31 de jan. de 2013

63 - ENTRETEMPOS


Versão em português:
Consigo saber de um lugar, entretempos,
onde me perco das palavras necessárias,
me desarmo dos gestos coerentes
adotados pelo tempo de uma vida inteira,
e balanço nesse espasmo da vez primeira,
como um estai batendo em nortes diferentes,
caçando praias e dunas imaginárias,
onde me assino, em pegadas e tormentos.

Consigo saber de um lugar, entretempos,
onde as noites  são a razão dos dias arrastados,
o subterrâneo de um espaço cercado
por flores raras e exacerbadas  alegrias,
onde entre mofos e tantas poesias,
mergulho em versos de coração rasgado,
me perco em textos inacabados,
naufragando em desejos e sentimentos.

Consigo saber de um lugar, entretempos,
onde o mar, quase manso, me espera sorrindo,
em praias e palmeiras que o vento esqueceu,
afobado em devaneios e correrias.
Para lá navego todos os dias,
a proa em espumas, nesse mar tão meu,
de horizonte sempre renovado e infindo,
levando  nos lábios, o sal dos pensamentos...


6 de jan. de 2013

61 - ACREDITANDO



IMAGENS COLHIDAS DO GOOGLE IMAGES PARA FINS EXPERIMENTAIS, NÃO COMERCIAIS, PROVISÓRIOS. AOS AUTORES ASSEGURA-SE O IMEDIATO RECONHECIMENTO DA AUTORIA, SE RECLAMADA

26 de nov. de 2012

60 - AMOR DE MARINHEIRO





A Tobias,
quem o visse olhar
veria nos seus olhos, à distância,
as ondas correndo com a maré.

Mas quem lhe prestasse atenção 
veria nele mais que o mar.
Veria os seus olhos olhando longe,
e, neles,  as ondas correriam com a maré.


( foto do Google image, sem identificação )

25 de nov. de 2012

59 - SOMBRAS





Nesse rectângulo luminoso
jorrando dourado nos meus braços,
há muito mais que apenas a luz do dia
e o azul  do céu lá fora, recortando
toda a alvura da casa.

Há o movimento eternizando-se
das cortinas lentas também brancas,
e a magia além do tema,
das minhas mãos dançando
enquanto escrevem.

Tal como num dia de chuva
quando deixo que chova,
mas com mais folhas arrastando-se
pelo chão, lá fora.

E, de tudo, uma segunda voz
repete sobre a mesa a vida
diluída em sombras.

58 - JÁ É TANTO !





E agora?
Já é tanto,
descobrir em passos erráticos caminhos,
onde todos sempre apontaram apenas
a poeira do destino.
Já é tanto lançar lá longe 
olhares longos como vendavais,
afastando as nuvens vermelhas das tardes inacabadas.

Já é tanto olhar mais perto 
e ver os outros…
Sentir–lhes os passinhos agitados, incessantes,
e ainda sorrir-lhes, 
enquanto vemos por detrás deles
as pedras interrompidas, desesperadas,
cansarem-se de crescer e depois estalarem,
secamente,
exalando o seu último sorriso  
ao transformarem-se em pó !

Já é tanto
viajar  nos brilhos da estrelas e  elevar a mente,
deslocar-se pelo prazer de outras distâncias
que os sentidos jamais acompanharão…
( Quase se conseguem
tocar os dedos dos deuses antigos,
interferindo nas nossas escolhas mais elementares... )

E agora?
Transformámos montanhas em encruzilhadas ?

15 de nov. de 2012

57 - RECEITA PURA





Tempero a minha tinta com pigmentos certos 
em pequenas doses, de que nunca me apercebi.
E são sempre os mesmos, os frascos que deixo abertos,
nessas prateleiras onde guardo de tudo o que colhi.

Não são bem  memórias,   nem chegam a ser  recordações.
São mais  esboços,  algumas coisas apenas começadas,
às vezes  apenas  imagens,  ou apenas  vagas sensações.
Raramente convicções plenas, ou certezas já formadas.

São também fragmentos, pedaços de coisas, objetos costumeiros,
papéis onde lancei linhas como gritos de alma, interrompidos,
arquivos de pensamentos que  se inexplicaram, perdidos,
num mar de acasos  displicentes,  travestidos de ordeiros.

A um pouco de tudo isso, misturo a vontade e a sede do momento.
faço a tinta com que me pinto,  na tela do que vou podendo ser,
em traços fortes de emoção e uma ou outra lágrima de prazer,
até que de mim reste algo mais concreto do que apenas o sentimento.

É dessa forma, vendo  paredes cobertas de tantos pedaços de mim,
que recolhi   em tantos rumos inesperados  por onde me espraiei,
vendo  as marcas do uso dizerem-me quais foram os que mais usei,
que entendo melhor  como, afinal,  sou,  e como me tornei  assim.

E se, nesse processo de tornar-me em mim e  dar-me forma,
me dei a tanto, e em tanta coisa leio o formato da minha mão,
que privilégio conhecer-me assim por dentro, saber-me  razão,
e escolhas além dos acasos, e improvisos além da norma...

Depois encaro os dias, senão refeito, pelo menos renovado.
E se não encontro motivos para orgulho, nessas cores que exibo,
por certo também nelas não encontro razões para o ver ferido
e o meu caminho estende-se em passos de caminho caminhado....

E quando ocasionalmente me esqueço do básico que aprendi,
e dou por mim assim cabisbaixo, e vejo  o triste que eu estou,
olho os meus frascos abertos, pago o preço de ser quem  sou,
e repinto-me com as cores que, aos poucos, para mim escolhi.



Julho 2010 / rev 2012

( imagem do google )