9 de abr. de 2018

163 - NEM SEMPRE ASSIM


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Nem sempre a noite me permite
o descanso singelo do corpo.
Há vezes em que a mente se agiganta
e se impõe, busca o espírito e o além,
e apequena sem dó qualquer outra coisa.
Perco o sono como quem adormece,
repentinamente, numa energia súbita
de quem quer mais que o repouso
e a ausência do momento sentido
num passo a passo doloroso,
de fascínios conhecidos, talvez viciante.
Os sons da  casa estão suspensos,
não há movimento na rua, nem ruídos,
e a solidão torna-se em algo mais,
como um tipo estranho de consciência.
Não me importo com a janela,
distante meia dúzia de passos inúteis.
Sei que as estrelas não estão lá,
que dormirão toda a noite
por detrás das núvens invisíveis
sobre os telhados das casas,
sem brilhos, escondidas da noite
e de mim.
E a lua está ausente do rio,
a água ignorada como se não fosse sua,
e a outra margem perdida no escuro
como se não soubesse a falta que me faz.
Entre mim e ela passam as águas
de um rio que assim não passa,
pois sem margens não há rio,
e se o rio não passa
eu não vou , nem passo,
nem me entrego acompanhando
o seu perpétuo adeus.
Também não passa o tempo, sem adeus,
e a quietude impõe-se, muito maior
que a soma dos silêncios e das ausências.
Por isso apenas fico. Até que o dia chegue
e me apeteça não estar,
e adormeça porque os sentidos desistem,
o mundo se dilui em nada,
e os outros deixam de fazer sentido.


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21 de mar. de 2018

162 - O ADEUS À VELHA CASA

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A sensação de estranheza foi-se impondo, à medida que percorria a casa conferindo tudo. Ia já ficando claro que falávamos de coisas diferentes, no fim daquela manhã, e realmente não sei se, mesmo no fim, teremos chegado a entender-nos. Mas aqueles momentos foram especiais.

Os homens da empresa de mudanças iam silenciosamente levando as caixas, já fechadas de véspera, e a casa ia ficando vazia. Passavam a escutar-se pequenos ruídos, que  começavam a ganhar novos significados. Ecos nasciam, agora, onde não os havia dantes. As chaves tilintavam sonoramente, um pouco tristes talvez, e sentia que a minha voz tinha um timbre algo diferente, um pouco teatral. Havia nela uma mistura de adeus e de satisfação que vinha de dentro do mais profundo de mim, e que soava dentro da minha cabeça tão claramente como se eu estivesse falando alto com alguém. Por sua vez, a casa respondia-me na sua própria voz, muito serena, tão conhecida, mas que eu nunca tinha escutado com tanta facilidade.

Na cozinha, a minha voz elogiou as bancadas feitas com um granito que eu gostava. E realçou os armários fartos e tão fáceis de usar. Depois lembrou-me de tantos e tantos cafés da manhã felizes, naquele cantinho reservado para a mesa e as cadeiras de todos os dias. Os petiscos da família, os amigos que preferiam ir para lá, em vez da sala.

Fui percebendo que, sempre que a minha voz interior se calava, a voz da casa me respondia lentamente, moderando meu prazer. Talvez as bancadas estivessem um pouco altas demais... -disse ela. E talvez os armários pudessem ser de outro formato qualquer, mais comum. E o cantinho com aquela mesa e cadeiras tinha ficado tão acolhedor, fazia tanto com que apetecesse ficar ali mais um pouco, que às vezes tornava até difícil  sair para ir trabalhar e começar o dia...

A isto a minha voz interior argumentou dizendo que não, e que tinha que ser assim mesmo. “-Nunca saberemos!” respondeu a voz da casa. Percebi que fugia de um acordo que também não aconteceu em nenhum dos outros pontos da casa.

No quarto de hóspedes, a minha voz falou dos amigos, do gosto que tinham em ficar, das comodidades que tinham sido pensadas para eles. E do imenso carinho posto em todos os detalhes. A voz da casa não me contrariou, permanecendo silente.

Finalmente, do grande quarto, saíram as últimas caixas que os homens carregaram no camião, e partiram levando tudo. Com isso, todo o espaço se afundou num silêncio tão sólido e pesado como concreto. Olhei em redor e percorri com os olhos o tanto que ficava, numa promessa de utilidade futura.

