26 de jul. de 2013
77 - TODOS OS DIAS
Todos os dias surpreendo as minhas palavras.
Ignoro os esconsos dos meus caminhos tantos
e os sons frescos das madrugadas.
Caminho por eles com passos desconhecidos
num ritmo de vez primeira,
em caricias tacteantes de vez primeira,
esculpindo anseios em gestos de luz.
Procuro-me onde estiver, sempre,
numa sucessão do que acabam por ser regressos
e bater de portas cinzentas,
sem madrugadas alongando-se
contra o tempo,
e contra a morte cruel do instante
que queria eternizado.
Todos os dias
as minhas palavras se torcem em versos,
ruminam aquelas frases ditas de mil maneiras
até por mim mesmo, noutras horas,
e são cozinhadas neste sangue
que é um só, e espesso,
e único como um nascer de sol.
Todos os dias
me assino no tempo,
e desenho indelevelmente esse traço
como uma corda que a vida vai tangendo
e dedilhando com unhas de artista
e que, ocasionalmente,
soa a mim.
Junho 2013
76 - SEMEAMOS
Somos assim, semeadores...
Quem nos olha não vê, nem imagina que exista,
nos gestos com que enchemos os dias,
esse algo mais, composto da subtil essência
com que os dias nos enchem a nós.
Vistos de fora, somos apenas mais uns...
Sentados nos degraus de pedra quente,
no improvável silêncio da noite mais improvável,
nada nos ressalta nem enaltece,
nem ninguém nos aponta com o dedo,
em estranheza ou em estranho receio.
E também ninguém sabe,
nem ninguém adivinha que, no calor da pedra,
absorvemos a história da escadaria.
Nem é visível, nos nossos passos erráticos,
o carinho com que tornamos nosso
o percurso dos passos com que tantos outros,
lhe subiram os degraus, antes,
ou os desceram rapidamente,
em fortuitas lógicas de vida,
e que depois se espalharam pela cidade
como se fossem inconseqüentes...
Por isso, tantas vezes, não se entendem
os sorrisos vagos , nas nossas faces,
ou os cenhos carrancudos da nossa zanga...
Por isso, tantas vezes, nos criticam
os braços erguendo alto algum brinde,
sem verem que é o momento único,
que mais ninguém viu ou cantou,
que queremos congelado
antes que passe e se esfume
sem que nada lhe dê voz...
Porque é isso que somos:
-Testemunhas.
E, do nosso testemunho,
semeamos histórias.
Semeamos algum sentido...
75 - FIM DE VERÃO
Há um fim de verão, nas ondas do meu mar.
Um calor que é meu, e diferente,
que extraí e sintetizei, como seiva fosse,
das profundezas formidáveis dos momentos.
Das andanças por lugares só meus,
que percorri de mãos dadas com um fado
muito maior que o meu destino.
E que agora são já caminhos.
Há , sim, um fim de Verão, nas ondas do meu mar.
Mas sou já Outono.
Quente, ainda, e carregado
com todas as cores do Verão.
Sem folhas soltas correndo pelo chão, fenecidas,
arrastando-se sobre as pedras lisas
com o som grave do fogo crepitando nas fogueiras.
Porque minhas folhas , são sonhos que o vento leva,
e em cada uma delas a minha paixão desmesurada:
- meu grito de amor que nada, nunca, igualará.
Por isso, minhas folhas irão tendo de mim mais do que eu.
Levar-me-ão em todos os poemas que eu for sendo,
e talvez por mim acendam estrelas, únicas como diamantes,
dando vozes a silêncios e madrugadas.
Eternizarão brilhos de vela em olhos lindos,
raízes de memórias em flor ladeando trilhas de tempo.
Areias quentes em enseadas de prata incontrastada.
Bosques de gestos frondosos, regendo um enorme concerto
de milhares de ternuras subtis, sincronizadas
pelas partituras voláteis dos momentos …
Talvez por isso aquele tronco desnudo lá na frente,
qual maestro, pára-raios da estranheza
sob um luar de todas as descobertas.
Imperceptíveis na noite do deserto, alastrando-se,
dunas e veludos, em narinas de camelos…
E por isso, só por isso, jamais serei Inverno.
74 - A TODOS OS POETAS
Pintamos com nossas cores os sentimentos,
e aqueles congelados momentos
a que damos vida e emprestamos sonhos.
Eternizamos subtilezas
em cronogramas intemporais,
que musicamos com a nossa voz.
Ao que já era, damos foco
e, com sorte, substância e ritmo,
luz e sombra, em suaves alternâncias.
Temos conosco uma responsabilidade acrescentada
por essa consciência mais que física,
de quem interpreta a vida em etéreas vibrações
de suaves consonâncias,
acrescentando-lhe algo além da beleza.
È isso que fazemos, em persistentes onanismos
rebuscados de canetas e teclas...
Dando-lhe nome,
fazemos poesia em prazerosas dores e vagares,
e inevitáveis fascínios pessoais,
em renovadas vagas de repetição,
que mais não são
do que uma tautologia,
um outro foco, uma outra sintonia,
uma mesma velha coisa
numa outra maneira de dizer...
