13 de jun. de 2011

10 - FIM DE DIA



Desço os degraus da rotina.
Vou pousando a caneta.
A brisa trazendo as regras do mundo.
Sopros difusos e entardecidos.
Vozes indistintas ainda vagas.
Coisas que capto sem querer.
O fim da tarde impondo-se.
Sons repletos dos outros.
Vontades além das minhas.
Gritos que não os meus.
Caminhos abrindo-se nos sons.
Pensamentos fugindo á vontade.
Pressa na luz que foge.
Tensões feitas de horários.
Aves mais silenciosas e mais raras.
Flores de outros tons.
A vida mudando de cor.
Poetas adiados.
Escritos incompletos.
Objetos que demoro a reconhecer.
A outra vida já chegando.
Os ritmos já mudando.
Ajustes sendo feitos.
Idéias a guardar em vão.
Perdida a centelha motriz.
Assumida a hora real.
A mudança que castiga.
O fim tangível do caminho.
O retorno inabalável á esperança.
O carinho da vida a dois.
Campos rasos e chãos.
Espaços abertos para a outra metade.
A mesa farta que me aguarda.
Mas, amanhã, eu volto!

9 - O MAR E TU ( Dulce Pontes + Andreas Bocelli )




 Composição : Dulce Pontes / E. Gragnaniello

Sentir em nós
Sentir em nós
Uma razão
Para não ficarmos sós
E nesse abraço forte
Sentir o mar,
Na nossa voz,
Chorar como quem sonha
Sempre navegar
Nas velas rubras deste amor
Ao longe a barca louca perde o norte.


Ammore mio
Si nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'ammore esiste quanno nuje
Stamme vicino a Dio
Ammore


No teu olhar
Um espelho de água
A vida a navegar
Por entre o sonho e a mágoa
Sem um adeus sequer.
E mansamente,
Talvez no mar,
Eu feita espuma encontre o sol do teu olhar,
Voga ao de leve, meu amor
Ao longe a barca nua a todo o pano.


Ammore mio
Se nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'amore esiste quanno nuje
Stamme vicino a Dio
Ammore
Ammore mio
Si nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammo re mio
L'amore esiste quanno nuje
Stammo vicino a Dio
Ammore

12 de jun. de 2011

8 - TÚNEL




Talvez tenha construído demasiado longo
esse túnel feito de palavras.
Esmeradas, escolhidas, polidas como jóias.
Únicas todas elas, raras e tão especiais.
Mas um túnel demasiado longo,
sem claridade na saída. Nada.
Nada, a não ser o brilho escuro, familiar,
vindo do próprio túnel, onânico, solitário,
de mais palavras desabrochando momentos,
feições novas de velhos significados revistos,
velhas roupagens puídas cerzidas mais uma vez.
Apenas mais palavras.
Uma espécie de infinito tornado cúmplice,
noite,  penumbra escondendo os outros,
suas dores, mágoas, medos, monstros,
e escondendo-me de quase todos eles.
Tudo para dar-me o tempo de mais um poema,
jamais singular, e  jamais definitivo,
como tanto desejaria que fosse.
Jamais um poema revelador, feito de luz,
maior que apenas um monólogo incontido,
mostrando-se além da prudência
que o tempo trouxe.
E,  inevitavelmente,
jamais algo que me colocasse
além das simples palavras.
E de monólogos no meio de um túnel.

Foto: Ian Briton/Freephoto.com

11 de jun. de 2011

7 - AETERNUM




O dia virá em que a linha, como uma risada interrompida,
ficará inconclusa. Por escrever.
Mas  nesse dia nada ficará diferente.
Não mudará o espaço,  que continuará vago
-como sempre o estará  o espaço dos poetas, disponível-
e que, apesar disso,  continuará a estar cheio,
porque jamais poderia estar doutra forma
aquilo que a própria ausência enche  e enuncia.


E o que  sobrar  na memória dos outros,
capaz de merecer uma citação concreta, reproduzível,
uma frase lapidar que ilustre bem uma situação,
ou que claramente aponte um norte,
será tão importante quanto esse espaço de ser  imutável,
que nada jamais  alterou, a que nada dará fim
e que nenhum fim terminará.


E se nada chegar a esse ponto,
de mudar aos olhos dos outros;
se houver apenas uma vaga sensação de falta,
de coisa indefinível  que o quotidiano crú apagará,
haverá  ainda a memória daqueles que um dia,
pelo breve  tempo encantado de um poema,
voaram mais alto e viram o mundo com outros olhos
-e souberam que ser Poeta é ter uma outra voz,
e sentir sob uma outra forma de consciência.
Que é imortal, mesmo no silêncio.


8 de jun. de 2011

6 - GRITO ( clip )



Poema :  H. Mendes / Clip : L. Aguilar / Musica : Net, autoria desconhecida

5 - GRITO ( poema de 1986 )


O Grito.jpg ( Quadro: O grito, de Munch )

Às vezes, apetece-me gritar ao espaço
um grito livre de todas as peias,
distante de todos os medos
e vazio de todas as angústias.
Um grito terrível, animal
e sem significado.
Um daqueles gritos
em que a alma se rasga ...
Um grito selvagem e livre
como só um grito pode ser...
E no silêncio seguinte,
reconstruir as manhãs de sol
e os cheiros das coisas...
Tornar obrigatórios
os sabores pálidos das frutas raras,
e os perfumes das flores nocturnas...
E descobrir em todos os dias seguintes
um amanhã diferente do meu amanhã de sempre...

( como se fosse o último grito,
 o último amanhã,
 ou a última vez ! )


.

7 de jun. de 2011

4 - FALUAS DO TEJO ( Madredeus )


Faluas, (a)
Vaga lembrança
Qu'eu de criança
Guardei para mim
Se as vejo ainda
Às vezes no Tejo
Revivo a alegria
Do tempo em que via no rio a passar
Faluas do Tejo
Que eu via a brincar
E agora não vejo
No rio a passar
Faluas vadias
Que andavam ali
Em tardes perdidas
Qu'eu nunca esqueci
E era tanta à beleza
Que essas velas ao sol vinham criar
Belo quadro da infância
Que ainda não se apagou
E eu tenho a certeza
Que as Faluas do Tejo hão-de voltar
Outra vez a Lisboa

(a) Falua é um tipo de barco típico da foz do rio tejo, práticamente desaparecido.