A minha voz interior continuava a elogiar detalhes, a recordar momentos ali vividos, as memórias querendo eternizar-se. E novamente a voz da casa me moderava, lembrando incrementos que tinham tido de nascer aos poucos, para melhorar alguma coisa ou  apenas para explorar melhor o potencial de cada detalhe. Novamente não chegámos a um acordo.

Assim sendo, rematei com um argumento que pretendia ser imbatível: “-Esta é a minha história! Dos meus feitos, dos meus amores, e das minhas paixões. Não queiras diminuir a importância disso!”


Houve um momentinho em que o silêncio ficou ainda mais denso. Depois, a voz da casa fez-se ouvir de novo:”-Não estou a diminuir a importância de nada. Mas essa é a minha história, a que tu levas contigo. Eu é que sou a tua história, a que deixas de ti”.



Fiquei sem saber o que dizer, durante algum tempo. Talvez fosse assim.

“-Então achas que, juntas, as nossas histórias são assim uma espécie de romance que houve entre a vontade e o possível ?”-perguntei.
“-Sim, creio que sim! Mas quem sabe destas coisas é a saudade…”

Não soube o que mais dizer. Era a minha hora de saír. Nem me atrevi a ir à capelinha que eu mesmo construíra nas traseiras, e onde havia escrito o meu pedido de sempre: "-Permite, Senhor, que te oremos trabalhando." Já tinha estado lá no dia anterior.

Fui olhando em redor à medida que caminhava para a porta, descendo as escadas interiores. O corrimão de madeira nobre disse-me um adeus especial, que guardo até hoje, fazendo-me uma carícia secreta na palma da mão.

Saí, fechei finalmente a porta e depois consegui não olhar para trás. Poucas vezes na minha vida senti com tanta intensidade que outro futuro estava começando ali.

Tentei filosofar comigo mesmo, enquanto entrava no carro. Avancei para a estrada dizendo a mim próprio que a vida é feita destas coisas, de momentos assim, raros e sem muitas explicações.  E que não era estranho ter havido este diálogo com a casa.
Afinal, eu tinha estado a despedir-me dela. E via agora que ela também estava a despedir-se de mim.





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12 de fev. de 2018

161 - JAMAIS TE SONHEI MAR

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Jamais te sonhei mar,
imensidão, infinitude.
Mas sempre ambicionei
que, em ti, o meu nado
fosse poema e deslumbramento,
carícia total em gesto conhecido,
elegância escolhida sempre.

Sempre quis que as palavras
fossem passos paralelos dando voz
a caminhos convergindo ao sublime.
Por isso nunca me seduziram os murmúrios
nem as mensagens pouco firmes das lágrimas,
em emoções que a dúvida profana.
Por isso nunca olhei menos longe
que a distância confortável da abstração,
onde se difusam as formas e os medos.
Por isso nunca disse em sussurros
o que o peito me ordenava aos gritos.
Por isso tantas vezes calei a alegria
da erva molhada das manhãs,
insisti em não entender céus luminosos
e fiz-me surdo ao dobrados de sinos bucólicos
que me remetiam a outras épocas
- onde o tempo ainda não era um luxo
e, resultando de um lento passado,
preconizava um futuro
onde tudo estava por escrever.




(foto colhida na net sem autoria conhecida)

CopyrightHenriqueMendes/2017
(foto colhida na net sem autoria conhecida )

11 de fev. de 2018

160 - QUERO


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Quero
as madrugadas de que eu gosto
todos os silêncios em que aposto 
e a caneta dançando nos dedos
(uma valsa onde não haja medos)

Quero 
viver toda a poesia dos instantes
e os momentos mais marcantes
o sorriso doce dos meus alentos
(o voar alegre dos pensamentos)

Quero 
que nenhuma noite em si se acabe
que o destino faça tudo o que sabe
que se revele em mais mil histórias
(sejam carícias ou derrotas e vitórias)

Quero
os abraços de todos os amigos
o sorriso fiel dos mais queridos
e uma montanha só para mim
(com sonhos subindo até ao fim)

Quero 
com algo mais que a vontade
um sabor vago de eternidade
e risadas alegres nas manhãs.
(só!)


copyrightHenriqueMendes2017

23 de jan. de 2018

159 - INFINITUDE




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O poema afastou-se, depois
de ter assomado ao longe
numa promessa imensamente
vaga de que ia chegar.