Algo que toda a gente já via,
mas não conseguia ver !
Mas o que não temos ainda, e nunca teremos,
é a poesia, ela mesma....
Ela, algo que não se pesa, nem se vê,
e da qual não somos donos, nem amos
-apenas a acordamos,
em quem nos lê...
Ou não !..
73 - O VELHO DOS OLHOS DE POETA
Todos acabaram vendo aquele velho lá na praça
Sentado ao sol, comendo, num banco acomodado,
Olhando tudo com o ar meio feliz, meio sem graça
De quem repousa e, aos poucos, vai ficando saciado.
Tinha aquele olhar brilhante e meigo, de Poeta,
E quem o olhasse assim, na praça, bem ao meio,
Não saberia dizer se ele viera naquela bicicleta
Encostada ali de frente, na beirada do passeio.
E quem soubesse não poderia dizer, afiançando,
Como fora que ali chegara o velho dos olhos de poeta,
Se chegara apenas empurrando-a e caminhando,
Ou se nela viera sentado, pedalando na velha bicicleta.
E foi assim que começou a lenda dele, foi nesse dia.
De repente chegava, e não tinha hora para chegar,
E isso também era uma coisa que nunca ninguém via:
O momento exacto daquele velho forte se aproximar.
Ele gostava de sol, mas dava no mesmo quando chovia.
Escondia-se um pouco no coreto, até a chuva passar
Mas logo regressava ao banco, onde toda a gente o via,
Ali no meio da praça, apenas, e andava longe o seu olhar …
E todos os dias chegava, e aquele banco era já pertença sua…
Vinha de onde, o Poeta ? - como lhe chamavam agora-
Para onde ia, quando se ia o sol e, à tarde, sucedia a lua ?
E regressava de onde quando ao dia precedia a aurora?
As crianças gostavam dele, e das histórias que contava.
As senhoras, dos seus cumprimentos de cavalheiro.
Os homens da ameaça que por certo não representava
E da esquadra de polícia podiam vê-lo o dia inteiro.
Mas era bom, o velhote, e gentil com toda a gente.
As senhoras davam-lhe roupa e comida, que agradecia
Sorrindo, com um ar tão feliz, e tão sinceramente,
Que ninguém levava a mal quando ele também as dividia.
Porque as suas mãos que recebiam, também davam
E na meiguice dos seus olhos de Poeta, meio vagos,
Havia um carinho grande por aqueles que precisavam.
Nos olhos trazia carinho, mas na alma trazia cuidados.
E nunca aconteceu faltar-lhe nada do que ele queria
Nem ele faltou com carinho aqueles a quem acarinhava
Nem precisou deixar de dividir nada com quem dividia
Ou tampouco de abandonar o banco onde se sentava…
As pessoas habituaram-se com ele, e assim foi acontecendo,
Que elas mesmo foram repartindo o pouco que lhe davam,
E quando o velho se apercebeu que assim estava sendo
Olhou em volta e sorriu feliz vendo como todos partilhavam.
Então um dia, mesmo não tendo hora, chegou tarde o Poeta.
E as pessoas nem notaram , e ninguém realmente reparou
Naquele velho forte, caminhando ao lado da velha bicicleta,
Que veio vindo até ao meio da praça, e ao lancil a encostou.
E no dia seguinte, quando amanheceu sozinha a bicicleta
La no meio da praça, em frente aquele banco de jardim
Onde tantas vezes se sentara o velho de olhos de poeta
Perguntavam-se: “Que Poeta era esse, que se foi assim ?”
Sem saberem bem o que fazer com a velha bicicleta
Deixaram-na ali mesmo, e dali ela nunca foi roubada.
E muitos sentiram a ajuda do velho de olhos de Poeta
Enquanto pedalavam, fossem adultos ou criançada…
Jan/2013
Sentado ao sol, comendo, num banco acomodado,
Olhando tudo com o ar meio feliz, meio sem graça
De quem repousa e, aos poucos, vai ficando saciado.
Tinha aquele olhar brilhante e meigo, de Poeta,
E quem o olhasse assim, na praça, bem ao meio,
Não saberia dizer se ele viera naquela bicicleta
Encostada ali de frente, na beirada do passeio.
E quem soubesse não poderia dizer, afiançando,
Como fora que ali chegara o velho dos olhos de poeta,
Se chegara apenas empurrando-a e caminhando,
Ou se nela viera sentado, pedalando na velha bicicleta.
E foi assim que começou a lenda dele, foi nesse dia.
De repente chegava, e não tinha hora para chegar,
E isso também era uma coisa que nunca ninguém via:
O momento exacto daquele velho forte se aproximar.
Ele gostava de sol, mas dava no mesmo quando chovia.
Escondia-se um pouco no coreto, até a chuva passar
Mas logo regressava ao banco, onde toda a gente o via,
Ali no meio da praça, apenas, e andava longe o seu olhar …
E todos os dias chegava, e aquele banco era já pertença sua…
Vinha de onde, o Poeta ? - como lhe chamavam agora-
Para onde ia, quando se ia o sol e, à tarde, sucedia a lua ?
