9 de jul. de 2019

176 - A SURPRESA DE HOJE



Hoje, espelho-me em instantes.

Talvez nem me ache nos ecos
daqueles passos
com que um dia cruzei ruas
que nunca esqueci.


Talvez não me encontre, surpreso,
nas páginas cujos cantos dobrei,
há muito tempo,
sem poder imaginar que um dia
elas me apontariam esse mesmo
dedo cúmplice que  hoje lhes aponto, virando-as, saboreando-lhes detalhes e segredos em vagares maiores.



Talvez nem me reveja nas linhas
que atirei a um papel qualquer,
de tantos papéis  ao acaso
no decorrer de uma vida,
sem saber que viriam a dizer de mim
mais do que eu poderia contar.

Talvez nem possa desmontar
as camadas de tempo que se somaram
como crostas em feridas na alma,
nem os medos que se dissiparam
em solidões tranquilas,
ou em urgências que, afinal,
tinham tempo, e espaço, e tudo...

Talvez o que tenha sobrado
de tudo o que foi, ou poderia ser,
tenham sido as escolhas.
As mais profundas,
construídas duma amálgama
feita de vontade misturada
com um fado antigo, forte e
impossível de evitar.

Hoje é o dia, afinal,
que o ontem ainda não saberia ser.


copyrightHenriqueMendes10/07/2019

13 de jun. de 2019

175 - TUDO O QUE NÃO PASSA NO TEMPO QUE PASSA


Não vejo que a cidade tenha mudado.
Continua existindo em sombra e luz,
ruas alegres e becos tristes. 
Vielas onde " o tempo quando passa,
demora mais tempo a passar! "
Às vezes, os faróis dos carros
desenham sorrisos rápidos na noite,
e ficam notas de música no ar 

quando se vão
rumo a não se sabe onde, 

como se o o seu destino fosse
não ter um destino conhecido.
Outras vezes, em vidros sós,
brilham lágrimas de chuva fria,
que não escorrem.
Perlam instantes, e vão-se eternizando
num suspense dramático aos sentidos,
enquanto acrescentam um propósito
a esses vidros que não veríamos
de outra forma, traídos
pela sua transparência.
São gotas que aguardam mais gotas
para juntas escorrerem obedientemente
até ao chão estéril, de asfalto e calçadas.
Atrás de si
deixam um leve rasto molhado no vidro,
que parece ignorá-las,
um leve vestígio da sua existência
que depois se evapora
e a torna invisível.
Não, não creio que tenha mudado
a cidade.
Talvez esteja mais fácil.
Sei onde não quero ecos
dos meus passos.
E hoje não passeio tanto,
apenas cruzo atento.
E sei que nos mesmo prédios
de sempre, cheios de vida,
gentes se reúnem e encontram,
se abraçam e beijam,
se odeiam e amam como sempre.
Sei que os mesmos amantes se aguardam
em ansiedades que imaginam únicas,
porque todo o amor é único
e singelo, e dolorido
como os suspiros
que nem sabemos ter em nós.
Há choros e cantos, louvores, lamentos,
quartos onde a música toca baixinho,
passos nus na escuridão da noite,
corpos fundidos em hipóteses furtivas,
sombras cúmplices e luzes cruas
de vez em quando.
Mas não, a cidade não mudou!
Talvez eu tenha mudado,
apesar de a cidade e da vida
se repetirem como sempre
numa indesmentível beleza
avassaladora
aos olhos dos Poetas.