Percebi quando se agarrou
a um detalhe qualquer
e se esfumou em sólidas
concretudes inadiáveis.


Deixou um lamento.
Tinha nascido igual a todos,
um fantástico poema único
ainda por ser de facto.


E deixou um buraco no mundo,
mesmo que as casinhas ao longe
ainda desenhem sorrisos alegres
na face da montanha repetida.


Com ele foi-se o mistério,
o traço insubstancial e fino
com o qual se adequa o mundo
ao bem estar do espírito.


E assim perdeu a voz
aquela chama, apenas nascida,
de algum pormenor singular
levemente ao lado de algo.


E adiou-se o poeta, é claro,
no seu ofício extraordinário
de trazer para o mundo
a poeira encantada das estrelas.



copyrightHenriqueMendes/2017


1 de jan. de 2018

158 - NOVO FIM






Quando o tempo se encolhe,
perde importância o que pouco importa.
Chegam respostas a perguntas esquecidas,
bordejando caminhos sem rumo claro, 
como flores preciosas e acidentais
que definham por falta de atenção
depois de gritarem cores.

Rasgam-se cartas não escritas.
Guarda-se o papel que ninguém usou
e o envelope que permanece vazio, 
onde não se colaram selos nem sonhos, 
nem se escreveram destinos.
Arrumam-se cansaços antigos,
feitos de esperas e vigílias, espessos de
militâncias por valores e crenças maiores.
Levantam-se tapetes tranquilos
em busca de lixos escondidos 
com aparências de normalidade.
Varre-se, prescinde-se, arruma-se,
esvazia-se, define-se um outro esquema
para o porvernir já menos distante.
Abre-se mão de medos, resistências,
lamentos, quezílias as mais diversas
-tudo em nome da leveza para a viagem 
que começa já no próximo instante.
Percebem-se sombras fugazes,
mas quase sempre são esperanças
que nascem furtivas.
Faz-se um espaço vazio depois do ajuste,
como um berço onde embalar medos.
Mas é onde semeamos vontades 
e desfraldamos velas, querentes de vento,
que nos levem pelo mar desconhecido
das travessias necessárias.
O novo ano começa fremente,
e há galopes na manada das horas
disparadas em todas as direções,
já perseguindo metas esquivas.
E por cima de tudo há uma campânula
de silêncio adivinhado onde, aos poucos,
hesitantemente, nos vamos reconhecendo 
nos  pequenos nadas  que somos,
coisas tão nossas e inconfundíveis
como gestos íntimos.
E em toda essa agitação e alegria,
há mais um ano que ainda mal nasceu
mas que já caminha para o seu fim
-como sempre acontece.