E regressava de onde quando ao dia precedia a aurora?
As crianças gostavam dele, e das histórias que contava.
As senhoras, dos seus cumprimentos de cavalheiro.
Os homens da ameaça que por certo não representava
E da esquadra de polícia podiam vê-lo o dia inteiro.
Mas era bom, o velhote, e gentil com toda a gente.
As senhoras davam-lhe roupa e comida, que agradecia
Sorrindo, com um ar tão feliz, e tão sinceramente,
Que ninguém levava a mal quando ele também as dividia.
Porque as suas mãos que recebiam, também davam
E na meiguice dos seus olhos de Poeta, meio vagos,
Havia um carinho grande por aqueles que precisavam.
Nos olhos trazia carinho, mas na alma trazia cuidados.
E nunca aconteceu faltar-lhe nada do que ele queria
Nem ele faltou com carinho aqueles a quem acarinhava
Nem precisou deixar de dividir nada com quem dividia
Ou tampouco de abandonar o banco onde se sentava…
As pessoas habituaram-se com ele, e assim foi acontecendo,
Que elas mesmo foram repartindo o pouco que lhe davam,
E quando o velho se apercebeu que assim estava sendo
Olhou em volta e sorriu feliz vendo como todos partilhavam.
Então um dia, mesmo não tendo hora, chegou tarde o Poeta.
E as pessoas nem notaram , e ninguém realmente reparou
Naquele velho forte, caminhando ao lado da velha bicicleta,
Que veio vindo até ao meio da praça, e ao lancil a encostou.
E no dia seguinte, quando amanheceu sozinha a bicicleta
La no meio da praça, em frente aquele banco de jardim
Onde tantas vezes se sentara o velho de olhos de poeta
Perguntavam-se: “Que Poeta era esse, que se foi assim ?”
Sem saberem bem o que fazer com a velha bicicleta
Deixaram-na ali mesmo, e dali ela nunca foi roubada.
E muitos sentiram a ajuda do velho de olhos de Poeta
Enquanto pedalavam, fossem adultos ou criançada…
Jan/2013
17 de jul. de 2013
72 - LIVROS DIGITAIS ( crónica )
Queria comprar um tablet, há uns
tempos atrás. Pesquisava a esse respeito num oceano de promoções todas elas
tentadoras, quando uma delas me atraiu olhar com uma frase simples, lançada
quase com displicência para o meio daquela efervescência toda, das marcas, dos
números, das vantagens: - Compre um dos
nossos, e ganhe dois milhões de livros.
Intrigou-me. E fez com que uma
outra questão acabasse por impor-se a tudo o que estava fazendo: - o livro, tal
como o conhecemos, que futuro terá ? Pesquisei um pouco mais, e acredito que acabei
comprovando uma frase de há muitos anos: “a inevitabilidade do futuro está
naquilo que já aconteceu”. Sim, é bem possível que esteja.
Na minha pesquisa, não sei se
válida, encontrei aqueles que acham que nada, nunca, virá a ocupar o lugar do
livro tradicional: - de papel, na estante ou no colo, agradável ao toque, com algum
eventuais anotações românticas escritas à mão entre as páginas amarelecidas…
Mas encontrei argumentos fortes, também,
acerca de florestas dizimadas em favor de livros que, aos milhões, são postos
de lado tão logo perdem a actualidade técnica. Encontrei imagens fortíssimas
de armazéns imensos cheios de caixas de
livros provenientes de doações, classificados, separados, esperando utilidade
em algum lugar que, aparentemente, tarda em surgir. Milhões também. Imagens que se repetem em várias cidades de
vários países lidando com esse mesmo problema de espaço, real e contundente,
impossível de ignorar, e de que se fala pouco.
Numa tentativa de resumo,
colocaria de um lado os que ainda estão discutindo a sua preferência pelo livro
escrito tradicional, ou pelo electrónico. Como se fosse estética – e não deixa
de o ser – ou emocional, essa escolha que parece ainda existir.
No meio, colocaria quem já me
oferece dois milhões de livros na compra do tablet, menor que um livro, e capaz
de os ler a todos… Cada um deles custando mais barato, sem custos ambientais tão visíveis, e quase com a mesma
portabilidade, além de outras vantagens e defeitos.
Razões pelas quais me questiono quem é quem, nesta crónica chamada mundo, que nós escrevemos, dia após dia...E para quem, depuradamente, criteriosamente, escrevemos nós afinal? Será sempre para um mesmo público, feito de nós próprios ? E valerá a pena ?
10 de jul. de 2013
71 - POR MUITOS ANOS
Por muitos anos
guardei nas palavras não ditas
as histórias secretas
daquelas poucas que dizia.
Como se fossem um cofre
que não parasse de crescer
onde eu fosse guardando
em permanentes cuidados
tudo o que não fui capaz de dizer
na hora certa.
Todos os desejos não expressos.
Todos os votos não feitos.
Porto Seguro / Villagio Arco Balleno
2011 ( revisada)
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