Copyrighthenriquemendes/2019

22 de fev. de 2019

174 - A FRONTEIRA DOS OUTROS


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Talvez um dia me encontres por aí,
sentado num canto qualquer de algum lugar,
provavelmente rabiscando folhas soltas
ou lendo, com aquele tipo de entrega total
típico de quem não poderia ser diferente.
Ou talvez frente ao computador, 
num outro canto de outro lugar, lançando linhas
noutras vastidões além do papel, 
guardando instantes prenhes de desnecessidades.
Ou ainda, talvez me encontres 
andando pelas ruas, tranquilamente, 
lançado em passos de acasos e surpresas.
Talvez traga ainda, brilhando nos olhos, 
as cores vagas de algum fim de tarde, 
se já for manhã,  
ou talvez ainda ostente  
aquele subtil aturdimento indefinível 
de quem se escutou profundamente
no silêncio  amplificador do amanhecer.
Mas não te preocupes...
Serei sempre eu, mesmo que envolto
na leve neblina duma solidão escolhida,
ou mesmo que coberto por uma espécie de manto 
feito do distanciamento do ruído dos outros.
Terei subido a montanha, talvez,
e buscado aquele isolamento mínimo vital
onde só chegam os pensamentos mais necessários
ao momento imediato, um de cada vez.
Aos outros, estarei provavelmente a escolhê-los,
filtrando-os, elegendo gratas memórias e prazeres, 
banhando-me no sabor doce das pequenas vitórias.
Terei deixado de lado, talvez, a poeira agreste 
do que é para ser esquecido, ou do que não quero lembrar.
Por isso, se me vires assim, não importa onde for,
presente mas ausente, anuindo, deixando que seja,
não estranhes e procura entender.
Há uma parte de mim que ainda deixo como ponte.
Há uma parte de mim que ainda é de todos.
Só a maior parte se remeteu, talvez, a um silêncio 
onde faço as escolhas que, depois, 
reparto com os teus silêncios.


imagem colhida na net, sem indicação de autor
CopyrightHenriqueMendes/2019

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5 de nov. de 2018

173 - SINGELA




Poderia pintar o mundo
com as cores douradas dos fins de tarde,
e tornar mais suaves as memórias duras
dos temores e dos desprazeres inevitáveis.
Usaria tons fortes de terra, não o preto,
para as sombras, e deixaria brilhos nas águas,
quando as houvesse, com leves toques de laranja
e reflexos de um céu já entrando na noite,
com esboços de mistérios e perguntas.
E haveria de escorrer-me por entre os dedos
um som suave de brisa cálida,
vibrando a nota surda das coisas doces
que, depois de um tanto,chegam ao fim
-mais um murmúrio presente no instante
do que um canto de vento ao longe,
lembrando lonjuras e horizontes.
Claro que não lhe daria as cores cruas
dum meio de tarde, quando os olhos enxergam mais
e nos perdemos nos abismos das distâncias
e em quezílias com o infinito.
E jamais o pintaria pleno de cruezas,
com brilhos agrestes ou exactidões de noite
cintilando metais e cromados,
numa ordem perfeita de recantos cuidados,
artificiais, solenes, com ecos de passos e vozes...
Não...
Eu só poderia pintar o mundo assim,
um quadro onde a vida fosse acontecendo,
que fosse fruto de escolhas e prazeres,
adoçada pelos sentidos mais que pelas vontades,
e onde a realização não dependesse
de frases sempre tão prenhes, sempre tão cheias
de significados e truques, de malícias e vácuos
das coisas impostas pelos outros,
mas sim e apenas da minha palavra mais singela:
liberdade.


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26 de out. de 2018

172 - SEMPRE ASSIM



De todas as vezes foi assim.
Começou por um perder-me de olhos vagos
ante a proximidade do infinito,
pelo corpo perdendo peso, erguendo-se,
espalhando-se pela luz dourada
do dia risonho.
As vozes do mundo foram surgindo,
soando com trinados de passarinhos,
e o vento cantava baixo
a alegria dos pólens e das flores,
perante a coreografia oscilante
das árvores, tímidas.
Foi então que a paz me inundou por dentro,
me mudou por dentro,
e na minha face nasceu em subtilezas,
num parto de instantes,
algo assim como um sorriso
- cheio de beatitude e de prazer.
Depois fui, aos poucos,
voltando à cadeira, à mesa coberta
com papel escrito, e
aos pensamentos áridos, hesitantes,
já dispersos pelo cheiro de café.
E nisso, cheguei a mim.
Optei por dizer-me “bom dia!”,
à falta de melhor…
Outro dia.


COPYRIGHTHENRIQUEMENDES/2018


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10 de set. de 2018

171 - MEMORIA ANTIGA




Não estava a pensar em nada de especial, apenas deixava a mente vaguear a seu bel-prazer, sem muita apreciação do que ela fazia. Os pensamentos sucediam-se sem me despertarem grande atenção ou críticas. Modorrava.

E foi assim, inesperadamente, que me deparei com uma recordação antiga. Não a mais antiga das que tenho, mas seguramente das mais antigas.

