21 de mar. de 2015

103 - TARDE SÉPIA



(maratona poética con Alfredo Lopez/ Mx )
foto HMendes             

20 de mar. de 2015

102 - DIA DO PAI






Não sei que horizonte, que medida chã,
que outro tempo, ventos e rumos,
canto no meu canto, de voz alterada.

No meu canto de costas guardadas,
por paredes de pedra forte e fria,
sem grilhões nem abraços.

No meu canto, caverna de dragão,
em confortos de dor profunda,
risos de felpas antigas sob a pele.

( Não sei  de  taças erguidas, hoje.
Sei de portas para sempre fechadas...
E de ruas que fiz com palavras,
cruzando toda uma cidade de destinos
que me são profanos, e hostis,
para levar mensagens que nunca serão lidas,
e outras que já nunca escreverei.)

Sei da chuva lavando as calçadas de pedra
como lágrimas colectivas,
onde as minhas nadam, campeãs.


19.03.2015
Foto: S. Gimigniano/Toscana/Italia

7 de set. de 2014

100 - SOMANDO INSTANTES




Já cantei momentos únicos.
Preciosos, entre os instantes.
Dei voz às ruas de cidades só minhas
que tantas vezes abracei
com olhos de amante.
Adentrei-lhes sombras e recônditos,
amei-as em nichos e alcovas,
perdido nos encantamentos
surreais das suas madrugadas.
Conheço-lhes os outros instantes,
o cansaço antecipado de quem vai
e ainda tem pela frente o dia inteiro.
E depois a volta, anoitecendo.
Presenciei alguns dos seus segredos,
surpresas, coisas de às vezes…
Escutei-lhes tantas memórias,
em longos instantes de silêncio,
que me fizeram guardião
de muitos dos seus ecos…

Trago na ponta da língua
mil dos seus sabores e segredos…
Histórias de chegada e de partida.
Gestos acontecidos de improviso
na improbabilidade do impensável,
e fantásticos fulgores de acaso.
Escutei-as ciciar baixinho
os seus medos e vontades
de cidades apenas, sem tempo,
também elas feitas dos instantes
que, somados, são esse mundo
que me faz a mim de instantes.
Somados…

Cada um deles precioso,
e mil vezes relembrado.
Dos quais não me separo,
nem me ausento ou dispenso,
e que compõem essa voz
lenta, simples, já longa,
com que canto a minha vida
em palavras como momentos…

Pequenos mundos de palavras
nascendo e separando-se de mim.

Instantes de um instante…


(foto: H.Mendes  )

29 de ago. de 2014

99 - PASSO A PASSO






Começamos  por baixo,  ajeitando pedras
e sobras dum passado feito de momentos.
Sempre recriamos,  quando reciclamos rumos
e apontamos  a destinos  distantes
como se pudéssemos chegar neles assim,
afastando objecções com a vontade,
e adoçando com seduções de  luz dourada,
brilhos e  sorrisos cúmplices de alma,
todos esses  passos que,  passo a passo,
nos empenhamos em dar.

Somamos  instantes como quem faz vida,
sem pensarmos  que é a vida que faz instantes.

E sem pensarmos que as nossas escolhas
não são destinos, mas apenas
aquilo em que nos empenhamos.
Um  esforço concertado de desejo e de vontade
tentando trazer a esse mundo  cinzento, quotidiano,
todos os outros tons de coloridos ignorados,
sussurros  adiados  de amarelos  vibrantes  e vivos,
todas as cores que gritem aqueles brilhos
que nos aproximem do extremo,  dourado-único,
que,  como um tesouro,  ansiamos ter.

Mas somos instantes, como
sorrisos sorrindo no espelho.


(Foto: Henrique Mendes   2012 )