora. Era um pardal comum, quentinho na minha mão, a quem tentei dar água
molhando o dedo e encostando-o ao seu bico. Ganhei umas bicadas inofensivas mas
cheias de combatividade. Forte, o seu coraçãozinho batia a mil por hora.
Decidi levá-lo até à janela do
prédio e deixá-lo voar. Voou rápido e sem hesitações, apesar do cativeiro de
vários dias, sem alimento nem água. O seu voo foi singelo e eficiente, desapareceu
quase de imediato. Mas recordo dele os
olhinhos muito escuros e brilhantes e, acima de tudo, o som das asinhas batendo,
quando saiu da minha mão. Era o mesmo som que eu escutava dentro da parede.
A alegria de vê-lo bem e voando,
livre, foi avassaladora.
Depois o momento passou, Regressaram
todas as coisas que tinham ficado em suspenso daquela hipótese de ser um
passarinho, e que de repente tinham ficado priorizadas de uma outra forma. A
internet disse-me mais tarde que se tratava de um pardal fêmea, e que viviam
cerca de 15 anos, o que é muito mais do que eu poderia imaginar. Tal como
jamais iria imaginar este presente de Natal, que a vida me deu, disfarçado de
ser útil a um passarinho.
Feliz Natal, passarinho. Obrigado
por teres vindo.
115 - NATAL DE POETAS
Não sei
quantos somos hoje.
Nem me
importa se mais, ou se menos.
Sei que nos
cuidados infinitesimais
de cada
linha escrita que encontro,
há gente
como eu, que descubro aos poucos.
Há as magias
e os convívios maiores que o tempo,
e as trocas
fantásticas semeadas nas tempestades
das ideias e
dos ideais.
Há as doçuras
compartilhadas, das emoções em afagos,
reverberando,
e gritos de
solidão, despertando ecos em espaços cheios
e
rumorejantes de não sabemos bem do quê.
Não sei quantos
somos hoje.
Nem me
importa se mais, ou se menos.
Importa-me
que possamos ter voz, e ser esperança.
E que
possamos cantar Natais cheios de beleza,
com risos em
corais, e brilhos incendiados nos olhos
das crianças
que soubermos ser outra vez.
E sorrisos, também, daquelas que ajudarmos a ser
nesse mundo
onde as crianças vão tendo tudo,
e todos os
meios, e todas as coisas,
menos a
oportunidade de serem crianças.
Não sei
quantos somos hoje.
Nem me
importa se somos mais, ou se menos.
Mas, não
sendo muito, somos Poetas.
E disso
dependem sonhos e risos, fantasias e amores ,
decantados
destinos e exacerbadas dores
ideias com
brilhos de pó de fada, ecos de outros
destinos,
sonhos de um
mundo melhor, sabores de aventura,
montanhas escarpadas
de sorrisos e palavras, carinhos,
e os
fascínios de todas as cores.
Não sei
quantos somos hoje.
Nem me
importa se somos mais, ou se menos.
Mas a todos
esses Poetas de destino assumido
que
continuam trabalhando,
eu desejo
um muito
Feliz Natal
21 de out. de 2015
114 - INVENTOU-SE O POETA
Um dia alguém inventou por bem,
na comodidade tranquila de quem sonha
desejos sem risco, coisa para os outros,
que alguém mais fosse , dissesse algo
ou fizesse extraordinário feito,
que tivesse os contornos
grandiosos
e a aparência do inevitável.
E então, o nascer dos dias
passou a chamar-se amanhecer,
(se não foi ao contrário),
conforme desse jeito dizer,
ficasse mais bonito mostrar
ou de acordo com o sentir.
As folhas verdes das florestas
soaram chuva com as
gotas grossas
repicando em branco, e
ficaram mais verdes, evidentemente.
E nos prados, daí em
diante,
as flores
exalaram em elegâncias
não perfumes, mas
luxuriantes
gritos de cor dando trabalho aos artistas.
O mundo mudou
depois que alguém sonhou
para os outros um
mundo
com contornos grandiosos
e detalhes magníficos
vicejando nos lugares comuns.
Para uns, inventou-se o destino.
Para outros, inventou-se o Poeta.(foto HMendes / pelo Dia do Poeta 20.10.2015 )
11 de out. de 2015
113 - SOCORRO
Não houve nenhum assobio baixinho,
como o vento faz nas frinchas das janelas.
Nem hastes de plantas, inclinando-se em aviso,
postes oscilando luzes inúteis em vielas mais escuras ,
ou papéis voando misturados
num caos de páginas não numeradas.
Foi apenas uma espécie de saudade
do espaço emocional mais curto,
menos estendido no tempo,
menos sujeito a efeitos de trama.
Saudade da coisinha que fica pronta,
em meia dúzia de linhas cujas emoções
crescem além das nossas que lhes deram vida.
Foi a sensação de falta desse olhar
tão benévolo, mesmo sendo crítico,
ou acre, não sendo doce,
e sempre doce, sendo de amor,
que se lança sobre o mundo
como uma escuridão de outras coisas,
e que nos isola, como se uma capa fosse,
do instante mais premente,
do projecto mais regrado e longo,
da prosa com um objectivo mais distante.
Já não me lembrava da solidão das folhas
amontoando-se para um livro.
Pude esquecer, sem senti-la, a fome
onde nascem os poemas de socorro...
Até hoje !
como o vento faz nas frinchas das janelas.
Nem hastes de plantas, inclinando-se em aviso,
postes oscilando luzes inúteis em vielas mais escuras ,
ou papéis voando misturados
num caos de páginas não numeradas.
Foi apenas uma espécie de saudade
do espaço emocional mais curto,
menos estendido no tempo,
menos sujeito a efeitos de trama.
Saudade da coisinha que fica pronta,
em meia dúzia de linhas cujas emoções
crescem além das nossas que lhes deram vida.
Foi a sensação de falta desse olhar
tão benévolo, mesmo sendo crítico,
ou acre, não sendo doce,
e sempre doce, sendo de amor,
que se lança sobre o mundo
como uma escuridão de outras coisas,
e que nos isola, como se uma capa fosse,
do instante mais premente,
do projecto mais regrado e longo,
da prosa com um objectivo mais distante.
Já não me lembrava da solidão das folhas
amontoando-se para um livro.
Pude esquecer, sem senti-la, a fome
onde nascem os poemas de socorro...
Até hoje !
5 de set. de 2015
112 - MONTANHA
Ou talvez ela não exista.
Talvez nem haja,
entre o cume e a nossa vontade,
um caminho maior que os primeiros passos,
de entre tantos ascendendo sempre.
E todos eles sob o encantamento
desse ritmo atávico da estrada longa,
inescapável, e a perseguição
errática
das folhas perdidas pelos outonos
que nos acompanham.
( Ou, quem sabe, dos dois, movendo-se
lânguidos, numa orgia lenta
de divindades estranhas.)
Ou então não passam de restos,
apenas,
poeiras e folhas, ou memórias e
momentos,
brisas e coisas assim mais simples
e sem graça mais profunda,
como frutos de acasos
e porque sim’s.
E do caminho nascido dos passos
andando,
do cume ermo e estreito,
agora sem subida e sem momento,
nem paisagem que não seja de descida,
talvez não precisemos mais
do que o mero tempo
para um gesto vago, de adeus.
Mesmo que não tenha importância
para que lado o aceno acontece, ou a
quê,
ou a quem, ou qual a história perdida,
tão frágil e única, que fica por
contar.
Ou que outra, subindo a montanha,
tecemos em fios de ouro e fiapos de
sonhos
maiores que as nuvens amarelas
dos desertos sem pegadas nem limites…
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