Da minha rua de hoje,  dum prédio distante em obras,  chegavam-me pela janela os ruídos de marteladas em concreto, coisas caíndo e sendo arrastadas, motores trabalhando. Chegavam-me também os aromas do rio, tão próximo, e de vagas flores em finais de tarde na varanda de alguém.

Talvez tenha sido tudo isso que, somando-se, me transportou para o meu quarto de criança, muito menino ainda, e para um início de dia, cheio de aromas e sons.

Dessa janela de então vinham-me os ruídos muito vagos do dia que começava e os cheiros do jardim,  onde o canteiro das ervilhas-de-cheiro, misturadas com outras flores noturnas, terminava de adocicar a noite.  Também o pessegueiro se erguia alto em promessas de futuro, ostentando pequenas flores rosadas e um cheiro já presente de frutos doces e carnudos.

Um barulho irregular de pedras batendo no cimento do quintal, foi-me despertando e incomodando até me fazer abandonar o meu sono tranquilo de criança feliz e me levar a olhar lá para baixo pela janela.

Ainda fui a tempo de escutar vozes e ver mau pai junto do velho portão de ferro, onde eu cavalgava meus sonhos de faroeste com penas de galinha na cabeça e, na mão,  um pau comprido que se transformava em lança.  Ele antecipara-se a averiguar a causa dos ruídos e acabava de pôr na rua um rapazote que tinha invadido o nosso quintal. Era visível o esforço que meu fazia para se controlar e não perder a cabeça, e minha mãe procurava acalmá-lo o melhor que podia.

Percebi depois o que o que se tinha passado. O rapazote, já bem no fim da adolescência, tinha visto da rua um pequeno cágado que tínhamos no jardim, e que na maior parte da sua calma vida ficava escondido na terra, entre folhas caídas e plantas, mas que nesse dia caminhava sobre o cimento do caminho da entrada, visível e desprotegido.

Claro que algumas vezes o víamos a beber água nos pratos dos vasos, ou meio mergulhado numa poça que meu avô tinha feito exactamente para isso, afundada no chão e para onde escorriam as regas diárias do jardim. Mas na verdade quase nem nos lembrávamos dele. Era apenas uma presença tímida por ali, que vivia a sua vida conosco. Uma curiosidade que eu, menino, tinha sido ensinado a respeitar e que me divertia com seus movimentos  lentos e desajeitados.

Foi essa essa pequena criatura que atraíu  o intruso. Cheio de um ódio incompreensível para mim até hoje, saltou por cima do muro, e virou o pequeno cágado indefeso com a barriga para cima. Depois atirou-lhe pedras, uma após outra, até que o pequeno animal sangrou abundantemente, a sua couraça rachada pelas pedradas  e incapaz de protegê-lo de uma agressão assim.

Hoje entendo que quando cheguei perto, já os meus pais sabiam que ele não iria sobreviver. Mas assim mesmo, lembro-me  que tentaram salvá-lo, e que fizeram uma pequena encenação,  em meu benefício. Lembro-me vagamente de o terem pincelado com mercurocromo, enquanto ele agitava cada vez menos as patinhas. Depois o meu pai enfaixou com gaze a carapaça, tentando mantê-la junta para lhe dar uma hipótese ( mesmo que improvável ) de soldar. Mas como ajudar um cágado, um bicho tão diferente de todos os outros?

Pouco depois tinha morrido, e também em meu benefício foi feita uma pequena cerimónia de adeus em que o enterramos dentro duma caixinha de papelão. Creio que com ele ficou aquela parte ideal, encantada, da infância de cada um de nós, que desagua na realidade mais cruel, e muitas vezes incompreensível, da vida e do mundo dos outros.

Tudo foi feito com muita suavidade, e realmente meus pais conseguiram não alimentar a minha revolta e fazer com que me esquecesse do ocorrido até há pouco dias, tantas décadas depois.

Raramente vou à minha cidade natal, onde tudo isso aconteceu. passou. Mas a casa ainda existe, com o jardinzinho lá ao fundo do quintal, e na próxima vez que por lá passar vou lembrar-me de como foi bom ser menino ali, e recordarei o meu pequeno cágado - morto apenas por estar à vista.

Chamava-se Berloque.