25 de dez. de 2017

157 - 2017, PALAVRAS DE NATAL DE UM ANO COMPRIDO







Mantenho a tradição e escrevo algumas linhas de fim de ano, como faço sempre, sem saber bem porquê.
Claro que não há nisso um lucro muito evidente, mas gosto de pensar que a mais este ano conseguimos sobreviver, eu e aqueles que me lerem.
De todos os anos, há uma espécie de substrato emocional que fica. É algo assim como aquela última gota de sumo que, se quisermos, conseguimos ainda obter duma laranja que já foi espremida até ao fim.
Apertamos, apertamos mais e mais, com a mão já tremendo por causa do esforço, e por fim lá aparece a gotinha, isolada e tímida, a agarrar-se aos dedos como se estivesse reticente em soltar-se deles e pingar para o copo.
Assim mesmo, sendo a última, traz todas as memórias do fruto. E é por essa derradeira gotinha que o lembraremos, bom ou mau, doce ou amargo, com satisfação ou com desilusão. Ou algo indiferentes por não ter sido nada de especial.
Para mim, o ano que finda é como essa última gota. E  é com essas linhas que sempre escrevo que guardo o tom,  a sua vibração  e impacto na minha vida, enfim, o sabor do ano que passou.
Claro que toda a avaliação é pessoal, e escolho ficar em silêncio quanto aos detalhes mais particulares e  mais corriqueiros da minha vida, dos quais não poderia queixar-me.
Mas no todo, foi um ano amargo e cheio de catástrofes, no meu país como em muitos outros. Algumas delas naturais, como incêndios, tornados, terremotos.
Outras, menos naturais, foram-se sentindo à medida que foram ficando claras algumas realidades. Por exemplo, foi-se tornando óbvio, claríssimo, que o nosso planeta está muito mais ameaçado do que se pensava.
Para não mencionar mais nada, milhões de pessoas morrem de sede, e a água já é uma commodity de lucro garantido.  Apetece perguntar se falta para que o seja.
O tanto que fizemos de errado, por puro desconhecimento e ignorância, é gigantesco. E o que fizemos de errado, mesmo com conhecimento  e sem poder alegar a ignorância como desculpa, é mais do que gigantesco - é criminoso. 
Vertiginoso e infame, porém, é o que não fizemos. O que deixou de ser feito, mesmo sabendo do que se estava  a passar. É uma vergonha !
Isso e a noção de que o cidadão, individualmente,  pouco pode fazer para mudar seja o que for,  deixa muito evidente o que tem sido a actuação dos políticos de hoje no mundo todo.
De substancial não fizeram quase nada, além de aperfeiçoaram a política como método. Evoluíram-na, de algo que era uma espécie de arte na convivência inter pares daqueles que se dedicavam a ela, servindo o povo, para uma ciência fria e abstrata que os perpetua no poder em jogos de compadrios, transformando o povo num rebanho sem esperança e sem voz, obediente por falta de opções reais.
Hoje, os políticos, todos eles em nome dum vago povo de costas largas, são quem manda e desmanda.  Não são mais servidores do povo a quem fingem servir e proteger.
Dos seus desmandos, corrupção e falta de mandos, tornaram-se claras algumas consequências impensáveis e imprevisíveis.
Tornou-se público que nunca houve tanta escravatura como hoje, no mundo. Nunca os escravos foram tão baratos, na História da Humanidade. Pelos cálculos mais amplamente aceites, é de crer que existam entre 12,3 milhões e 27 milhões de escravos apesar dos mais de 300 tratados internacionais e convenções, produzidos pelos políticos, que exigem o fim da escravatura. Fazê-los é fácil e dá votos. Fazê-los cumprir na prática é toda uma outra conversa.
Também se tornou público que o mundo mudou, em grande parte devido à crescente electrónica de consumo, que possibilitou como nunca antes um acesso fácil e muito rápido à informação através das redes sociais. E tudo isso é desejável, social e economicamente. Mas está tendo preços altos sobre o dia a dia. 
Aquela imprensa tradicional, reconhecida como bastião da liberdade, perdeu terreno e agoniza perante a onda gigante de iletrados e desinteressados - tendo sido a existência de  ambos estes grupos convenientemente estimulada em prol da apatia.
Essa imprensa está hoje extremamente dependente de subsídios vindos de governos que ela não pode contrariar sem graves prejuízos para a sua própria subsistência. 
E muita da nova imprensa virtual, mais alinhada com as novas correntes sociais/digitais, é oportunista no seu conteúdo, na esperança de ser reconhecida financeiramente por quem está no poder.
Sem imprensa livre e discordante, quando necessário, prospera a impunidade, o roubo e o desmando. Do nepotismo nem é bom falar.
Graças a tudo isso, e ainda ao doutrinamento político nas escolas, é fácil governar através das redes sociais e para as redes sociais. Acéfalas e com pouca auto-crítica, engolem tudo. Basta ter especialistas para criar os grandes grupos seguidores necessários. Se assim se vendem sabonetes, porque não se venderiam ideologias ?
Finalmente, outra coisa que se tornou óbvia neste ano que finda foi a dimensão do policiamento ideológico, e como isso se tornou numa ditadura imposta ao mundo pelo chamado políticamente correcto. 
Reescreve-se a História através de repetições  sem fim de factos "alternativos" e convenientes. Amordaça-se da pior maneira: em nome da liberdade e da democracia. Ai dos discordantes de certas ideias, mesmo que estejam erradas e em nenhum lugar se tenham provado eficientes. Ai deles! 
E assim, o nosso mundo caminha inevitávelmente para a guerra, repetindo erros anteriores que não o deixam corrigir. É o desencanto.
Poderia ainda acrescentar mais angústias e desagrados ao ano que agora termina. Como se isso fosse necessário, e não é,  para o tornar um dos piores e mais preocupantes de sempre...


copyrightHenriqueMendes/2017